Apelo à reflexão – artigo de Lilia Blima Schraiber


Desde o início de novembro, denúncias de estupro sofridas por três estudantes em festas no interior da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) ganharam repercussão na mídia e no meio acadêmico. Em que pese o fato da forte cultura hierárquica predominante nas atividades de certas agremiações estudantis ser conhecida de todos e que denúncias anteriores datam de 2011, uma avalanche de acontecimentos foi desencadeada num curto espaço de tempo de menos de um mês: mudanças na condução da recepção de calouros, o pedido de demissão do professor Paulo Saldiva, a criação de um Centro de Defesa dos Direitos Humanos na Faculdade, o surgimento de novas denúncias na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e a abertura de inquérito pelo Ministério Público, entre outros.

Para Lilia Blima Schraiber, professora do Departamento de Medicina Preventiva e integrante do Fórum de Editores Saúde Coletiva da Abrasco, mais do que a consternação com a gravidade dos fatos, é fundamental pensar os sentidos que tais notícias ganham no discurso midiático e compreender os mecanismos da violência na sociedade contemporânea. “A pressa em torná-los [os fatos] públicos e a necessidade de destaque a determinadas notícias, como a um espetáculo que nos emocione ou nos apresente personagens tornados subitamente heróis ou bodes expiatórios, tudo isso termina por apagar o valor ético e social da publicação dos acontecimentos, pois deixaremos de compreender a existência e o enfrentamento das violências como atinente a todos nós, como responsabilidade dos que estão diretamente envolvidos em cada cenário, mas não somente deles, e sim de todos nós.” O fragmento é parte do artigo Apelo à reflexão, assinado pela docente e publicado no domingo, 30 de novembro, no caderno Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo.

No texto, Lilia ressalta que a violência faz parte do processo de socialização de crianças e jovens e que cabe aos adultos – pais, profissionais e professores – ensinarem e demarcarem os limites e as melhores condutas da vida em sociedade. No entanto, “somos nós, adultos, que, ao banalizarmos as violências entre crianças e jovens, ensinamos e introduzimos os jovens a um convívio em que as violências são possíveis, praticáveis e aceitas como problema eventual”.

Dá-se um certo jogo de troca de responsabilidades, na opinião da professora – pais que esperam esse papel dos professores, docentes que imaginam tratar alunos da graduação como adultos plenos. “Os fatos mostram o contrário, além do que é cruel dar responsabilidades aos jovens para lidarem com diferenças e conflitos que nem sequer os adultos, os pais e os professores, lidam”.

Entender e a violência como um fenômeno social a ser ultrapassado e aprender a lidar com as diferenças da espécie humana, garantindo sua diversidade, são as únicas formas de mudar esse cenário. “O momento requer, então, além de esforços conjugados dos adultos relativamente aos jovens, uma profunda avaliação dos convívios entre os adultos e uma mudança cultural importante para deixarmos de banalizar as violências, até que possamos evitar que elas existam. Conhecê-las e, por mais duro que seja, aceitar que estejam ocorrendo também perto de nós e devamos fazer algo a respeito, é um pequeno, inicial, mas valoroso passo. Esse passo requer um inteiro e longo caminhar, pois não é simples ou fácil lidar com diferenças, sejam raciais e étnicas, sejam sociais e econômicas, sejam de gênero, orientações ou preferências sexuais, sejam, ainda, entre as pessoas que foram vítimas de violências e as que não o foram. […]Nisso consistem os direitos humanos e valem para todos nós, em nossa pluralidade. Só as violências é que não deveriam existir.”, completa Lilia.

Leia o artigo na íntegra e confira também a Nota de repúdio ao machismo, homofobia e violência na FMUSP, assinada pelo DMP/FMUSP.

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