Uma homenagem a Paul Singer (1932-2018)


O falecimento do economista e cientista social Paul Israel Singer aos 86 anos, em 16 de abril último, em São Paulo, provocou profunda consternação entre intelectuais, lideranças políticas e leitores da sua obra. Além da figura doce e politicamente engajada, Singer foi lembrado pelo rigor metodológico aplicado à pesquisa e pelo olhar amplo sobre a economia1. Assinalou-se a influência das suas ideias na formação de políticas de inclusão e emancipação social no Brasil, especialmente pela proposta da Economia Solidária2 nos anos recentes. Outra lembrança não menos relevante foi que Singer, para fazer a crítica da desigualdade, também realizou pesquisas nas quais relacionou a distribuição de renda com a estrutura de classes do país3.

Chamo atenção aqui para alguns dos livros de Singer publicados durante o regime autoritário de 1964, entre os quais Dinâmica Populacional e Desenvolvimento (1970), Economia Política da Urbanização (1973), A Crise do Milagre (1975) e a monumental obra teórica sobre Economia Política do Trabalho (1977)3.

Nesta última obra, Singer debateu a tese da superexploração da força de trabalho do capitalismo “dependente” da América Latina, que resultaria da incapacidade estrutural de integração da classe operária ao mercado interno. Ao questionar essa tese, Singer chamou atenção para os efeitos inclusivos da introdução, nas economias dependentes, de “novos produtos” que alteram a cesta de consumo das famílias trabalhadoras, mas que paradoxalmente degradam a qualidade de vida quando não acompanhados de políticas públicas nas áreas social e urbana. Para o autor, a mudança no padrão de consumo, especialmente pela aquisição em larga escala de novos bens duráveis, deveria ser entendida para além da falsa dicotomia inclusão x exclusão. Por meio desta crítica, Singer implicitamente esclarecia que mesmo um regime de natureza autoritária, como o vigente no Brasil nos anos 1970, era capaz de integrar a massa assalariada ao mercado interno sem, contudo, alterar as condições de bem-estar coletivo.

Um ano antes desta publicação, Singer participara do estudo promovido pela Pontifícia Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo que originou o livro de autoria coletiva São Paulo 1975: crescimento e pobreza4. Neste trabalho, Singer contribuiu para a realização de uma corajosa desconstrução da narrativa do desenvolvimentismo que legitimava o regime autoritário imposto pelo golpe militar de 1964. Vale sempre lembrar que entre 1968 e 1984, o PIB brasileiro cresceu em média 10,7% ao ano, oferecendo a este regime a narrativa do milagre econômico e, por conseguinte, imensa aprovação popular. Assim, não era uma tarefa isenta de risco pessoal escrever sobre as contradições do autoritarismo, especialmente no auge da sua popularidade.

Contra o triunfalismo reinante, o livro São Paulo 1975: crescimento e pobreza demonstrou que:

“O intenso crescimento econômico da cidade de São Paulo tem sido acompanhado da deterioração das condições de vida de amplas parcelas de sua população” (…) A noção de que progresso da cidade tem um preço que deve ser pago por seus habitantes vem sendo insistentemente repetida a propósito dos mais variados problemas: da poluição ambiental às carências do abastecimento, das dificuldades de transporte às más condições de habitação, da insuficiência do lazer ao aumento da criminalidade. O dilema – estagnação ou sacrifício – implícito nessa noção é em tudo consoante com a ideologia do desenvolvimento em voga: para que o país se desenvolva, assegurando a felicidade futura de seus habitantes, estes devem renunciar às satisfações presentes” (p.21).4

A publicação São Paulo 1975: crescimento e pobreza significou uma importante ruptura argumentativa com relação às narrativas economicistas que defendiam nos anos 1970 o projeto de crescimento econômico fundado na acumulação selvagem, no aniquilamento das liberdades democráticas e na supressão das politicas sociais.

Cabe ainda assinalar que, em 1978, Singer publicou o livro Prevenir e Curar: o controle social através dos serviços de saúde 5, no qual dialogou com o ainda incipiente campo da Saúde Coletiva e com a literatura internacional da Sociologia e Economia da Saúde. O livro é uma prova cabal da curiosidade e da atração de Paul Singer pelos temas novos, marca da sua generosa personalidade, como assinalam os que com ele conviveram1. Que o exemplo integridade e os ideais de Paul Singer permaneçam nos inspirando!

* Nilson do Rosário é pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e foi vice-presidente da Abrasco (2012-2015). 

Referências:
1 – Cardoso, FH. Economista e Militante, Paul Singer juntava economia e prática. Folha de São Paulo, 16/04/2018.
2- Pochmann, M. Um Idealizador de Políticas de Inclusão. O Globo, 18/04/2018.
3 – Bresser-Pereira, LC. Orgulho e a Alegria de Servir de Paulo Singer. Folha de São Paulo, 22/04/2018.
4 – Camargo, CPF; Singer, PI; Cardoso, FH; Almeida, MHT; Moises, JA et al. São Paulo 1975: Crescimento e Pobreza. São Paulo: Edições Loyola, 1976.
5 – Singer, P; Campos, O; Oliveira, EM. Prevenir e Curar: O Controle Social Através dos Serviços de Saúde. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1978.

 

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