‘Bresil: le royaume des pesticides’ expõe tevê francesa em horário nobre


Meio milhão de toneladas de agrotóxicos por ano, diz a TV francesa TF1

Em horário nobre, na França, o canal TF1 exibiu no telejornal de 10 de maio, a reportagem Brésil : le royaume des pesticides  uma longa matéria sobre o reinado brasileiro dos agrotóxicos. A jornalista Ruth de Aquino, de O Globo, viu e escreveu sobre o assunto. Confira:

Há tantos dramas cotidianos entre nós, brasileiros, que a aprovação em massa do uso de agrotóxicos pelo governo passa batido. Se alguém encontra um inseto na comida num restaurante, a foto estará nas redes sociais minutos depois. Mas o que nós ingerimos de veneno fica inatingível, na nuvem. Como se fosse fantasia. Mas não é. Invisível sim, inofensivo jamais.

A chamada da reportagem era: “O presidente Jair Bolsonaro recentemente autorizou a comercialização de 150 tipos de pesticidas suplementares para as plantações brasileiras. Esses produtos podem acabar no prato do consumidor europeu? Os agricultores brasileiros são os maiores consumidores de pesticidas no mundo, mais de 500 mil toneladas. Muitas dezenas desses agrotóxicos são proibidos na Europa. Eles são considerados nocivos demais para a saúde humana. Mesmo assim, existe um risco de eles chegarem um dia a nossa mesa”.

A TV francesa mostra cultivo de milho a perder de vista no estado de Goiás. Os pesticidas são pulverizados de avião em massa nessa região, uma das mais produtivas do país. “Esses produtos contêm três ativos químicos para combater o fungo. Sem esses produtos, é impossível produzir em grande escala”, diz um funcionário numa plantação, Isaías. “Depois de pulverizar de avião, não se pode chegar perto da plantação durante cinco ou seis dias. É um agrotóxico muito forte”. Na União Europeia, é proibido usar aviões para pulverizar plantações com agrotóxicos.

A reportagem mostra no meio do campo uma pequena escola para os filhos dos agricultores, a algumas centenas de metros da pista de decolagem dos aviões. A escolinha fica a apenas quatro metros do campo que recebe os pesticidas. Alunos já foram intoxicados seriamente pelos agrotóxicos. Hugo dos Santos, professor de educação física, disse: “Após a passagem do avião, uns vinte alunos estavam deitados no chão, se coçando, gritando, tentando tirar a roupa. Achei que meu cérebro ia explodir, tive a sensação de morte”.

Em Brasília, os jornalistas franceses mostraram uma reunião do agronegócio, em que os exportadores brasileiros dizem que o padrão europeu, que usa 10 vezes menos pesticida do que o Brasil, “é rigoroso e exigente demais”. É o que afirma Sérgio Mendes, diretor geral da associação brasileira de exportadores de cereais. Ele admite que não há como separar produtos com muito ou pouco pesticida no momento de vender. Tudo é misturado nos grandes silos.

Bolsonaro liberou nos primeiros 100 dias de governo mais 150 pesticidas que eram proibidos no Brasil. Pouco a pouco. Dizem alguns críticos, “na surdina”. Alceu Moreira, deputado e representante do grupo do agronegócio, afirma que o consumidor não precisa se inquietar e provoca: “Se é verdade que esses produtos são tão tóxicos, por que vocês (os franceses) compram nossos produtos? Se ficar provado que são nocivos para a saúde, não permitiremos a utilização”.

O Brasil usa pesticidas proibidos na Europa e nos Estados Unidos, como atrazina e paraquat, herbicidas ultratóxicos e cancerígenos. Pesquisadores e cientistas brasileiros confirmam que o uso continuado desses pesticidas afeta a fertilidade dos brasileiros e pode provocar câncer e mal de Parkinson. Em 10 anos, o uso de pesticidas duplicou no Brasil. Marcia Sarpa, toxicóloga no Instituto Nacional do Câncer, receia problemas crônicos na saúde dos brasileiros com a homologação de mais agrotóxicos, que escalou agora no governo Bolsonaro.

É possível fazer algo contra esses venenos, diante de tantas evidências científicas? Quem está certo? O Brasil ou a Europa e os EUA?

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