LHPS: a vida de um cientista no capitalismo periférico


“Na realidade, sou um subproduto da Segunda Guerra Mundial. Surpreendente? Nem tanto. Para minha geração foi esse o fator primordial para definir a maneira de olhar o mundo. Milhares, milhões mesmo, de jovens adolescentes no mundo inteiro despertaram com os acontecimentos sócio-político-militares da guerra de 40 e viraram, decididamente, para o vermelho: o papel dominante da União Soviética na vitória militar contra o nazismo, ações heroicas dos resistentes comunistas da França e na Itália, países que nos eram mais próximos…” (Luiz Hildebrando: Memórias de um Cientista Subversivo, p.46. Vieira e Lent, Casa Editorial Ltda. 2012).

Por toda a vida, Luiz Hildebrando Pereira da Silva foi um combatente. Na política, na pesquisa de bancada e na saúde pública. Na dimensão política, seu berço foram as lutas democráticas e nacionalistas do pós 2ª Guerra Mundial que deram ao país a Petrobrás e, a Hildebrando, levaram à adesão ao Partido Comunista em 1944, mais precisamente à Juventude Comunista, com 15 anos de idade. No terreno da imunoparasitologia tropical, bebeu na fonte de muitos, mas original e principalmente na de Samuel Pessoa na USP, liderança carismática e chefe de escola, formador de mais de uma geração de cientistas notáveis. Bem mais tarde, na boa ciência do Instituto Pasteur, em Paris. E os combates pela saúde pública, ele os travou pelo país afora, no interior de São Paulo, na Paraíba e na Amazônia, na vivência com as dificuldades da vida dos brasileiros nos nossos sertões.

Hildebrando formou-se em 1953 na Faculdade de Medicina da USP onde também obteve sua livre-docência. Fez estágios pós-doutorais em Bruxelas e em Paris, trabalhando no laboratório de François Jacob que, em 1965, receberia o prêmio Nobel. Voltou à USP em 1963. Com o golpe de 1964, viu interrompida sua trajetória científica naquela universidade, da qual foi demitido após ser preso e cassado nas primeiras listas de expurgados pelo regime militar.

Exilou-se na França, tendo sido convidado a voltar ao Instituto Pasteur, novamente no laboratório de François Jacob. Em 1968 tentou refazer sua carreira científica no Brasil, tendo ido trabalhar na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Foi, entretanto, mais uma vez abatido, pelo Ato Institucional no 5, editado pela ditadura em dezembro daquele ano. Voltou à França, onde permaneceu no Pasteur até a sua aposentadoria em 1997. Em 1982 foi convidado pela Universidade Harvard para uma posição de professor visitante. Um ano depois de sua aposentadoria, lançou-se em uma nova empreitada no Brasil, mais precisamente em Rondônia, onde criou o Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais (IPEPATRO), focado principalmente nos estudos sobre a malária ‘vivax’ e que, mais tarde, uniu-se à Universidade Federal de Rondônia. No início da década atual, o IPEPATRO tornou-se uma unidade associada à Fiocruz.

A trajetória profissional de Luiz Hildebrando contribuiu para o resgate uma antiga tradição do fazer científico em saúde que, no Brasil, foi ancorada em nomes como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Emilio Ribas, Gaspar Vianna, Evandro Chagas, Adolfo Lutz e alguns mais. Estes, entre o final do século XIX e os anos 1930, souberam conciliar investigação biomédica de muito bom padrão com um permanente olhar para o palco onde se desenrolavam os dramas dos sujeitos de suas pesquisas. Tradição que após a 2ª Guerra Mundial deu lugar a uma clivagem talvez excessiva entre esses dois campos, separando o ambiente e as práticas de bancada dos seus correspondentes no campo da saúde pública. Foi esse o tempo que opôs a pesquisa básica (também chamada de “desinteressada”) da outra, aplicada (“interessada”?) e de menor prestígio acadêmico e científico. Mas devemos a Luiz Hildebrando, Samuel Pessoa e alguns outros a manutenção entre nós, no campo da pesquisa em saúde humana, dessa tradição que hoje, sob o pomposo nome de “pesquisa translacional”, renasce reforçada pelas revoluções genômica e pós-genômica.

Entre 2003 e 2010 estive com Luiz Hildebrando muitas vezes no Ministério da Saúde e na Fiocruz, durante a construção e consolidação do seu instituto em Rondônia. Nossas conversas giravam, naturalmente, em torno das necessidades de apoio ao seu empreendimento amazônico e as possibilidades do Ministério da Saúde em atendê-las. O Luiz Hildebrando dessas conversas era um homem de grande firmeza, suave entretanto. Sua fala se desenrolava, habitualmente, num tom que, embora tranquilo, indicava absoluta convicção sobre o que dizia. Além disso, olhava sempre seu interlocutor no olho e era dono de um humor cáustico. As poucas vezes em que nele percebi alguma exasperação, esta era consequente à sua ojeriza pela burocracia, que ele esculhambava com prazer. Por poucas vezes mostrou-se em dúvida em relação a qual direção escolher. Uma delas foi sobre a decisão de aderir ou não à Fiocruz, quando se perguntava e também a mim, se não iria perder sua independência vinculando seu IPEPATRO a uma grande instituição – que admirava – mas que temia que o fizesse naufragar numa teia burocrática incontrolável. No meu ponto de vista, acabou por tomar a decisão adequada.

A última vez que o vi foi em março de 2012 no Rio de Janeiro, por ocasião do lançamento de seu último livro “Crônicas Subversivas de um Cientista”. Rodeado pela família e pelos amigos, parecia um homem feliz e realizado.

*  Médico sanitarista e 2º Vice-presidente da  Associação Brasileira da Indústria de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (ABIFINA)

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