Gulnar Azevedo e Silva: conhecimento científico para diminuir desigualdades

 

Médica, com mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutorado em Medicina Preventiva pela Universidade de São Paulo (USP), Gulnar Azevedo e Silva é a entrevistada do mês de julho do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS). A professora do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social (IMS) da UERJ, e atual diretora do instituto, fala sobre as estratégias para enfretamento da crise na universidade, a conciliação entre o papel de sanitarista e o de militante – “Em alguns momentos é difícil separar o que é uma coisa do que é outra, ainda mais na nossa área […]” – e o debate sobre o rastreamento do câncer de mama. Com um projeto de candidatura para a diretoria da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) de 2018 a 2021, a epidemiologista fala também sobre expectativas para as eleições presidenciais: “Temos que saber qual o programa que a gente acha que a saúde tem que enfrentar, defender, e fazer com que o candidato assuma. […] temos o papel não só dessa cobrança, mas também de levar o programa para a sociedade, mostrar para sociedade o que seria correto. Qual é uma política correta, cidadã, de Estado de direito, de garantia de direitos sociais conquistados e adquiridos, ou seja, de nenhuma perda, de nenhum direito a menos. Esse compromisso temos que ter de todo mundo que está querendo ser candidato de alguma coisa”.

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Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS): Você assumiu a diretoria do IMS/UERJ em 2016, em um período de crise da universidade. Em editorial publicado na revista Physis, em conjunto com Rossano Cabral Lima, pouco tempo após assumir, você destacou a necessidade de reforçar uma agenda estratégica “que dê continuidade à nossa trajetória unindo pesquisa e crítica, ao mesmo tempo em que favoreça a persistência do olhar no coletivo e no indivíduo”. Falou também no fortalecimento da interlocução com entidades, associações de Saúde Coletiva e das parcerias técnico-científicas com outras instituições de pesquisa no país e no exterior. De lá para cá, como essa crise tem sido enfrentada? Foi possível encaminhar essa agenda estratégica?
Gulnar Azevedo e Silva: Foi possível, com um pouquinho de retardo do que a gente pensou. No ano de 2016, quando a gente gostaria de ter realizado o seminário estratégico para discutir toda essa agenda, foi impossível porque houve a grande crise aqui da UERJ, foi o máximo da crise, com isso tivemos muita dificuldade de poder realizar qualquer coisa. Com muito custo a gente conseguiu dar continuidade ao trabalho de pós-graduação, às defesas de tese, qualificações, projetos, mas tivemos que, em alguns momentos, inclusive suspender aulas porque a universidade chegou a ficar em greve. Na maioria das vezes a pós-graduação não parou, mas em um período tivemos que parar, até porque a própria universidade, independente da greve, foi adiando o início do ano letivo. Isso gerou muito problema para a universidade, para a nossa unidade também.

No ano de 2017 não deu para realizar, mas conseguimos, em 2018, fazer duas etapas do seminário e estamos tocando as decisões e os desdobramentos desse seminário estratégico. Criamos grupos temáticos e estamos discutindo as propostas de ensino e a pedagógica, os rumos da pesquisa, o que a gente vem realizando em termos de comunicação e divulgação científica e também todo o nosso trabalho de integralidade entre as áreas.

OAPS: Foram seminários que uniram a comunidade do IMS?
Gulnar Azevedo e Silva: Sim, a gente realizou o primeiro seminário, que chamamos de marco-zero, em fevereiro e um segundo seminário em abril. O seminário marco-zero preparou grupos para, no seminário de abril, que foi o seminário estratégico propriamente dito, discutirmos temas como acesso e permanência, cotas, a questão de como a universidade hoje enfrenta toda a crise, como a gente deve evoluir no processo de comunicação dos resultados de pesquisas que realizamos e também o que a pós-graduação deve pensar para se reinventar, mas também para se colocar em relação às necessidades criadas hoje pela condição que o Brasil está passando.

OAPS: Outro ponto abordado no editorial, também comentado em recente entrevista ao portal da Abrasco, foi a necessidade de trazer para o debate grandes questões da sociedade e da política de saúde, incluindo alunos egressos e professores eméritos. Diante dos diversos ataques à autonomia universitária – liberdade de gestão financeira, administrativa e de pensamento – que vêm ocorrendo, em especial, desde 2016, você acredita que a união de gerações e a pesquisa compromissada socialmente são caminhos para as universidades enfrentarem esse cenário?
Gulnar Azevedo e Silva: Para a gente isso tem sido uma ótima experiência. Foi o lado bom da crise, fez as pessoas se unirem mais e pensarem que temas hoje são importantes. Fizemos debates com todos os movimentos sociais que têm relação com a questão da saúde, têm relação com a questão da própria condição política atual, durante o ano de crise e esse ano também, colocando as questões de gênero, racismo, drogas e movimentos sociais relacionados a essas causas, e trouxemos aqui para o instituto pessoas que têm a ver com esses movimentos. Foi importante e com isso trouxemos, e acho que foi muito produtivo também, uma maior participação dos estudantes nesses debates, contribuindo com a discussão de acesso à pós-graduação. Os estudantes estão participando nos nossos grupos temáticos e nesse específico de acesso e permanência, que tem a ver com quem está entrando, como a gente vai fazer a seleção e como a gente contempla a distribuição de bolsas e outras condições, os estudantes têm participado de uma forma muito efetiva. Também para as questões que têm a ver com movimentos que para eles são muito importantes, que são os movimentos de gênero, identidade sexual, aí os nossos estudantes estão sendo muito importantes. Isso aconteceu ao mesmo tempo em que trouxemos para cá a discussão de professores já aposentados, de outras gerações, mas que foram fundamentais na criação do SUS, na própria criação do Instituto de Medicina Social, como era a concepção dele. Esses professores estiveram conosco também no seminário estratégico e vêm participando das aulas inaugurais, cursos de pós graduação e têm contribuído em algumas disciplinas. A gente está conseguindo, com todas as limitações e dificuldades inerentes e até extra o que gostaríamos, fazer uma ponte. Ainda está em construção, mas acho que a gente avançou um pouquinho.

OAPS: Você pode comentar algumas das principais discussões que o seminário conseguiu promover em relação a alguns desses temas?
Gulnar Azevedo e Silva: A gente criou alguns grupos de trabalho, grupos temáticos, que estão vendo a questão do ensino, que seria a proposta pedagógica-curricular, discutem pesquisa e estão discutindo a questão de como a gente trabalha com a política de comunicação e divulgação. No que já avançamos um pouco? A necessidade de pensar que na parte de ensino, algumas modalidades que para o IMS eram pouco exploradas merecem uma maior visibilidade e a gente está entrando nisso, discutindo, com toda a parte de mestrado e de doutorado profissional. E a relação também com a questão da extensão, como trabalhamos isso com cursos de especialização que possam remeter mais para a área de Saúde Pública e Coletiva, com aproximação.

Em relação à pesquisa, não é uma coisa nova e acho que vocês no ISC [Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia] já avançaram um pouco, mas a gente discute temas que perpassam as três áreas da saúde coletiva – Epidemiologia, Ciências Humanas e Políticas. A gente quer romper um pouco [com a prática] que cada departamento só dê conta das suas pesquisas, como podemos fazer isso de forma integrada. O exemplo que vocês têm, que faz todo esse trabalho de comunicação, o Observatório, trabalha dentro das áreas que tem a ver com o que o ISC tem feito. A gente está querendo criar também uma coisa parecida que tenha uma base na pesquisa, mas a pesquisa mais interdepartamento, mais interlinhas, e ir agregando outros contextos. Um tema que apareceu muito forte na pesquisa foi a questão da austeridade, os reflexos da austeridade na saúde.

Na parte de acesso e permanência, temos explorado um pouco quem são os estudantes que chegam aqui, com que perspectivas eles chegam e que perspectivas têm ao sair. É uma análise de egressos, estamos conseguindo viabilizar e colocar como uma das nossas prioridades. [Também] em relação ao acesso e permanência, todo o trabalho que a gente vem fazendo de entender melhor como se coloca a nossa pós-graduação, no que ela deveria se abrir em relação a isso – desde a seleção, mas também toda a política que temos de bolsas e de possibilidade de apoio. Como falei, está tudo muito em construção, o seminário foi recente, esse ano. Estamos dando continuidade aos grupos de trabalho que vêm se debruçando sobre esses temas, mas a gente pretende que, além da ideia acontecer, possamos avançar em termos de estruturar melhor essa política do que seria o IMS, não perdendo sua história, mas também olhando o presente e o futuro com os quais estamos nos deparando.

Eu diria que tem sido muito bom porque essa discussão tem ajudado em repensar estrategicamente, mas também tem tido impacto nas nossas disciplinas. Temos criado algumas disciplinas, em algumas áreas, que contextualizam mais os maiores problemas de hoje, mas que trazem para dentro a importância de novos métodos pedagógicos, novas formas de passar o conhecimento. Podemos ter uma disciplina de professores de outros departamentos, por exemplo, é importante agregar no departamento de Políticas e Planejamento pessoas de Ciências Humanas e vice-versa, isso já está acontecendo na prática nas próprias disciplinas. São disciplinas obrigatórias ou eletivas, as próprias obrigatórias já estão trazendo outros professores para trabalhar em conjunto porque não dá para segmentar tanto o conhecimento.

OAPS: Pensando na conjuntura nacional, nos últimos dois anos houve diversos ataques aos direitos sociais e liberdades, inclusive na saúde, por meio de tramitações no Congresso Nacional, alguns deles inseridos em iniciativas que a princípio não parecem perigosas e com rápida tramitação. Qual a importância de acompanhar essa movimentação para além do setor saúde numa conjuntura tão acelerada? É preciso estar atenta a essa conjuntura como um olhar não apenas de sanitarista, mas também de militante?
Gulnar Azevedo: Em alguns momentos é difícil separar o que é uma coisa do que é outra, ainda mais na nossa área, tão influenciada por determinantes que não são diretamente ligados à saúde, são determinantes sociais que têm impacto muito grande. Acho que como a gente, por dever de oficio mesmo, já tem esse olhar – e no IMS, como colocamos no artigo que vocês citaram, meu e do vice-diretor, Rossano, como temos um olhar que foi construído historicamente com toda a preocupação social, com a preocupação de garantir políticas públicas que avançassem e que dessem conta da construção do SUS universal, com acesso de qualidade para todo mundo –, a gente nunca perdeu a perspectiva do individual. O que é o sujeito dentro disso? Tem toda uma área dentro do IMS que sempre trabalhou com este olhar. Quando vocês colocam [a pergunta], uma vez que sempre trabalhamos com o coletivo e com o indivíduo, o que é novo? É poder colocar e trazer para nossa discussão interna, a questão desses movimentos específicos sociais que hoje estão presentes e conquistando seu lugar. Essas conquistas fruto de lutas de muitos anos têm efeito direto na saúde, como por exemplo movimento das mulheres, mostrando a necessidade de lutar contra uma sociedade machista e patriarcal. Eu acho que o que trabalhamos nessa perspectiva tem a ver com uma forma de ver o mundo e de poder incorporar isso na nossa prática.

O que separa a militância do acadêmico é a postura adotada em relação à política científica. O objetivo de nosso trabalho acadêmico é contribuir cientificamente com as questões por nós escolhidas, sejam elas sociais, antropológicas, epidemiológicas e outras. A ciência em sentido amplo, ou seja, a ciência enquanto conjunto de políticas científicas e educacionais não é neutra, mas definida por prioridades e princípios éticos. O conhecimento gerado deve contribuir para diminuir as desigualdades sociais e apoiar as práticas democráticas na construção de uma sociedade igualitária.

Acesse o pdf com a entrevista na íntegra

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