Educação Popular em Saúde – experiência, teoria e afeto em sinergia


Ao ser lançada em novembro do ano passado, a Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEP-SUS) chamou a atenção de veículos da imprensa não pelo seu teor pioneiro em formalizar como política pública práticas que valorizem a ancestralidade, os saberes populares e genuínas formas de cuidado para a prevenção, promoção e recuperação da saúde de maneira diferente da apregoada pelos modelos biomédicos. O “gancho”, nome dado pela prática jornalística para definir a forma e o meio pelo qual se vai abordar um assunto, foi o fato de o Diário Oficial da União trazer, na publicação da PNEP-SUS, conceitos como amorosidade, diálogo e emancipação. Para os professores Eymard Mourão Vasconcelos, do Departamento de Promoção da Saúde do Centro de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba (CCM/UFPB), e Julio Wong, do Instituto de Saúde da Comunidade da Universidade Federal Fluminense (ISC/UFF), essa visão simplista não se encontra apenas na mídia. “O olhar enviesado não partiu apenas de setores da imprensa: há forte resistência entre muitos teóricos da Saúde Coletiva. Para eles, é difícil aceitar formulações não enquadradas no racionalismo lógico da ciência tradicional”, diz Vanconcelos. Wong completa. “De fato, temos que lidar com incompreensões e intenções de caricaturizar esses conceitos e princípios freireanos.”

Com o objetivo de promover um debate sobre a temática de forma mais consistente, diferenciando o uso das metodologias nas diferentes concepções pedagógicas presentes no setor saúde, avaliar estratégias de ampliação da presença da Educação Popular nas políticas públicas e debater sua contribuição na formação das carreiras da grande área da saúde, ambos os professores estão envolvidos na preparação do Seminário Nacional de Educação Popular na Formação em Saúde, que será realizado entre os dias 10 e 13 de dezembro, em João Pessoa (PB). Vasconcelos, junto com o professor Pedro Cruz, também da CCM/UFPB, está à frente da Comissão Organizadora do evento. Já Wong, coordenador do Grupo Temático Educação Popular em Saúde da Abrasco (GT EdPop/Abrasco), é um dos responsáveis pela articulação do Seminário com demais pesquisadores e com o Ministério da Saúde.

Passado um ano da publicação da PNEP-SUS, o coordenador do GT EdPop/Abrasco avalia que a Política vem conseguindo, aos poucos, se estabelecer como prática real e efetiva. O primeiro curso EdpopSUS para Agentes Comunitários de Saúde contou com mais de seis mil participantes de nove estados. Um pouco antes, a IV Mostra Nacional de Experiências em Atenção Básica/Saúde da Família, realizada em março, deu grande visibilidade a diversos projetos de extensão e a práticas de atenção à saúde. Na última semana de novembro, uma oficina organizada pelo Departamento de Apoio à Gestão Participativa do Ministério da Saúde (DAGEP/MS) definiu o planejamento de novas ações para o próximo ano. “O ano de 2014 foi de experiências iniciais e de acertos políticos no labirinto que é o Estado Brasileiro, porque tudo deve ter aprovação consensuada e facilitar mecanismos para a implementação da PNEP-SUS nas três esferas da União”, registra Wong. Já Vasconcelos avalia que o grande desafio será ganhar capilaridade. “O SUS é operacionalizado principalmente por iniciativas estaduais e municipais, e poucos municípios avançaram significativamente. Mas a oficialização vem gerando modificações na cultura institucional do setor. Iniciativas de pequenos grupos de trabalhadores e serviços estão se sentindo mais apoiadas e respaldadas, aumentando sua irradiação”, pontua o professor da UFPB.

Experiências X publicações: Outras atividades que vêm impulsionando a Educação Popular estão ligadas diretamente às universidades, seja no campo da formação, como o curso para formação histórica e política de estudantes universitários da área da saúde, coordenado pela Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Facenf/Uerj), e principalmente, no campo da extensão. Para ambos os docentes, a ação da academia com a sociedade é a principal fonte de formação de novos sanitaristas engajados, e que, “encantados” com a Educação Popular em Saúde e com o conhecimento, têm marcado presença em congressos e nos programas de pós-graduação. “Este encantamento costuma acontecer a partir de experiências concretas com o meio popular e com os movimentos sociais. São reflexões baseadas em ‘saberes provenientes da experiência feita’ e que, infelizmente, são desvalorizadas pelo saber acadêmico tradicional das Ciências Sociais e Humanas, sempre exigindo citações e ideias de autores europeus e norte-americanos ou estudos estatisticamente significativos”, destaca Vasconcelos, que acredita haver uma caretice e arrogância aristocrática muito grande no meio acadêmico da Saúde Coletiva. “Só que esses saberes sistematizados a partir da boa elaboração de experiências têm repercutido muito entre os trabalhadores do setor saúde. Por isso posso dizer que a produção de conhecimentos proveniente das práticas de Educação Popular são muito mais significativas do que as estatísticas de publicação dos periódicos de melhor classificação pela Capes”, dispara.

Wong analisa de forma similar. “A própria expressão ‘relato’ despreza o valor teórico da experiência e condena os que fazem a saúde, a produzem e a vivem diretamente. Mesmo com uma academia formal e elitista, e a Saúde Coletiva não é exceção, estou muito otimista com o campo. A produção científica está crescendo, mesmo com as dificuldade de publicar devido as produções terem a forma de ensaio ou de experiências, nas quais estão contidos muitos potenciais reflexivos e teóricos”, reforça o professor da UFF, destacando também a oferta e procura por programas de mestrado profissional, acadêmico e doutorado na temática da Educação Popular. Prova que conceitos como amorosidade, diálogo e emancipação têm muito mais a contribuir com a saúde pública do que servirem apenas como gancho ou fechamento de matérias de sites ou jornais. Dão asas a experiências, vivências e seminários.

 

seminario_edpopsaude_evhome Seminário Nacional de Educação Popular na formação em Saúde
De 10 a 13 de dezembro, no Centro de Convenções do Hotel Ouro Branco, em João Pessoa (PB)
Inscrições abertas: R$ 40 para estudantes; R$ 80 para profissionais
outras informações: http://seminarioepsformacao.blogspot.com.br/

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2 comentários sobre “Educação Popular em Saúde – experiência, teoria e afeto em sinergia

  1. Bom dia,
    Moro numa cidade de quase 50 mil habitantes, estou como vereadora, estamos vivendo uma gestao de saude desconectada da comunidade e diante disso vi a necessidade de fazer algo. Criei uma Comissao Popular de Educacao em Saude que tem por objetivo informar as comunidades sobre a sua organizacao, incentivando a procedimentos e fluxos corretos, alem de incentivar a reivindicacao ordeira de direitos em saude.
    Quero pedir orientacao e apoio, pois esse ‘e um movimento totalmente popular.
    Obrigada

    1. Oi Cristiane, muito legal saber da iniciativa. Pessoas ligadas à formulação da Política Nacional de Educação Popular em Saúde têm buscado criar comissões em vários estados e municípios. Algumas já foram criadas. Mas é muito animador saber que você, mesmo não ligada a este grupo, está construindo algo neste sentido. Precisamos nos conectar. Você podia escrever para o pessoal da Coordenação de Educação Popular em Saúde do Ministério da Saúde para se articular a este processo. Escreva para Osvaldo Bonetti , o atual coordenador. Inclua na mensagem estas duas outras pessoas de sua equipe: Etel Matielo rafael gonçalves

      Um abraço Eymard

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