Sou médico de família e comunidade – por Felipe Monte Cardoso

Felipe Monte Cardoso é médico de família e comunidade do Centro Municipal de Saúde Marcolino Candau, no Rio de Janeiro, e Professor Auxiliar do Departamento de Medicina e Família e Comunidade da UFRJ. “Em minha opinião, o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde deveria ser mais valorizado: muitas queixas referentes à qualidade do trabalho no território que poderiam ser superadas com um sólido programa de educação permanente” diz o autor do artigo ‘Sou médico de família e comunidade’, publicado no mais novo número da revista Ensaios & Diálogos em Saúde Coletiva da Abrasco, que continua aberta para submissão de artigos, ensaios, textos opinativos.

ACESSE AQUI O ARTIGO DE FELIPE CARDOSO MONTE na revista Ensaios & Diálogos em Saúde Coletiva

Felipe está por trás da foto que conquistou as redes sociais em 2015, e a história foi contada pela revista Radis: “Sim. Lembro bem daquele dia”, disse o médico Felipe Monte Cardoso, ao telefone. Ele respondia a pergunta de Radis sobre a história por trás da foto que, no dia 21 de maio, foi publicada no perfil mantido no Facebook pelo Centro Municipal de Saúde Marcolino Candau, do Rio de Janeiro. No foco da cena, um médico e um paciente foram flagrados em completa sintonia. Sabe-se lá quanto assunto estava em jogo naquele instante captado pelo aparelho celular da enfermeira da unidade, Luara Gameiro.

As pessoas imaginavam. “Acho que o menino com seu olhar quis agradecer todo o cuidado e afeto que recebeu de ti. Com certeza sentiu-se respeitado, acolhido, seguro, como devemos nos sentir sempre que precisamos ser cuidados”, arriscou alguém nos comentários. “A foto diz muito do humano que o médico deve ser”, apostou outro. O próprio Felipe entrou na conversa: “Acho que o menino estava pensando: ‘qual é a desse cara?’”, escreveu o médico na rede social.

Era para ser apenas mais um registro do dia-a-dia do centro de saúde – a página é constantemente atualizada com outras fotos e relatos. Mas a plasticidade da fotografia e a carga de afeto que carrega provocaram uma repercussão acima da média. Ou talvez a explicação seja outra. “Acho que o encantamento que ela causa tem a ver com o fato de ser menos comum no cotidiano do que deveria”, diz Felipe, lamentando que muitas vezes a tentativa de mudar as práticas e torná-las mais solidárias esbarra em questões estruturais. “A rotina exaustiva dos profissionais de saúde, a sobrecarga de trabalho, mas também o estresse corriqueiro nos grandes centros urbanos, fazem com que a frequência dessas histórias seja menor do que a gente gostaria”.

O CMS Marcolino Candau, por exemplo, atende a população do Morro de São Carlos, comunidade localizada numa área de alta vulnerabilidade, na Zona Norte do Rio, onde a guerra do tráfico faz vítimas diárias. Segundo Felipe, não são raras as vezes em que, durante o atendimento, “o paciente pede remédio para dormir por conta da violência”. Desde que começou a integrar a equipe, em janeiro deste ano, ele presencia o esforço hercúleo dos profissionais para garantir o acesso e o fortalecimento do vínculo com essa comunidade.

Felipe é um dos 182 especialistas com residência em medocina da família do município do Rio. No CMS Marcolino Candau, cumpre uma carga horária de 20 horas semanais e faz cerca de 15 a 20 atendimentos por turno. Como manda o manual, deve estar preparado para responder as demandas assistenciais em qualquer momento do ciclo de vida individual e familiar do paciente, sem perder de vista a interação com a comunidade. Deve ter disponibilidade para formar vínculos e desenvolver um acompanhamento de longo prazo. Foi exatamente o que fez naquela tarde.

À Radis, Felipe contou a história da foto. Ele estava no meio da semana em que tomou posse do cargo de professor de Medicina Comunitária na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Naquele dia, seu turno de trabalho no centro de saúde caminhava para o final. “Havia uma senhora muito aflita, que batia na porta do consultório. Ela mudou há pouco para nossa área e não sabia muito bem como proceder. Acho que teve medo de perder a consulta”, lembra. Era um exame de rotina. Ela falou da gravidez, do parto, dos primeiros meses de vida do filho. Ele, o garoto, permanecia arredio, não queria muito papo, recusava-se a deitar, não se deixava examinar.

“Mas acho que ele sentiu que a conversa foi acolhedora e, ao final do exame físico, fomos flagrados no exato momento que a gente se encarou”, disse, rindo. “A tarefa agora é observar o crescimento do guri, prover instâncias de vida e fazer o acompanhamento da saúde. E não das patologias”. Para Felipe, independente de a foto ter despontado nas redes sociais ou virado notícia, o que fica é o gesto. “Aquela mãe se sentiu aliviada. Ficou mais tranquila com o acesso e com o vínculo que fizemos. Isso é o mais importante na Atenção Básica”.

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