GT Violência e Saúde fala sobre a revista Ciência & Saúde Coletiva

Organizados por Ednilsa Ramos de Souza, Adalgisa Peixoto Ribeiro, Deborah Carvalho Malta e Marta Maria Alves da Silva, os 30 artigos e uma resenha da edição 22.9 da Revista Ciência & Saúde Coletiva mostram o impacto da violência na vida e na morte da população brasileira e em alguns países da América Latina. No Brasil, a violência continua sendo a 3ª causa de morte da população, abaixo apenas dos óbitos por doenças cardiovasculares e câncer. Ela é responsável, além das dramáticas perdas e lesões humanas, pelo impacto na expectativa de vida dos homens aqui e em vários países da região. Os estudos brasileiros se somam aos internacionais, na busca de aprofundar o “saber” e de avançar o “fazer”, no processo de construção de um pacto pelos direitos humanos, pela paz e contra a barbárie.

Acesse aqui a revista Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, n. 9 – setembro de 2017 – Vidas e mortes marcadas pela violência: desafios para a sociedade     

Para o coordenador do GT Violência e Saúde da Abrasco, professor José Ferdinando Ramos Ferreira, pesquisador do Laboratório de Análise Espacial de Dados Epidemiológicos (epiGeo) da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, a violência é um fenômeno que se origina por diferentes causas e um dos maiores desafios (e também vantagens) da ciência está justamente na possibilidade de se considerar a realidade social em sua complexidade dialética e dinâmica; portanto, não fragmentada: – “Desta maneira, se torna possível compor teorias que entendam a prática política, econômica, social e espacial da violência. Assim é que as diversas metodologias empregadas no estudo do fenômeno da violência na literatura científica e diferentes fontes de informações associadas à utilização de tecnologias contribuem para indicar para onde migram as diferentes manifestações de violência, o perfil da vítima, a caracterização e tipologia das violências e também, possibilita identificar as causas e desfechos produzidos por este fenômeno”, comenta Ferreira.

Ferdinando pontua ainda que há muito o que avançar, e que deve haver maior aproximação da práxis entre ciência, instituições e sociedade, carecendo de maior diálogo e de divulgação de dados que deveriam ser de conhecimento público: -“Tal fragilidade contribui para a sensação de insegurança. Basta considerarmos que políticas públicas requerem tempo de planejamento e constante readequação a determinada realidade concreta, tanto para a adoção de medidas pontuais de curto e médio prazo quanto de aplicação intrasetorial. A título de exemplo, a própria Segurança Pública ainda é um tema recentemente exposto para debate e em construção no Brasil, ao contrário do que se observa em políticas de saúde e educação, estas, tratadas desde a primeira metade do século XX. Neste sentido, (in)segurança se refere menos a um conceito teórico e mais para uma abordagem empírica e organizacional que baliza instituições e relações sociais em torno da forma como o Estado administra ordem e conflitos sociais”, explica.

Questionado sobre a relação entre a imprensa no Brasil, o tema da violência e as pesquisas relacionadas a questão, o coordenador opina que é importante o diálogo com profissionais de comunicação, sobretudo porque atuam na difusão da ciência e nos cenários das questões culturais contemporâneas, resultando na identificação de tendências na produção do conhecimento e da dinâmica de suas transformações culturais, científicas e tecnológicas: – “Nos diferentes artigos desta edição da Ciência & Saúde Coletiva podem ser verificados desde atendimentos por violência nos serviços públicos de urgência e emergência, estudos sobre o suicídio, o feminicídio, a necessidade de que os profissionais de saúde devam ser habilitados a lidar com o fenômeno da violência familiar, a importância do papel da cultura na implementação intervenções mentais em saúde para sobreviventes da violência, a cobertura e qualidade dos registros das mortalidades, o impacto da violência na esperança de vida, entre outros. São temas do cotidiano os quais se requalificam por debates públicos. Quem poderia suprimir, por exemplo, um debate sobre a violência doméstica contra as mulheres ao longo do tempo, ou ainda, deixar de lado a complexidade de definir uma situação como “ne-gligência”, visto que as famílias podem reproduzir, praticar ou sofrer negligências? Isto remete a um problema estruturante, cuja magnitude opera no campo do saber popular, onde existem diferentes subjetividades e propostas bastante praticáveis. E o “HumanizaSUS” e a “Práxis e Formação Paidéia” no Brasil reconhecem a existência deste “sujeito epistêmico”, e procuram colocá-lo diante dos serviços de saúde onde se operam mudanças na gestão do sistema e de gerir saúde, obrigando a uma nova relação entre profissionais e usuários dos serviços de saúde para além da biomedicina e voltados para a escuta daqueles que se situam no campo da exposição à violência. Ou seja, se a área da saúde se torna um lócus potencial para realizar mudanças de ordem científica a partir da realidade social dinâmica, a grande imprensa pode contribuir para este contexto ao produzir um debate crítico, situado no campo democrático, de exposição das ideias e antagonismos que estão presentes naquelas situações em que se manifestam a problemática da violência”, complementa.

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