“Saúde é ponte entre agroecologia e sociedade”, diz Raquel Rigotto

Raquel Rigotto durante Abrascão 2018 | Foto: Rafael Venuto/Abrasco

As últimas manchetes sobre agrotóxico são preocupantes: a Agência Pública pontuou que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicou a autorização de pelo menos 57 novos produtos elaborados com os químicos- incluindo o glifosato – nos últimos dois meses; a Universidade Federal Fluminense (UFF) divulgou estudo que relaciona uso de agrotóxicos a obesidade e diabetes; e, em texto da Rede Brasil Atual, há a divulgação de uma pesquisa comprovando que, no estado do Mato Grosso, a contaminação é tanta que os venenos atingem até a água da chuva.

Diante deste cenário, a agroecologia como alternativa ao agronegócio se faz cada vez mais urgente e necessária. Para Raquel Rigotto, coordenadora do GT Saúde e Ambiente da Abrasco, uma maneira de trazer a pauta para a sociedade é tratar como questão de saúde pública: “Se há uma leitura de que é necessário que a sociedade atue e lute pela agroecologia, também há uma leitura de que a saúde é a principal ponte entre esse potencial interesse da sociedade [pela agroecologia], na medida em que cresce a preocupação com a qualidade dos alimentos e com o que eles trazem de carga ambiental e nutricional em si”. Rigotto, que também é docente da Universidade Federal do Ceará, explica ainda que, por outro lado, para o campo da saúde é importante observar que a agroecologia constrói alternativas ao desenvolvimento e à modernidade, criando uma perspectiva que “incide na determinação social do processo saúde e doença, nos ajuda a formular perspectivas de organização da vida social que sejam mais saudáveis e mais sustentáveis”.

A Abrasco e a Agroecologia 

A abrasquiana explica que a interface da agroecologia na Associação Brasileira de Saúde Coletiva se dá em muitas frentes: “Temos uma série de questões que envolvem os Grupos Temáticos da Abrasco. Em relação aos alimentos, a agroecologia aporta para o debate da segurança alimentar e nutricional e da soberania alimentar [dialoga com o GT Alimentação e Nutrição em Saúde]; tendo em vista que muitas vezes o modelo de vigilância sanitária não considera as especificidades dos pequenos produtores, dos produtores orgânicos e agroecológicos, há também as questões que esses movimentos [agroecológicos] têm trazido para a área [GT Vigilância Sanitária]; em relação ao meio ambiente há uma série de interações entre nós [do GT Saúde e Ambiente], já que o meio ambiente sadio é fundamental para o desenvolvimento da agroecologia; também no que diz respeito às questões de gênero [GT Gênero e Saúde], as mulheres têm protagonismo muito importante no campo agroecológico, organizações de mulheres das comunidades, camponesas, também nas redes de feminismo nacional; há toda uma inter-relação do ponto de vista do trabalho – o que é o trabalho na perspectiva agroecológica e o que é o trabalho de empregados do agronegócio – debates que vêm sendo feitos pelos GT Saúde do Trabalhador e GT Saúde e Ambiente, especialmente na questão dos agrotóxicos”.

Para além da discussão nas esferas internas da associação, há o diálogo com a ABA (Associação Brasileira de Agroecologia) e com a ANA (Articulação Nacional de Agroecologia), que é frutífero, por exemplo, na elaboração de importantes políticas públicas que beneficiam a saúde coletiva e a agroecologia: a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO); o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PLANAPO); o Programa Nacional da Redução de Agrotóxicos (PRONARA); e, mais recentemente, a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA), que tramita na Câmara dos Deputados.

Por fim, Rigotto frisa que o campo agroecológico significa inspiração, já que tem como característica a construção de conhecimentos através da troca entre pesquisadores, acadêmicos e agricultores, camponeses e experimentadores: “É algo que nos inspira no campo da Saúde Coletiva. No GT Saúde e Ambiente viemos refletindo muito e experimentando esse desafio da produção de conhecimentos articulada ao diálogo de saberes com o território em conflitos ambientais, com movimentos sociais…uma reflexão da pesquisa, da práxis acadêmica em termos de extensão universitária, e da própria formação dos estudantes” , conclui.

Workshop discute Perspectivas em Agroecologia no Brasil

É a partir destas colocações que Raquel Rigotto estará representando a Abrasco na mesa “Saúde, agroecologia e territórios”, na próxima quinta-feira (14/03), durante o evento Perspectivas em Agroecologia no Brasil – Ensino, Pesquisa e Extensão, que já acontece em Brasília – e é organizado pelo Núcleo de Agroecologia da Universidade de Brasília (NEA-UNB).

Fran Paula – integrante da ABA, da FASE-MT e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida – também será palestrante, e afirma que o espaço é essencial para o debate da conjuntura atual do país em relação aos agrotóxicos: “O que vivenciamos é um atentado à segurança alimentar e nutricional, onde o governo vem adotando medidas de incentivo a uso de agrotóxicos (muitos destes liberados em 2019 são altamente tóxicos) colocando em risco a saúde das pessoas e do ambiente. Visando sobretudo os interesses econômicos de um modelo de produção agrícola quimicamente dependente e de adoecimento. É grave o que acontece no Brasil! Diante disso  este debate é fundamental para traçarmos estratégias de fortalecimento da agroecologia e dos sistemas alimentares saudáveis”. Além de Raquel e Fran, participam da mesa Denise Oliveira (Fiocruz) e Lucas Lemos (MST), além da moderadora e também abrasquiana Fernanda Savacki (Fiocruz e ABA).

Perspectivas em Agroecologia no Brasil – Ensino, Pesquisa e Extensão
Local: Auditório Fiocruz  – UNB – Brasília
Data: 11 a 15 de março
Mais informações no site da UNB

Comments

comments

Deixe uma resposta