Daniela Knauth, sobre homossexualidade: “A ‘natureza’ apresenta um grande leque de diversidade que ultrapassa nossas categorias de classificação”

Daniela Riva Knauth, coordenadora do GT Gênero e Saúde da Abrasco e professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, conversou com Bruno Calixto, da revista Época, sobre homossexualidade. Confira a matéria:

Pode parecer esquisito — e realmente é —, mas já houve uma série de televisão de certo sucesso protagonizada por um golfinho. Durante três anos, na década de 1960, crianças assistiram às aventuras de Flipper, o bicho, que ajudava e protegia um guarda ambiental americano e seus dois filhos num destes belos parques americanos que são reservas naturais. Flipper aparecia em imagens subaquáticas ou com metade do corpo para fora da água, fazendo seus sons guturais de praxe e exibindo a inteligência ímpar que distingue os golfinhos. Muitas vezes salvava o policial ou os meninos de alguma enrascada ou de um vilão. Como durante boa parte do tempo o animal usado nas filmagens era na verdade uma fêmea, surgiram dúvidas entre os fãs do programa se Flipper era gay (não que isso tenha qualquer importância).

Agora, 50 anos depois do auge do sucesso do seriado, é possível dizer que havia uma grande chance de Flipper ser o que nós, humanos, chamamos de gay — um conceito que pouco tem a ver com a vida de outras espécies animais que não a nossa. Em Animaux homos: histoire naturelle de l’homosexualité (Animais homos: uma história natural da homossexualidade, ainda sem tradução no Brasil), a bióloga e escritora francesa Fleur Daugey deu um mergulho no comportamento dos animais (exceto humanos) e encontrou uma variada gama de diversidade sexual. Um dos casos mais curiosos é o do golfinho-nariz-de-garrafa, a espécie de Flipper. Em geral, em qualquer espécie, a quantidade de indivíduos héteros é maior do que a de gays. Não com esses golfinhos. Nessa espécie, a proporção é de 50%, de acordo com as observações. “É a espécie mais homossexual que a gente encontrou até o momento”, disse Daugey.

É claro que Daugey não se moveu em uma longa pesquisa por causa de Flipper, um personagem hoje desconhecido pelos millennials nascidos depois de 1980. Em 2013, quando a França legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mais de 150 mil pessoas foram às ruas protestar contra o casamento gay. Em meio aos cartazes, gritos e palavras de ordem, uma frase chamou a atenção de Daugey. As pessoas bradavam um clichê recorrente, segundo o qual o relacionamento gay — ou, mais precisamente, o relacionamento sexual entre espécimes do mesmo gênero — era “contra a natureza”. “Na hora pensei: eu estudo o comportamento animal. Posso descobrir se isso é mesmo verdade, se a homossexualidade existe ou não na natureza”, disse Daugey a época.

Em busca da resposta, ela mergulhou no reino animal — e no mundo das pesquisas científicas. Foi atrás de estudos de comportamento de animais de todos os tipos, de insetos a mamíferos. Os costumes dos macacos bonobos, conhecidos por preferir o amor à guerra, já são bem famosos. Mas e os peixes, as aves, os animais domésticos? Daugey conclui sem dificuldades: ser gay é, sim, natural. Os ativistas de oposição aos relacionamentos gays terão de buscar outro argumento “científico” para defender seu ponto de vista.

O livro mostra que Daugey encontrou relatos e observações de relacionamento entre animais do mesmo sexo relativos a mais de 1.500 espécies diferentes. Em cerca de 500 espécies, esse comportamento foi estudado e publicado cientificamente. O número real deve ser maior. O tema ainda é um tabu na comunidade científica. O livro cita, por exemplo, o relato da primatologista Linda D. Wolfe. Quando observou o relacionamento homossexual em seus estudos, Wolfe se surpreendeu por não ter encontrado nada parecido na literatura científica. Ao falar sobre isso com colegas, descobriu que muitos cientistas não escreviam sobre o assunto porque não queriam que outras pessoas pensassem que eles mesmos eram gays.

A homossexualidade pode ter várias explicações. No caso de Flipper, pode ser estratégica. Golfinhos machos começam a namorar uns com os outros quando ainda são adolescentes — e continuam como um casal a vida toda. Talvez devido ao tabu entre os estudiosos, não há muitas pesquisas para explicar esse comportamento. A principal hipótese é que os machos formam alianças, e a relação sexual fortalece essa ligação. Juntos, eles têm mais facilidade para enfrentar problemas no grupo e conseguir acesso a fêmeas para a reprodução. Ou seja, para os golfinhos machos, ser gay é uma forma de obter mais poder e conseguir relacionamentos heterossexuais.

A adoção de filhotes por casais do mesmo sexo também é uma polêmica resolvida no mundo animal. O cisne negro australiano é um exemplo. Um macho pode copular com uma fêmea e, depois, expulsar a fêmea do ninho, criando os filhos com outro macho. Um comportamento oposto acontece com uma espécie de gaivota. Nela, uma fêmea pode largar o macho e formar um ninho com outra fêmea. Já o ostraceiro, uma ave de plumagem branca e preta e de bico vermelho, prefere o poliamor. É comum encontrar famílias formadas por três adultos — ora dois machos e uma fêmea, ora duas fêmeas e um macho —, e os três cuidarem juntos dos bebês.

O livro postula que, assim como para os humanos, a sexualidade no reino animal não serve apenas para a reprodução — o prazer também é um elemento importante. Fleur Daugey usa como exemplo a alimentação. Quando um animal busca alimento, ele não está pensando que precisa comer para ter nutrientes e não passar fome. Ele está buscando o prazer de comer. Da mesma forma, quando fazem sexo, os animais não estão pensando que querem ter filhos, reproduzir e se multiplicar. Eles estão buscando prazer. É por isso que a sexualidade é tão espalhada, e tão diversa, no reino animal.

Os exemplos levantados pelo livro procuram mostrar que diferentes tipos de sexualidade são “naturais” por serem detectados em várias espécies. No entanto, para a professora de medicina social Daniela Riva Knauth, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o argumento do “natural” não deveria ser usado nesse contexto específico. Ela explica que esse argumento, seja para condenar a homossexualidade, seja para defendê-la, não pode ser considerado científico. “O que está evidenciado cientificamente é que a ‘natureza’, tanto no meio animal quanto no humano, apresenta um grande leque de diversidade que ultrapassa nossas categorias de classificação”, disse. O consenso internacional é de que a homossexualidade é um comportamento que se refere apenas a nós, os seres humanos, os homo sapiens, e que não deve ser tratada como doença.

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Knauth considera perigoso comparar de forma direta os comportamentos humanos com os de outras espécies animais. Segundo ela, o fato de animais terem atração pelo mesmo sexo não pode ser entendido como homossexualidade, da mesma forma que nós, humanos, vemos. “A homossexualidade não se reduz apenas à preferência sexual por pessoas do mesmo sexo, pois no caso de seres humanos ela pode implicar uma identidade sexual, bem como um conjunto de outras expressões que estarão relacionadas a estilos de vida, a contextos sociais e políticos e a processos coletivos e individuais que estão em jogo”, afirmou. A pesquisadora acredita que há formas melhores de contrapor argumentos contrários aos direitos de pessoas homossexuais. “O referencial dos Direitos Humanos, apesar de não ser natural, é algo acordado internacionalmente e preconiza a não discriminação de qualquer condição, incluindo orientação sexual. Isso, e a educação das crianças, me parece o caminho mais sustentável”, disse.

Daugey também concorda que a educação é o melhor caminho. Ela mesma escreve sobre animais e plantas para crianças e frequentemente vai a escolas explicar sobre como os animais vivem. Mas não se incomoda em comparar humanos e animais. Pelo contrário. “Nós somos animais, claro. E os animais são incríveis! Acho que, se as pessoas mudarem suas mentes e se maravilharem com a natureza, elas ficarão felizes em fazer parte do mundo animal”, disse. Assim, humanos, golfinhos, cisnes ou macacos podem viver felizes com a sexualidade que quiserem.

Leia texto original aqui. 

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