Cesar Victora e aleitamento: um caso de amor baseado em evidências

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“A amamentação, para mim, é um caso de amor. Um caso de amor baseado em evidências”. Diante de um público de cerca de 2 mil profissionais da nutrição, da pediatria, da saúde pública e demais áreas, Cesar Victora contou histórias desse caso sério, que envolve também a ciência, a equidade, a epidemiologia e a saúde de mães e crianças em todo o globo terrestre. O abrasquiano proferiu a conferência de abertura do XV Encontro Nacional de Aleitamento Materno (XV ENAM) e do V Encontro Nacional de Alimentação Complementar Saudável (V ENACS) e promoveu uma sessão de autógrafos de sua nova obra, “Epidemiologia da desigualdade: quatro décadas de coortes de nascimentos” atividades realizadas, respectivamente, nos dias 13 e 14 de novembro, no Rio de Janeiro.

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Na comunicação “Amamentação: saúde para toda a vida” Cesar Victora resgatou sua trajetória de mais de 40 anos dedicados à pesquisa e ao acompanhamento das condições de saúde da população brasileira a partir das informações coletadas nas quatro coortes de Pelotas (RS), “microcosmos do país” por se assemelhar ao quadro demográfico nacional.

“Se pudesse resumir tudo o que trouxe para falar em uma frase sintética, diria que o aleitamento materno tem um duplo desafio: manter-se relevante e presente na vida das mulheres e das crianças, evitando ao máximo a sua substituição por fórmulas, e ser um instrumento na prevenção contra a obesidade” disse Victora, ressaltando a atualidade desse debate.

“Uma das coisas boas de ter atravessado tanto tempo de pesquisas é poder dizer como aleitamento materno é eficaz e influencia na saúde dos adultos e o que mudou ao longo desse tempo”. Das mudanças, apontou o salto das taxas de obesidade infantil no Brasil. Enquanto na primeira coorte, de 1982, o registro da obesidade infantil foi de 5%, na coorte mais recente, iniciada em 2015, esse percentual subiu para 12%.

A excelência científica alçou o epidemiologista a diversos rankings científicos, dentre eles a seleta lista “Highly Cited Researchers”, anualmente divulgada pelo Web of Science Group, setor da holding Clarivate Analytica responsável pela organização dos dados sobre produção e impacto das pesquisas no mundo.

Não seria para menos. Toda a dedicação e rigor científico no trabalho de Victora e equipe construíram aportes fundamentais para um melhor acompanhamento da saúde de mães e crianças em escala global, como as pesquisas que relacionam o aleitamento materno exclusivo à mortalidade infantil – o primeiro artigo, de 1987 –, ao desenvolvimento cognitivo da infância à vida adulta – fruto das pesquisas mais recentes e publicado como artigo em 2017; e a construção de curvas de crescimento infantil, atualmente adotadas em mais de 140 países.

“No começo eu recebi muitos nãos para a publicação dos artigos. Agora eles me convidam” disse o espirituoso pesquisador, em alusão à série sobre aleitamento materno por ele coordenada para a revista The Lancet, em 2016. Entre as evidências consolidadas nesta publicação, menos de 40% das crianças menores de 6 meses são amamentadas exclusivamente nos países de renda baixa ou média e cerca de 1/3 das crianças entre 6 e 24 meses não são amamentadas. As revisões sistemáticas da literatura sobre aleitamento e mortalidade e o uso de softwares para modelagem do número de óbitos evitáveis em menores de 5 anos apresentam a marca de 820 mil mortes por ano que poderiam ser prevenidas pelo aleitamento.

E por que isso acontece? “O leite materno é uma substância viva e única. Hoje em dia o quanto se fala de medicina personalizada está aí o leite materno”, assegurou o pesquisador listando a presença de bactérias e células imunológicas do micro bioma intestinal da mãe, micro RNA e micro-vesículas com efeitos epigenéticos e até células-tronco que sobrevivem na criança. “A indústria tenta copiar o leite materno e não vai conseguir. É burrice achar que vai enlatar células-tronco”.

O abrasquiano fez questão de responsabilizar a sociedade como um todo por essa prática de saúde, economia e afeto. “O aleitamento é um dos raros comportamentos saudáveis que são mais frequentes em países pobres do que em países ricos; e entre mães e crianças pobres, dentro de cada país. A muito custo tentamos ser uma sociedade de maior riqueza, mas se adotarmos essa lógica vamos esvaziar ainda mais a prática da amamentação. É preocupante que os dados do Brasil sugiram uma estabilização. Aí eu lembro do retorno de doenças como o sarampo, as fake news sobre vacinas e percebo que não podemos nos dar por contentes”, ressaltou Cesar, finalizando a apresentação com o que disse ser seu maior orgulho: acompanhar o desenvolvimento dos netos Fernando – que mora nos Estados Unidos – e Arthur, de Porto Alegre, pelas curvas de crescimento que formulou.

Contra o esvaziamento dos fóruns da sociedade civil: A abertura do XV ENAM e V ENACS, que ocorreram simultaneamente com a III Conferência Mundial de Aleitamento Materno (3rd WBC) e a I Conferência Mundial de Alimentação Complementar (1st WCFC), foi um momento marcante para o campo da Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva. Além da conferência de Cesar Victora, antes ainda da mesa de abertura foi lançado o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos.

Apresentado por Gisele Bortolini, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição (CGAN/DPS/MS) e com a presença do ministro Luiz Henrique Mandetta, o documento foi desenvolvido ao longo dos dois últimos anos e segue diversos princípios já encampados no Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2014, como a organização dos grupos de alimentos pelo grau de processamento e o papel da comensalidade e do cozinhar e se alimentar coletivamente, além de reafirmar as práticas do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e do aleitamento materno continuado por livre demanda; introdução da alimentação complementar somente a partir dos 6 meses, e zero açúcar até os 2 anos.

Uma das coordenadoras da equipe técnica do Guia Alimentar para crianças e integrante da organização do evento, Inês Rugani representou a Abrasco na mesa de abertura. Numa fala contundente e representando a sociedade civil organizada, ela destacou o momento de adversidade vivenciado nos espaços de diálogo do governo com os movimentos sociais.

“A amamentação e a alimentação complementar saudável são direitos humanos a serem protegidos para a vida, e não é só um ato de resistência, mas também de resiliência e proposição. Sabemos da importância de estarmos juntos, compartilhando experiências, informação e afeto. Que façamos desse encontro uma experiência que reforce nossos laços e nossos sentidos de pertencimento a esta causa tão fundamental” disse a abrasquiana convocando o público presente para a construção coletiva do direito à amamentação como parte do legado de um mundo mais justo, democrático e igualitário.

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