Abrasquianos avaliam proposições de Bolsonaro para a saúde

Entrevistados pelo jornal O Globo após a confirmação da vitória de Jair Bolsonaro na corrida presidencial ao Palácio do Planalto, os pesquisadores Lígia Bahia e Carlos Gadelha apontaram alguns dos aspectos obscuros e inconsistentes da plataforma do presidente eleito para a área da saúde.

Professora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ) e integrante da Comissão de Política, Planejamento e Gestão em Saúde (CPPGS/Abrasco), Lígia ressaltou a falta de diretrizes voltadas às necessidades emergenciais da população e e ao quadro epidemiológico nacional, marcado pela coexistência de doenças infectocontagiosas, doenças crônicas e alto índice de mortes por agravos externos, causadas pela violência e pelos acidentes de trânsito. “A tripla carga é prioridade absoluta e não foi dita ou escrita uma só linha sobre isso”. Junto com Mário Scheffer e Ialê Falleiros, Lígia é autora do estudo “A saúde nos programas dos candidatos à Presidência da República do Brasil em 2018”, que analisou todos os programas inscritos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Já Carlos Gadelha destacou a questão do financiamento e o mito de que o problema do SUS é apenas má gestão de recursos financeiros. Nos dados apresentados pelo pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e integrante do Comitê de Assessoramento em Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (CACTIS/Abrasco), o país gasta US$ 400 em saúde por habitante, valor muito mais próximo ao dispêndio feito por nações africanas do que por países desenvolvidos. Para ele, as demais propostas ventiladas durante a campanha, como prontuário eletrônico nacional, carreira de médico do Estado e livre credenciamento de médicos para o SUS, também possuem grandes limitações. “São incoerências. Fala-se em não gastar mais e se apresentam ideias custosas. Os recursos obtidos com o combate da má gestão e da corrupção não cobrirão essa diferença porque os gastos com saúde num país de tripla carga só crescem”, disse Gadelha à reportagem.

Leia abaixo a matéria completa e acesse aqui a publicação original

O que se pode esperar de Bolsonaro na Saúde
Plano de governo do presidente eleito tem medidas genéricas

De Ana Lucia Azevedo e Renata Mariz – O Globo – 28/10/2018

A saúde, maior preocupação declarada dos brasileiros em pesquisas e o segundo maior orçamento da União (R$ 130,8
bilhões este ano), permanece uma incógnita. Em seu plano de governo e em entrevistas e posts nas redes sociais, o
presidente eleito Jair Bolsonaro propôs medidas genéricas.

Na essência, a afirmação de não aumentar os recursos, porém fazer mais com a melhoria na gestão e o combate da
corrupção. O governo eleito pretenderia investir, num primeiro momento, em auditorias e levantamento detalhado de
dados para identificar onde há subfinanciamento, mas também onde há desperdícios, segundo colaboradores da
campanha.

Faltou apresentar um plano estruturado, que contemplasse urgências nacionais na área, destaca Ligia Bahia, coautora de análise das propostas sobre saúde dos candidatos à Presidência. Para ela, estas são uma solução consolidada para a crise do Sistema Único de Saúde (SUS), do qual dependem 75% dos brasileiros, e o combate da chamada tripla carga do Brasil, única no mundo.

A tripla carga se refere ao fato de o Brasil sofrer simultaneamente com as doenças infecciosas dos países pobres, a
exemplo de zika, dengue e hanseníase; com as doenças crônicas do mundo desenvolvido (diabetes e câncer, por exemplo) e enfrentar uma epidemia de vítimas da violência (no trânsito e armada). Não se sabe qual será a orientação para essas áreas.

— A tripla carga é prioridade absoluta e não foi dita ou escrita uma só linha sobre isso — afirma Bahia, professora do
programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFRJ.

Obesidade infantil

Ela diz que há uma tsunami de obesidade infantil se formando no Brasil e não será com a inclusão de professores de
educação física no Programa Saúde da Família e o treinamento de agentes comunitários para que possam “auxiliar o
controle de doenças frequentes, como diabetes e hipertensão”, segundo prevê o plano de governo sobre a política de
promoção da saúde, que se resolverá o problema.

Outra emergência é o atendimento de pacientes com câncer, hoje a segunda causa de morte e que caminha para se tornar a primeira em 2025, à medida que a população envelhece. Cada vez mais caro e frequente, o câncer é um dos grandes gargalos do SUS.

Carlos Gadelha, pesquisador da relação entre saúde e desenvolvimento da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz,
considera ser um erro afirmar que o SUS tem recursos suficientes. Ele destaca que o Brasil gasta US$ 400 em saúde por habitante. Isso é 60% do que gasta a Argentina e 10% do que destina a França, com paridade dos preços internacionais. É equivalente ao gasto da Namíbia.

Em seu plano de governo, Bolsonaro prometeu instituir um prontuário eletrônico nacional, onde os dados de um paciente estariam disponíveis em qualquer unidade de saúde; permitir o credenciamento universal dos médicos (qualquer médico poderia atender pelo SUS) e criar a carreira de médico de estado. Nenhuma das medidas é nova. Porém, todas têm custos elevados e não se disse de onde sairão os recursos já que o orçamento deverá ser o mesmo.

— São incoerências. Fala-se em não gastar mais e se apresentam ideias custosas. Os recursos obtidos com o combate da má gestão e da corrupção não cobrirão essa diferença porque os gastos com saúde num país de tripla carga só crescem. Não existe milagre e saúde custa muito caro — diz.

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