Alternativas ao modelo de desenvolvimento neoextrativista e as populações do campo, floresta e das águas

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No primeiro dia do Abrascão 2018, 26 de julho, o Auditório Victor Valla foi palco de uma mesa redonda bem complexa e com convidados de extrema relevância. Com o título de “Alternativas ao modelo de desenvolvimento neoextrativista e as populações do campo, floresta e das águas”, o debate contou com grande presença de público para assistir as opiniões e estudos de nomes como: Eliete Paraguassu, do Movimento Nacional dos Pescadores e Pescadoras Artesanais da Bahia (MPP); o economista João Pedro Stédile, membro da Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); e Paulo Frederico Petersen, coordenador-executivo da Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA). A mesa foi dirigida pelo pesquisador da Fiocruz do Ceará e membro do Grupo Temático Saúde e Ambiente da Abrasco, Fernando Ferreira Carneiro.

Assim que foi iniciado o debate, Eliete Paraguassu revelou os problemas que vem enfrentando na Ilha de Maré, uma comunidade quilombola localizada na Baía de Todos os Santos, em Salvador, Bahia. Segundo ela, o local é um dos mais poluídos do país, por causa do derramamento de diversos compostos químicos nas águas, por grandes empresas instaladas na região. A ativista ainda denuncia algumas práticas contra a população, o que ela denomina de “racismo ambiental”.

“Infelizmente, a Ilha da Maré é cercada por grandes empreendimentos, que não têm nenhuma pretensão ecológica. Pelo contrário. Eles só trabalham em nome da ganância. Só fazem isso, por ser uma comunidade quilombola e indígena. É um racismo ambiental, mas somos livres para denunciar e lutar pelo nosso lar. Não quero sair do meu território. A gente sustenta e alimenta todo mundo com nosso trabalho, eles não se dão conta disso. Vamos seguir na luta, em nome de nossas causas”, garantiu Eliete.

João Pedro Stédile fez algumas ponderações. Com um histórico de lutas dentro do MST, ele abriu sua análise com elogios ao Sistema Único de Saúde (SUS), por garantir a universalização da saúde para os brasileiros. Economista, Stédile fez uma comparação com os dois modelos de agricultura adotados no Brasil. Para ele, um é o capital, praticado pelo chamado “Agronegócio”, e o outro por trabalhadores de forma artesanal e sem a presença de químicas nas plantações.

“O primeiro tem o objetivo simples de lucro máximo, por um menor tempo possível. São investimentos de capital exterior e de grandes empresas. Eles transformam capital especulativo em lucro. É um modelo destruidor e que mata a natureza e toda forma de vida. É óbvio que isso causa desiquilíbrio nas plantações, florestas e águas. Ainda causa a proliferação de doenças, como o câncer, devido aos alimentos contaminados com agrotóxicos. No segundo, são os trabalhadores que são os mais importantes. Eles são donos do território e produzem alimentos saudáveis para a população próxima. Isso se chama de Agroecologia”, afirmou Stédile.

Já Paulo Frederico Petersen fez uma exaltação à Saúde Coletiva. Como membro da AS-PTA, lamentou que o Brasil esteja voltando para o mapa mundial da fome, mesmo sendo um país com forte na agricultura.

“O Brasil exporta o que produz e importa o que consome, como feijão da China. O governo libera credito barato para subsidiar o agronegócio, que por sua vez, recorre ao governo quando precisa. Isso atrapalha a balança comercial e destrói postos de trabalho. Até a agricultura familiar não produz mais alimentos. Eles acabam focando em matérias-primas para grandes empresas, como soja e eucalipto. É um absurdo, pois o lucro é mais rápido e garantido. Com a proliferação de alimentos com agrotóxicos, a população fica mais doente. O retrato disso é o crescimento de supermercados e farmácias nos bairros e grandes cidades, um do lado do outro. Um tem a ver com o outro. O papel dos acadêmicos é desmentir o discurso dos agrotóxicos”, finaliza Paulo Frederico.

No final, o debate foi aberto para o público fazer algumas perguntas e considerações. Os temas abordados pelos participantes foram a indústria medicinal, domínio e politica de territórios, valorização do conhecimento popular e ideias para melhorar a luta pela agricultura saudável e popular.

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