Nota sobre a morte de Bruno Pereira e Dom Phillips

Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

Historicamente a Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco denuncia as violações de direitos cometidas por agentes de diversos setores do Capital – desde a exploração da mais valia nas fábricas até a necropolítica -, elementos de determinação do processo de saúde e doença. Hoje, destaca-se a degradação dos territórios originários de povos e comunidades tradicionais, e das unidades de conservação onde sobrevivem e resistem. Os povos das florestas, dos campos e das águas são guardiões da biodiversidade, da sabedoria coletiva e da sustentabilidade planetária.

Seria preciso muitas páginas e lágrimas para fazer presentes todas as pessoas que tombaram na defesa desses territórios, da vida, e dos direitos humanos. Ainda permanecem na memória recente de seus os assassinatos de João Pedro Teixeira; Margarida Alves; Zé Maria do Tomé; irmã Dorothy Stang; Marçal Guarani; José Claúdio e Maria do Espírito Santo; o Massacre de Eldorado de Carajás; o Massacre de Pau D’Arco; o Genocídio Yanomami de Haximu; Marielle Franco e Anderson Gomes; e, agora, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips. 

No Brasil, o assassinato  de Bruno e Dom provocam uma indignação secular a este processo de execução, acobertado pelo Estado. Reforça a triste estatística de ser um dos países que mais mata jornalistas, ambientalistas, lideranças tradicionais e defensores dos direitos humanos. 

Bruno apoiava a iniciativa de “Vigilância Indígena” realizada pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). Ele estava contribuindo com as equipes para o uso de tecnologias, como drones e geoprocessamento, a fim de mapear as ameaças ao território pela ação de garimpeiros, madeireiros, caçadores e grileiros. A máfia que envolve todos esses agentes, associada ao narcotráfico e agentes públicos que deveriam estar protegendo os indígenas, não permitiu que Bruno continuasse vivo e atuante, apoiando a vigilância popular do território.

É em solidariedade aos que ainda lutam por uma sociedade mais igualitária, saudável e sustentável, que erguemos nossas vozes, e lembramos que embora Bruno e Dom tenham perdido suas vidas, os grupos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais permanecem mobilizados em uma resistência aguerrida e sofrida.

A necropolítica implementada pelo governo, com apoio da elite, não esconde seu gozo com a dor do outro. Diante de nossa dor, apenas perguntam “E daí?”, como se não houvesse um pacto de silêncio e cumplicidade entre aqueles que executam pessoas e destroem a floresta e aqueles que deveriam, por dever institucional, preservar a vida e a saúde coletiva. 

ONGs nacionais e estrangeiras têm denunciado tais crimes e violações diariamente. Relatórios são produzidos e até tribunais populares convocados. Mas, na ausência do Estado de direitos, no abandono da população mais vulnerável tanto no campo como nas cidades, como defender o direito à vida?  

A fala do líder Macuxi, defendendo a Terra Indígena Raposa do Sol, nos convoca para a ação: “A justiça não age, nossa água e nossos peixes contaminados, nossa floresta sendo derrubada, as lideranças assassinadas. A gente não vai ficar assistindo nosso povo morrer, se temos condição de fazer algo. E vamos fazer ainda muito mais” (Brasil de Fato, 20/6/2022).  

Precisamos colocar a vida no centro das políticas públicas – sejam elas econômicas, de saúde, educacionais ou de defesa do meio ambiente. Só assim, esperamos construir um país com mais justiça social, sanitária e ambiental; mais fraterno e que respeite os modos de vida e saberes de todos os povos que conosco compartilham o planeta. 

Bruno Pereira e Dom Phillips – presentes!

 

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