Estadão ouve Abrasco sobre taxa crescente de mortalidade infantil no Brasil

“Nada disso é inexorável, mas medidas de proteção precisam ser adotadas.” diz Luis Eugenio

“Ninguém estava esperando um reflexo nas taxas de mortalidade já em 2017. E, se nada for feito, há o risco de os indicadores terem reflexo também na expectativa de vida do brasileiro”, alerta Luis Eugenio Portela Fernandes de Souza, atual membro da diretoria da Abrasco e professor no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. A entrevista foi concedida à jornalista Ligia Formenti, do jornal O Estado de São Paulo, para a reportagem Estudos ligam avanço da pobreza ao aumento da mortalidade infantil no País, publicada nesta quinta-feira, 30 de agosto. Confira aqui, no site do jornal, e abaixo, a íntegra do texto:

O aumento da mortalidade infantil pela primeira vez após 15 anos está relacionado ao avanço da pobreza e à redução de investimentos em áreas consideradas cruciais para o desenvolvimento e para saúde. É o que apontam estudos técnicos levados nesta semana ao Ministério da Saúde, que buscou especialistas para discutir as razões da elevação das taxas de óbitos entre menores de 1 ano e de mortalidade materna.

Quando as estatísticas começaram a ser analisadas, a professora da Universidade de Brasília (UnB) Ana Maria Nogales Vasconcelos foi uma das primeiras vozes a levantar a hipótese de que, com a redução do nascimento de bebês, sobretudo por causa da epidemia de zika, as taxas de óbitos de menores de 1 ano poderiam ser puxadas para cima. Com menor denominador, a taxa naturalmente seria maior. Mas estudos seguintes conduzidos pela professora descartaram essa influência. “A tendência se repetiu em períodos posteriores.” Hoje, segundo ela, a comunidade científica está em alerta. “A rapidez com que indicadores mudaram espantou a todos”,

Em 2016, foram 14 óbitos de menores de um ano para cada mil nascidos vivos, 5% a mais do que no ano anterior. Dados preliminares mostram que em 2017 a taxa de mortalidade foi de 13,6. Questionado, o Ministério da Saúde manteve a tese de que as taxas de mortalidade sofreram, sim, um impacto da redução de nascimentos no País.

Pesquisador da Universidade Federal da Bahia, Luís Eugenio Portela Fernandes de Souza, concorda com o alerta da colega. “Ninguém estava esperando um reflexo nas taxas de mortalidade já em 2017. E, se nada for feito, há o risco de os indicadores terem reflexo também na expectativa de vida do brasileiro”, alertou. “Nada disso é inexorável, mas medidas de proteção precisam ser adotadas.”

Fernandes de Souza, que também participou da discussão nesta semana, não hesita em dizer que o Brasil hoje está muito mais longe de cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) do que há dois anos. Diante da crise econômica, a partir de 2014, o pesquisador passou a analisar os investimentos federais em programas relacionados às metas internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU). Dados preliminares do trabalho mostram que, de 18 áreas, apenas 7 tiveram aumento de investimento no período 2015-2017. “O mais grave é que um fator não se soma a outro. Se você não tem moradia, não tem acesso a saúde, não tem renda, os reflexos negativos se potencializam enormemente. São sinérgicos.” Procurado, o Ministério da Saúde afirmou não ter acesso ao estudo.

Ana Maria observa ainda que a falta de investimentos problemas de gestão levaram a uma piora na qualidade do atendimento. Os reflexos estão estampados em algumas estatísticas, como a de mortes fetais e neonatais em razão da sífilis. Ano passado, foram 600, uma marca significativamente maior do que no ano anterior. “Pode parecer pouco quando comparado com números em geral. Mas todas poderia ter sido evitadas. Bastaria para isso o diagnóstico da infecção na mãe e a oferta de tratamento no período adequado.” O ministério não esclareceu as razões para o aumento da sífilis no País. Afirmou que lançou em 2016 um alerta a Estados e municípios sobre a epidemia e vem adotando medidas para conter o avanço da infecção.

A professora da UNB observa também a piora nos indicadores de morte materna. “São indicadores muito sensíveis, sobretudo à eficiência da assistência, seja durante a gestação, no momento do parto, no pós parto e depois do nascimento.” Uma assistência adequada durante a gestação, por exemplo, pode prevenir infecções do bebê, permite identificar o risco para o parto e, com isso, providenciar um acolhimento adequado tanto para o bebê quanto para a mãe. “Passada essa fase, depois do primeiro ano de vida, os indicadores estão mais relacionados a outros fatores: ao ambiente, pobreza, saneamento. Mas o atendimento também influencia, veja o caso da vacinação.”

A professora da UNB também ressalta que a retomada no crescimento da mortalidade infantil no Brasil ocorre em um momento em que indicadores ainda eram demasiadamente altos. “O País celebrava ganhos, mas estávamos bem atrás de outros países da América Latina. Havia ainda um longo caminho a percorrer.”

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