Na luta contra os agrotóxicos, comunicação é a arma

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Falar de agrotóxicos nos tempos atuais é fundamental e deve ser um mantra na defesa da saúde e da vida. E o auditório lotado da Escola Nacional de Saúde Pública, mostrou que há muitos e muitas que entoam o mesmo mantra durante a mesa redonda Agro é tudo? Agro é tóxico. Comunicação e resistência na luta contra os agrotóxicos, realizada na manhã do sábado, 28 de julho, durante o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – Abrascão 2018.

A mesa reuniu as pesquisadoras Marina Tarnowski Fasanello, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde – Icict, Raquel Rigotto, coordenadora do Grupo Temático Saúde e Ambiente da Abrasco e professora da Universidade Federal do Ceará – UFC e o cineasta Sílvio Tendler. A mediação foi de Alan Tygel, coordenador da Campanha contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que abriu o evento falando sobre a necessidade de se intensificar o debate e a luta contra os agrotóxicos e o Projeto de Lei 6670/16, que flexibiliza o uso de agrotóxicos, reduzindo para dois anos o tempo máximo de registro de um novo agrotóxico e permitindo ao Ministério da Agricultura, e não a Anvisa e o Ibama que tinham o poder decisório sobre a liberação. Para Tygel, é fundamental “juntarmos forças para barrar essa iniciativa, que prejudica a todos”. Ele também afirmou que a comunicação tem um papel fundamental nesta luta.

Dimensão política e social

Marina Fasanello, aluna do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS), falou sobre a sua tese de doutorado “O Documentário nas Lutas Emancipatórias dos Movimentos Sociais do Campo: produção social de sentidos e epistemologias do Sul contra os agrotóxicos e pela agroecologia”, mostrando “a dimensão política e social da comunicação”.
Sua tese explica o papel do cinema documentário que denuncia o uso intensivo de agrotóxicos pelo agronegócio e seus impactos na saúde e anuncia, por outro lado, as alternativas de construção de outro modelo agrícola, baseado na agricultura familiar e na agroecologia. Segundo Marina, “o documentário funciona como um apropriador de sentidos sociais, que se manifestam nos discursos”, citando como exemplos “País de São Saruê” (Vladimir Carvalho, 1979), “Cabra marcado para morrer” (Eduardo Coutinho, 1984) e “O veneno está na mesa” (Silvio Tendler, 2011), dentre outros.

“Todos os filmes da campanha do agronegócio são divorciados dos que vivem e trabalham com agrotóxicos”, afirmou. Para Marina, os documentários podem ajudar a ampliar a luta contra os agrotóxicos, lançando novas estratégias de comunicação e resistência à luta: “todos os documentários engajados analisados na minha tese, possibilitam, pela colaboração, co-produção, co-criação, que novas estratégias comunicacionais e epistemológicas”. Finalizando, ela ressaltou que “temos que saber como pensar, fazer e estudar a Comunicação de modo emancipatório”.
Invisibilização e luta

“O Brasil que passa no Jornal Nacional é o Brasil que a população acredita” – com essa frase, Raquel Rigotto chamou a atenção dos presentes para a dura realidade que é a luta contra os agrotóxicos. Segundo ela, “há um universo de pessoas que em seus corpos trazem as marcas dos agrotóxicos, mas que são invisibilizadas”.

Ela destacou que em sua luta contra os agrotóxicos, um dos maiores aprendizados foi “a importância da comunicação”. Ela demonstrou como a invisibilização dos efeitos dos agrotóxicos é um “processo ativo de ocultamento e é necessário esse ocultamento para manter esse modelo de desenvolvimento”. E a comunicação, segundo a pesquisadora da UFC, “é chave, tanto no ocultamento quanto no desvelamento do quadro”. Em sua apresentação, Raquel Rigotto causou comoção ao falar de um diálogo entre uma cineasta e uma família rural, “onde uma mãe contou que quando o avião da pulverização aérea passava na comunidade, era uma festa, porque era uma coisa diferente do cotidiano deles, e a criançada ia toda para a rua e ficava toda molhadinha do veneno”.
Rigotto disse que “era possível identificar, naquela região, casos de crianças com puberdade precoce em crianças de um e dois anos de idade, por exemplo”. Segundo a pesquisadora, “ainda há um universo de pessoas que, em seus corpos, trazem as marcas do que os o agronegócio é capaz de fazer com os territórios, o ambiente, a vida e a saúde”. Ainda segundo Raquel Rigotto, “essa invisibilização, o fato de as pessoas não saberem disso, ajuda ao agronegócio a construir esse discurso de que ele é pop, e a invisibilizar a agricultura familiar”. Finalizando, ela destacou o sucesso da “Campanha contra os Agrotóxicos” que, seja nas mídias sociais ou no whatsapp – mobilizando as pessoas: “o assunto chega a outras ‘bolhas’ – o sobrinho que repassa o anúncio da campanha, a dona da pousada… Enfim, públicos diferentes”.

Salvando a arte

O cineasta Silvio Tendler trouxe a sua experiência na produção de documentários e o impacto de associar a arte à ciência e aos movimentos sociais. Logo no início ele começou dizendo que “o cinema político não chega as grandes salas, ao grande público”, mas “O veneno está na mesa” rompeu essa barreira, ao alcançar, segundo Tendler, cinco milhões de expectadores. “É de longe minha maior bilheteria, sem ter me dado um centavo”, brincou, para em seguida destacar que “deu cinco milhões de expectadores e é fundamental no movimento que fazemos já há oito anos e que é de, uma certa maneira, mudar e participar das lutas sociais no Brasil”. Ele enfatizou que seu filme “apontou um caminho de salvação para o cinema brasileiro que é cerceado, restringido nas salas de cinema, mas que em vocês (cientistas e pesquisadores) encontram guarida, mas sobretudo, um espaço fundamental dentro dos movimentos sociais”, afirmou.

O cineasta defendeu que a arte hoje está “enraizada nos movimentos sociais” e a parceria com a ciência acaba sendo fundamental como uma estratégia de luta. “O que deu credibilidade ao ‘Veneno está na mesa’ foi justamente essa parceria”, afirmou. Para Tendler, sem a presença de “cientistas e dos professores, esse movimento (Campanha contra os agrotóxicos) não teria a credibilidade necessária para dizer a sociedade ‘é veneno e mata'”, disse. Segundo ele, “não são as palavras dos artistas, mas de cientistas, de pessoas que trabalham e que têm, como matéria prima essencial, a vida”.

Tendler falou dos dados colocados no documentário, além do cuidado na produção de “O veneno está na mesa”: “muitas das informações colocadas no filme foram retiradas diretamente do site da Monsanto, inclusive sobre o agente laranja”, afirmou. “Tivemos muita responsabilidade ao fazer o documentário, para que não pudessem contradizê-lo. Ninguém veio a público para dizer que aquele filme mentia, porque não tinha inverdade ali. tanto é que a resposta ao “Veneno” é uma campanha milionária de publicidade”, citando indiretamente a campanha “Agro é pop”. Finalizando a sua apresentação, ele, de forma simples, definiu o seu ofício: “pra mim, arte é isso. Arte é militância, arte é política. Arte é transformação”.

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