Madel Luz e o Desafio das Racionalidades Médicas e PIC na construção do SUS


Durante o 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, a professora Madel Luz vai proferir palestra com o tema ‘O Desafio das Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares na Construção de um SUS Universal’ e sobre este assunto, a professora conversou com a Comunicação da Abrasco para levantar a ponta do véu da palestra, compartilhando com os leitores qual a linha de pensamento que seguirá no próximo dia 29 de julho, às 14h00.

Madel pergunta logo “Por que desafio?” e responde sublinhando 3 pontos:

Explica que o sistema como um todo é hoje pensado na lógica da biomedicina, voltado para controle de doenças – “patologias, se achar mais elegante – na população que solicita mais os serviços. Ora, a lógica das racionalidades médicas complexas não biomédicas é centrada na vitalidade (ou perda dela) de pessoas doentes. O sujeito adoecido e sua recuperação é o centro de intervenção dessas medicinas e terapias, porisso mesmo denominadas vitalistas. Como conciliar lógicas tão divergentes? É um desafio. Desafio que tem sido enfrentado mais pelos profissionais que pelo sistema de saúde” resume Madel.

A professora reforça ainda que o sistema de saúde, como todos os subsistemas de funcionamento do sistema social globalizado, é atualmente produtivista, isto é, focado na “economia do tempo”: mais doentes atendidos em menos tempo é sinal de eficiência no atendimento e efetividade do serviço. “Ora, a maior parte das patologias e busca de atenção às mesmas, embora geralmente emergencial, é fruto de longa exposição a riscos de adoecer: os riscos produzidos pelo trabalho, seu ritmo e precariedade, e as relações predominantes no mesmo; os riscos que são fruto de estilos de vida pouco saudáveis, como a alimentação industrializada e a falta de exercícios, resultando em doenças crônicas; os riscos resultantes das próprias relações sociais atualmente vigentes: no par, na família, na coletividade, relações deterioradas, em grande parte devido ao medo e à insegurança sociais. A atenção à saúde torna-se, para o sistema, como um “recolher água do mar em balde”… nunca será resolutiva, por mais que se acelere o ritmo de atendimento, multipliquem-se as unidades, assim como as horas de trabalho dos profissionais. O que eles retiram do mar do adoecimento, o sistema repõe com as condições de vida. Começa então um segundo desafio: as Racionalidades Médicas e as Práticas Integrativas em Saúde não lidam com “causa de patologias” (ou seu estágio) e sua medicalização: lidam com a origem do adoecer dos sujeitos, e a reposição da saúde” adianta Madel.

Madel finaliza seu comentário com um 3º ponto – “A racionalidade biomédica tem seus pressupostos, bastante estreitos, aliás, e o que dela escapa é considerado não científico, não verdadeiro, portanto. Ora, as Racionalidades Médicas complexas, ocidentais ou orientais (Medicina homeopática, medicina antroposófica, medicina tradicional chinesa, medicina ayurvédica), assim como as Práticas integrativas que delas derivam (medicamentos homeopáticos, fitoterápicos, acupuntura, dietética, práticas corporais que trabalham a vitalidade, como o ki kung, a yoga, o tai chi chuan, etc), além das práticas corporais ocidentais, como as ginásticas, as danças, os esportes visam a restabelecer um equilíbrio permanente, embora instável, no viver dos pacientes, enquanto as intervenções biomédicas visam, geralmente centrados sobre medicação ou intervenções cirúrgicas, ao restabelecimento de parâmetros de normalidade, quantitativamente mensuráveis. Este é um grande desafio, se considerarmos apenas a relação de hegemonia paradigmática biomédica nos serviços. Mas isto leva mais a pessimismos e ratificação de não diálogos que o contrário, o desejado, isto é: otimismo em relação ao futuro e ao exercício contínuo do diálogo, e os frutos que certamente virão daí, tanto nos resultados, como na criação de novos paradigmas, frutos talvez, de uma mestiçagem teórica e prática já presente entre profissionais e pacientes. Este é talvez o desafio mais forte, mas também o que mais nos impulsiona a lutar pela permanência das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde na rede de atendimento do SUS, um sistema que aí sim, estará caminhando no sentido da universalidade. A universalidade dos novos tempos é diversa e mestiça. Apostemos nela!” convoca Madel.

Madel Therezinha Luz é graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem mestrado em Sociologia – Universite Catholique de Louvain e doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.Foi professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e ainda na Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente é colaboradora da UFRGS e colaboradora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFF. É líder do Grupo CNPq Racionalidades em Saúde: Sistemas Médicos complexos e Práticas Complementares e integrativas, atualmente sediado no Instituto de Saúde da Comunidade, U.F.F.

Confira a participação de Madel Therezinha Luz na programação do congresso:

QUARTA-FEIRA 29 DE JULHO, de 14h00 às 16h00

Palestra O Desafio das Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas e Complementares na Construção de um SUS Universal
Coordenador: Nelson Filice de Barros – UNICAMP (SP)
Palestrante: Madel Therezinha Luz – UFF e UFRGS (RJ)

QUARTA-FEIRA 29 DE JULHO, de 18h30 às 20h00

Debate Saúde da População Brasileira
Debatedor: Cesar Victora – UFPel (RS)
Debatedor: Jairnilson Silva Paim – ISC/UFBA (BA)
Debatedora: Madel Therezinha Luz – UFF e UFRGS (RJ)

 

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