Imposto está salvando o México, líder mundial em obesidade


De um imposto sobre bebidas açucaradas no México a leis no Chile e no Peru que proíbem o McDonald`s de oferecer brinquedos junto com seu McLanche Feliz, a América Latina está se tornando um laboratório de políticas públicas destinadas a afastar consumidores de alimentos processados.

O México é o maior consumidor de refrigerante per capita do mundo – quase meio litro por dia, em média – e ultrapassou recentemente os Estados Unidos como o país mais obeso do planeta. 70% de seus adultos e 30% de seus adolescentes estão acima do peso e as taxas de diabetes, pressão alta e outras doenças relacionadas são altíssimas. Sete em cada 10 adultos mexicanos estão acima do peso ou são obesos, enquanto cerca de 15% da população com mais de 20 anos tem diabetes tipo 2.

Diante deste cenário de horror, o governo mexicano aprovou um novo imposto e desde o primeiro dia de 2014, entrou em vigor no México a taxação de 8% sobre o fast food e de um peso (R$ 0,17) sobre cada litro de bebidas com açúcar. O país resolveu aplicar o imposto para os alimentos e bebidas com alto teor calórico mas com níveis reduzidos de nutrientes, num esforço para combater a obesidade e o diabetes tipo 2 no país. No caso dos concentrados, bebidas em pó, xaropes e essências – são taxados de acordo com o volume de bebida que podem render.

Saúde como resultado

Neste contexto, a Alianza por la Salud Alimentaria deu a conhecer esta semana, dia 16 de junho, os resultados preliminares de um estudo sobre o efeito destes impostos nas compras de bebidas açucaradas em território mexicano, ao longo de 2014.  Os (bons) resultados estão agora sendo confirmados pela Universidade da Carolina do Norte – nos EUA, e pelo Instituto Nacional de Salud Pública – no México.

Barry Popkin, professor da Faculdade Gillings de Saúde Pública Global da Universidade da Carolina do Norte e autor do livro “O Mundo está Gordo” (Editora Campus), disse que o imposto sobre refrigerantes no México segue as iniciativas contra o fumo que foram adotadas em vários países. “Nós vamos ter evidências em alguns anos. Aí é quando você começa a ver o efeito dominó.” A obesidade virou um problema grave na América Latina ao mesmo tempo em que a região se torna importante para o crescimento de multinacionais de alimentos e bebidas às voltas com vendas em queda em mercados centrais. Em 2012, o volume de vendas de alimentos da PepsiCo Inc. na América Latina subiu 13%, tendo caído 1% na América do Norte. A América Latina respondeu por mais de 12% das vendas globais de US$ 65,5 bilhões da PepsiCo em 2012.

Abrascão 2015 terá debate sobre obesidade 

O Grupo Temático de Alimentação e Nutrição da Abrasco levará o tema da obesidade para Goiânia, durante o 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, segundo a coordenadora do GT, Maria Angélica Tavares de Medeiros, a programação terá atividades para tematizar a obesidade como um problema de saúde pública de caráter intersetorial, com base nos seguintes enfoques: 1. Enfoque crítico sobre as estratégias governamentais; 2. Enfoque da agenda regulatória nos contextos nacional e supranacional e 3. Enfoque da organização da atenção no SUS.

A Mesa Redonda ‘Desafios para o controle da obesidade’ está marcada para o dia 1º de agosto, de 09h00 às 10h30, sob a coordenação de  Zohra Abaakouk  (OPAS), e com a participação de  Júlia Aparecida Devidé Nogueira -(UnB), Geraldo Lucchese – (Câmara dos Deputados) e  Maria Angélica Tavares de Medeiros (Universidade Federal de São Paulo).

Outra oportunidade de debate sobre obesidade e ultraprocessados será na sexta-feira 31 de julho:

Mesa Redonda ‘O Modelo Agroalimentar Hegemônico e as Ameaças à Saúde e à Soberania Alimentar: O Caso dos Alimentos Biofortificados; O Caso dos Alimentos Transgênicos; O Caso dos Alimentos Ultraprocessados’ de 14h00 às 16h00. Com Anelise Rizzolo de Oliveira (UnB,);
Vanessa Schottz Rodrigues (UFRJ-MACAÉ); Leonardo Melgarejo (ABA) e Carlos Augusto Monteiro da Universidade de São Paulo.

Indústria preocupada

A Femsa, maior engarrafadora de Coca-Cola da América Latina, anunciou uma queda de 4,6% no lucro do segundo trimestre. Nada grave, se não fosse pela queda de 1,5% nos volumes e 2% na receita do México, de longe o seu principal mercado. Suas concorrentes Organizacion Cultiba, engarrafadora de Pepsi, e Arca Continental também reportaram resultados parecidos. A queda segue uma tendência já verificada no primeiro trimestre, e a razão é clara: os resultados dos novos impostos. Desde que entrou em vigor, a medida tem atingido seu objetivo de desestimular o gasto com o produto. A Femsa estima que o volume total de vendas no país caia entre 5% e 7% este ano.

México inspirador

“O açúcar tornou-se o novo tabaco”, diz Simon Capewell, professor de epidemiologia clínica na Liverpool University, um dos fundadores da Action on Sugar, um grupo do Reino Unido que faz campanha pela limitação do açúcar. “Por todos os lados, as bebidas açucaradas e a comida de baixo valor nutritivo são empurradas para cima de crianças e de pais desprevenidos, por uma indústria cínica cujo foco é o lucro e não a saúde.”

O número de pesquisas associando o consumo de açúcar à obesidade cresceu. E governos começam a acordar para os custos cada vez mais altos resultantes de doenças como diabete e câncer, que crescem paralelamente à obesidade. A discussão sobre o açúcar associado a preocupações com a dieta vem ganhando força. Os custos globais com assistência médica [relacionados à obesidade] estão em patamar recorde – a conta é de US$ 500 bilhões ou cerca de 10% dos gastos mundiais com assistência médica – assim como os níveis de obesidade e diabete.

 

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Um comentário sobre “Imposto está salvando o México, líder mundial em obesidade

  1. O trigo refinado é outro vilão mais sorrateiro que o açúcar e muito mais consumido. No Brasil, até a segunda guerra mundial, se consumia milho e mandioca. Infinitamente mais sadios que o trigo refinado. Mas, graças à política de exportação do trigo excedente americano no pós-guerra, nos tornamos dependentes do trigo americano e(valhanos Dios) argentino. A mandioca sustenta as pequenas propriedades e fixa o homem no campo. O milho é produto nacional, mas as grandes fazendas priorizam a exportação. Por que não iniciar uma campanha tipo “O milho é nosso” ou, sem maliciar, “A mandioca é nossa” para fugir da deletéria dependência do nefasto trigo refinado.

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