OPAS e os recursos das indústrias de alimentação. Entrevista com Dr. Carlos Monteiro


Os abrasquianos Carlos Monteiro e Cesar Victora, integrados a um grupo importante de cientistas da saúde pública nas Américas, redigiram uma Carta Aberta à Dra. Carissa Etienne – a nova diretora da Organização Pan-Americana da Saúde – com  posicionamento sobre o financiamento da OPAS com recursos de empresas de alimentos, ocorrido na  gestão anterior.

O assunto havia sido divulgado pela agência Reuters e teve grande repercussão na imprensa, obrigando inclusive a diretora da OMS a dizer que não aprovava a medida e que jamais aceitaria recursos de indústrias de alimentação para financiar programas de controle de doenças crônicas.

A carta é uma descrição mais detalhada deste assunto e foi publicada no jornal eletrônico World Nutrition da Associação Mundial de Nutrição em Saúde Pública.

“A ideia da carta foi aproveitar o momento de troca de poder na OPAS para tentar ‘corrigir rumos' na instituição” revela Dr. Carlos Monteiro.


Dos 7 signatários da Carta Aberta a OPAS, 3 já foram agraciados pela OPAS com o prêmio Abraham Horwitz de Liderança em Saúde Publica nas Américas, o prêmio mais importante que a OPAS concede anualmente a personalidades que se destacaram pela promoção da Saúde Pública nas Américas: Carlos Monteiro (Universidade de São Paulo), Cesar Victoria (Universidade de Pelotas) e Ricardo Uauy (Universidade do Chile)

Confira a entrevista que o Dr. Carlos Monteiro concedeu a Coordenadora adjunta do GT Alimentação e Nutrição da ABRASCO, Inês Rugani (UERJ).

GT Alimentação e Nutrição: Quais as implicações dessa decisão da OPAS de aceitar recursos de empresas de alimentos?

Carlos Monteiro: Ha muitas implicações, todas muito negativas para a Saúde Pública. Cito duas. A primeira é a inevitável perda de credibilidade de uma instituição internacional importantíssima para a Saúde Pública e que tem um histórico respeitável. Qualquer manifestação ou recomendação da OPAS sobre alimentos e saúde perde força.  A segunda é o que o saudoso pediatra e professor de Nutrição, Derrick Jelliffe, chamava 'endorsement by association'. Na medida em que empresas como a Coca-Cola se mostram parceiras de uma instituição – cujo mandato é defender e representar a Saúde Publica, os produtos que elas comercializam automaticamente adquirem uma imagem positiva do ponto de vista da saúde.

GT Alimentação e Nutrição: O que motivou a iniciativa da carta aberta?

Carlos Monteiro: A estratégia de cooptação pelo apoio financeiro de instituições relacionadas à Saúde Pública não se restringe a OPAS, mas envolve outras instituições internacionais e nacionais e inclui universidades e centros de pesquisa. De fato, são muito poucos os centros acadêmicos da área de Alimentos e Nutrição que não são apoiados financeiramente pela milionária indústria transnacional de alimentos. Mas há vários estudiosos da Saúde Pública que são independentes e que não se conformam em ver instituições sérias como a OPAS acabarem promovendo empresas cujos produtos e estratégias de marketing são extremamente prejudiciais à saúde. A carta teve o propósito inicial de manifestar a opinião desses estudiosos e, também, conclamar a nova Diretora da OPAS a rever a lamentável decisão. 

GT Alimentação e Nutrição: Já houve alguma repercussão da carta? Se sim, qual?

Carlos Monteiro: Oficialmente não. Mas, soube que, perguntada recentemente por representantes do países membros sobre sua posição com relação ao financiamento da OPAS pela industria de alimentos,  Dra. Etienne, teria manifestado sua discordância com o financiamento recebido.

GT Alimentação e Nutrição: De que forma aqueles que apoiam o conteúdo da carta podem se manifestar?

Carlos Monteiro: Outras manifestações dirigidas à Dra. Etienne com conteúdo semelhante ao da carta certamente poderão ajudar. Em particular, se tiverem um caráter institucional.

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