Violência nas Redes Sociais Digitais

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A mesa redonda “Violência nas Redes Sociais Digitais”, ocupou o Auditório Nina Pereira Nunes na tarde de domingo, 29 de julho, último dia do Abrascão 2018. O debate foi mediado pela professora e pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) Suely Ferreira Deslandes, que iniciou sua fala afirmando que, a sociabilidade contemporânea é cada vez mais intensa e cotidianamente mediada pela internet. Suely explicou que, a sociabilidade digital se intensificou a partir dos anos 90 e, hoje no Brasil, 65% da população acessa intimamente a internet, especialmente, com a finalidade de interagir, o que com as redes sociais digitais permite uma conectividade sem precedentes. “As redes sociais digitais fazem parte de uma nova cultura, chamada cibercultura ou cultura de conectividade, e cada vez mais a sociabilidade contemporânea, de crianças aos mais adultos, passa por essas mídias. As distinções entre o mundo digital e o off-line (real) já não fazem mais sentido, pois as nossas interações mediadas pela internet se dão da hora que a gente acorda até tarde da noite, quando vamos dormir”, pontuou ela.

A pesquisadora declarou que, as várias formas de violências acabam fazendo parte da sociabilidade digital e que, devido às características dessa cultura digital de hipervisibilidade e hiperexposição, são difundidas sem fronteiras e por tempo indeterminado. Como exemplo de violência disseminada pela internet que atinge crianças, ela atentou para os chamados “desafios”, como o jogo Baleia Azul, e muitos outros, que são revestidos de uma aparência de brincadeira, mas na verdade, favorecem à depressão e são um convite para a automutilação e a prática do suicídio. “As violências são produzidas e reproduzidas em intensidades muito grandes nos espaços digitais, e essas fronteiras não ficam delimitadas às telas dos computadores, elas influenciam os comportamentos, as atitudes, os valores e as práticas. Esses dois universos, on-line e off-line, estão muito misturados e essa é uma questão que merece toda a nossa atenção”, avaliou ela.

Mesmo que nesse espaço a gente se depare com discursos de discriminação e de negação de direitos, não é só a violência que está associada à conectividade, as formas de enfrentamento também estão presentes, ações conhecidas como ativismo digital. Para Suely, para combater as hostilidades é necessário ser feito um investimento para a educação digital. “O acesso à internet é considerado pelas Nações Unidas um direito humano. Esse espaço é muito rico de informações, trocas afetivas e cognitivas, e como espaço de afirmação de democracia e de lutas. Então, de maneira alguma, a gente pode ou deve demonizá-lo, e sim, encará-lo como uma arena de lutas, como um espaço a ser ocupado e levado em conta”, encerrou ela.

Na sequência, a pesquisadora e coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (Pagu/Unicamp), Iara Beleli avaliou como as redes sociais e sua intertextualidade com as mídias têm contribuído com os direitos e a democracia, parte da abordagem do 12º Congresso de Saúde Coletiva. Ela considera que, no momento atual, as notícias e os comentários on-line parecem ser parte de um processo de ampliação de discursos de morte. “Articulações entre a popularização da internet e a proliferação dos discursos de ódio, ocasionam ceticismos, homofobia, racismo e xenofobia. A internet tem se tornado um tribunal da inquisição, uma pessoa pode ser destruída ao declarar-se homossexual, ser negro é quase um xingamento”, lamentou Iara, que também analisou as manifestações contra o movimento feminista disseminados pela internet.

Dando continuidade ao debate, foi a vez da pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES/ENSP/FIOCRUZ) Kathie Njaine apresentar os dados preliminares da pesquisa “Violência na comunicação digital: Análise dos discursos e práticas disseminados na internet sobre homofobia, autoperpetração de violências, cyber dating abuse e cyberbullying”, coordenada por ela e pela mediadora do debate, Suely Deslandes.

No estudo, são analisadas, de outubro de 2017 a março de 2018, comunidades na rede social Facebook e como seus membros se articulam em torno de um tema ou interesse. Optou-se por monitorar comunidades que reunissem um amplo número de participantes, com expressiva frequência de interações (compartilhamentos, curtidas e comentários) e foram encontradas inúmeras manifestações de ódio e potencialização da violência. Um dos grandes alvos dessas comunidades é a população LGBT, resultando para este público um aumento de insegurança social ainda maior.

Nesse contexto, Kathie expôs os dados do Relatório Mundial da Transgender Europe (TGEu), em que mostra que, de um total de 325 assassinatos de transgêneros registrados em 71 países, entre 2016 e 2017, mais da metade (52%) ocorreram no Brasil (171), seguido do México (56) e dos Estados Unidos (25). “Para complementar, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2017, a cada 25 horas uma pessoa LGBT foi assassinada por crime de ódio no país ou se suicida vítima da “LGBTfobia”, o que faz do Brasil o campeão mundial desse tipo de crime”, informou ela.

Última integrante da mesa de debate, a cientista e coordenadora geral da plataforma “Cientista Que Virou Mãe”, importante espaço de ativismo digital contra a violência obstétrica, Ligia Moreiras Sena, declarou que, hoje ainda é complicado fazer pesquisa utilizando as redes sociais como ferramenta, pois a academia não avançou tanto quanto poderia, e que ela mesma teve que enfrentar muita resistência para usar a internet como meio para chegar nas pessoas. “A internet era considerada uma terra de ninguém, mas essa terra tem dono, na verdade, dona, porque aqui no Brasil são as mulheres que ficam mais conectadas. São três dados que eu gosto de ressaltar, porque eles se intercruzam: nós somos uma das regiões mais conectadas do mundo, nós somos uma das regiões mais violentas do mundo e nós somos uma das regiões que tem mais mulheres conectadas no mundo. Então, precisamos nos apropriar das redes sociais como uma ferramentas de ativismo e de pesquisa”, afirmou ela.

Levantando a bandeira de que no Brasil a ciência tem cor, classe e gênero, Ligia defende que é preciso subverter as regras de não aceitar dados publicados por mulheres, mães, negras e brancas, dentro de ambientes científicos. Por isso que, no Abrascão de 2012, juntamente com outras ativistas da área da saúde, a cientista submeteu para comunicação oral o documentário “Violência obstétrica: a voz das brasileiras”, produzido a partir de depoimentos reais de mulheres relatando casos de desrespeitos antes, durante e após a gestação. O documentário de 50 minutos só poderia ser exibido durante 15 minutos, mas essa foi uma estratégia para subverter as regras. O interesse do público gerou uma comoção já esperada e, com isso, o documentário foi exibido na íntegra para cerca de 450 pessoas, inclusive estimulando o debate na edição deste ano, em que o Abrascão contou com 11 trabalhos sobre o tema. “Incentivo todo mundo que tem acesso as redes sociais a utilizá-las em defesa da democracia, é nosso dever multiplicar aquilo que temos acesso. Propaguem as boas coisas que vocês ouviram esse ano no congresso, para fazer frente a esse show de horrores que a gente está acompanhando”, finalizou ela.

Por fim, a mediadora Suely Deslandes concluiu que o estudo da sociabilidade digital, e que a disseminação e produção das violências nas interações mediadas pela internet, bem como as formas de ativismo digital para a defesa de direitos, constituem campos estratégicos para a Saúde Coletiva.

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