Manicômios com as borboletas, do fotógrafo Scott Typaldos


Na Grécia Antiga, as almas à deriva muitas vezes eram representadas por símbolos borboletas. Este foi um link direto para a psique, a deusa da alma, que foi igualmente representada com asas delicadas. Ao procurar um título para seu trabalho sobre a condição mental, Scott queria uma palavra que elevasse os indivíduos que conheceu acima do envelhecer social com os traumas e estigmatizações que arruinaram suas vidas. A palavra ‘Borboletas’ logo se impôs como uma imagem de um estado delicado, mas radiante do ser humano. “Uma descrição da liberdade constantemente aterrorizados pelo mundo exterior. Esta vulnerabilidade da alma constantemente imersa em medo tornou-se minha principal obsessão enquanto fotografava os homens e mulheres nas instituições ou centros de cura.

As imagens da série Butterflies, realizadas pelo fotógrafo suíço Scott Typaldos, são fruto de quatro anos de incursões em instituições psiquiátricas em dois ambientes totalmente díspares: em 2011 desenvolveu este tema no Gana e Togo (Capítulo I) e, nos anos ulteriores, no Kosovo (Capítulos II e III). Entre os dois pontos geográficos encontrou diferenças ao nível burocrático, ao nível das condições logísticas, médicas e de tratamento humanizado do doente, mas sobretudo no que concerne a própria definição e identificação daquilo que é a doença mental.

Com o capítulo terceiro da Série ‘Borboletas’ — Scott Typaldos foi vencedor do primeiro prêmio na categoria de Contemporary Issues do Sony Awards. O fotógrafo descreve, que, no Gana, “o que consideram tratar-se de doença mental não é mais do que um desrespeito pelas regras socialmente instituídas”. “Por vezes basta algo tão simples como alguém não querer ir à igreja ou fumar cigarros” O fotógrafo afirma sentir-se bem dentro de instituições psiquiátricas. “Não tens de lidar com toda a falsidade que faz com que a vida pareça irreal. Na vida quotidiana ninguém parece ser quem realmente é.”

Confira a entrevista que Scott concedeu ao jornal português Público:

Ele mergulha em “temas extremos” da vida humana — a doença psiquiátrica e a morte. Mas diz não ser um messias. “Querem posicionar-me à força como fotógrafo humanitário. Eu não acho que seja. Eu não quero salvar o mundo, não quero salvar o planeta, sou muito cínico em relação a muitas coisas.” Assim começou a entrevista que o P3 fez ao fotógrafo vencedor do Sony Awards Scott Typaldos.

“O motivo? É muito simples. Porque queria ver com os meus próprios olhos.” As portas, porém, não se abrem diante de mera curiosidade. “Não podes simplesmente ir a um lugar e dizer que queres ver; podes ir lá quando dizes que queres salvar o mundo ou algo do género. Não podes simplesmente dizer ‘sou perverso e quero ver’.“ Não foi fácil o acesso à maioria das instituições psiquiátricas que fotografou desde 2011, o que o levou mesmo a utilizar uma câmara compacta e a fotografar às escondidas numa instituição no Gana, onde lhe fizeram uma visita guiada permitindo que fotografasse apenas o espaço e não os pacientes. “Isso seria inútil para mim” comenta.

Typaldos fotografou no Kosovo, nos Balcãs e no Gana e Togo, em África, e aponta diferenças fundamentais em vários aspectos do que é considerado doença mental nos dois pontos geográficos. “No Gana, o que consideram tratar-se de doença mental não é mais do que um desrespeito pelas regras da sociedade, algo que para nós jamais seria considerado doença mental. Por vezes basta algo tão simples como alguém não querer ir à igreja ou fumar cigarros. Aparte isso, há pessoas com doença psiquiátrica real, como esquizofrenia. É sempre difícil perceber se já estavam naquele estado quando entraram na instituição ou se foram ficando piores com o mau tratamento que sofreram.”

O período de tempo que permaneceu em cada instituição dependeu do tempo que lhe permitiram ficar e da liberdade de movimentos que lhe proporcionaram. “Gosto de estar próximo das pessoas, por isso passava bastante tempo na companhia delas. Não posso dizer que nos conhecêssemos, no sentido de termos uma conversação, porque muitas vezes as pessoas não conseguiam ter uma conversa. Mas partilhámos coisas que são difíceis de explicar.”

Scott não gosta de se sentir ausente das imagens, considera essa ausência condescendente. “Não acredito que tenhamos de estar fisicamente presentes na imagem para estarmos presentes. Acho que afectamos o que nos rodeia. Tenho alguns conhecimentos sobre psiquiatria e sei como se apresenta determinada patologia, que tipo de comportamento se irá manifestar. Às vezes vejo o comportamento diante mim e não posso fotografá-lo. Então tento recriar, provocar a pessoa de modo a que recrie a situação. Outras vezes, vejo dois elementos e tenho vontade de juntá-los. É importante que eles olhem para mim e que demonstrem que estou lá. Sei que há pessoas que acham que a interacção é uma coisa má. Para mim é uma noção estranha porque desde o momento em que entras [numa instituição], alteras completamente o local. És uma pessoa que vem passar tempo a olhar para pessoas que nunca foram olhadas. Normalmente elas não recebem esse tipo de atenção. O facto de lá estares muda completamente a forma como se comportam.”

“Em funerais, chora-se, em asilos psiquiátricos enlouquece-se”

Scott lembra-se de todos aqueles que fotografou. Sobre a primeira imagem à esquerda, comenta: “Trata-se de uma fotografia que me causou bastante hesitação porque a acho demasiado dura. Os doentes tentam sempre tirar a roupa. Tu, como fotógrafo, achas a situação interessante. Depois vês os assistentes a tentar vesti-los novamente e pensas ‘estou a explora-los’. No final fotografas o que quer que seja que achas interessante e pensas que o teu papel não é dar lições de moral.” Este paciente tinha síndrome de Down, um tipo de patologia que Scott considera mais do foro físico do que psiquiátrico e que tem por hábito não fotografar aquando as suas excursões nos asilos.

O tema da patologia de foro mental intriga Scott Typaldos. “Interessa-me a disfunção. Como é a estrutura de uma pessoa quando ela enlouquece ou quando a sociedade acredita que enlouqueceu? Todo o ser humano tem um vórtice por dentro, tem confusão, dificuldade em existir ou algo que dificulta a sua vida. Se se tratarem de pessoas ‘normais’ elas apenas escondem o problema, utilizarão uma máscara e uma protecção e quando as conheceres, quando te tornares mais íntimo, vais conhecer todos os seus problemas. Num asilo psiquiátrico a situação é precisamente a oposta. Todas as pessoas têm os seus vórtices no exterior. Acho isso confortável porque não tens de lidar com toda a falsidade que faz com que a vida pareça irreal, na vida quotidiana ninguém parece ser quem realmente é. É por isso que gosto de estar nesses locais, porque tenho a sensação de estar em contacto com o que é na realidade o ser humano. As instituições permitem que a loucura se manifeste. Acho que qualquer um fica mais louco se for colocado dentro de um asilo. Em funerais, chora-se, em asilos psiquiátricos enlouquece-se. É assim que funciona.”

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