Mexeu com o Sofia Feldman, mexeu com a Saúde Coletiva

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Novecentos partos por mês; 2.500 diárias em UTIs neonatais; estruturas de apoio às mães e a bebês prematuros, atendendo a capital mineira e outras 300 cidades do entorno e do interior de Minas Gerais, além de programas de participação da comunidade e de residência, prêmios e reconhecimento nacional e internacional. Com tantos números e feitos, por que o Hospital Sofia Feldman vem passando tantos constrangimentos? Para a Abrasco e diversos profissionais e usuários da unidade, instalada no Tupi, bairro popular da Zona Norte de Belo Horizonte, a resposta está justamente na qualidade ofertada à população e no fato de o Sofia ter um atendimento 100% SUS, o que incomoda e muito aos poderosos e mercadores da saúde. Neste Dia Internacional da Mulher, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco – entende que a luta pelo protagonismo feminino e pelo direito, acesso e qualidade de atendimento dedicado a toda e qualquer mulher nos serviços de saúde devem estar no centro das manifestações desse 08 de março e se soma na convocação: mexeu com o Sofia, mexeu com todas.

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Inspirado no sonho de um líder comunitário e construído pelo sistema de mutirão, o ambulatório e depois Hospital Sofia Feldman desde o princípio investiu num modelo diferenciado de assistência ao parto sem abrir mão da atenção à população do entorno, que dependia da caridade para ter acesso aos serviços básicos de saúde. Funcionou com trabalho voluntário e doações da comunidade até 1986, quando foi incluído nas Ações Integrais de Saúde – AIS, programa precursor do Sistema Único de Saúde – SUS. Mesmo mantendo-se como um hospital filantrópico, seu conselho gestor, com forte participação da comunidade, decidiu que o hospital continuaria exclusivamente voltado para o atendimento público e gratuito, com ações orientadas à mulher e suas filhas e filhos – antes e depois dos nascimentos, tornando-se referência em parto humanizado.

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No entanto, desde 2013, os repasses vem sofrendo descontinuidade; a tabela de pagamentos não é atualizada e demais atividades, como as de hospital de ensino, não recebem nenhuma dotação específica, ao contrário de outras unidades com atividades de formação e preceptoria instaladas no município. A crise financeira corroeu ainda mais os parcos valores recebidos e o quadro agravou-se muito a partir de 2015. Nos três últimos anos atrasos nos vencimentos, falta de medicamentos e de material de apoio tornaram-se constantes. Neste 2018, leitos na enfermaria e na UTI neonatal tiveram de ser fechados, com risco de fechar todo o hospital. “Chama a atenção o fato de a segunda maior maternidade da cidade realizar cerca de 30% dos atendimentos do Sofia e receber três vezes mais recursos. Essa falta de equilíbrio na distribuição financeira tem conotações políticas. O problema não é de gestão, como alegam e tentam fazer a população acreditar, mas sim de financiamento”, diz Júlia Cristina Amaral Horta, psicóloga e coordenadora do setor de psicologia e do projeto das doulas comunitárias do Sofia. Atualmente, o déficit mensal está calculado em R$ 1,3 milhão.

Começou-se então, com ampla cobertura da imprensa comercial, uma guerra de versões e falsas promessas por parte da prefeitura municipal de Belo Horizonte. Tanto nas notícias veiculadas como nas reuniões com a Secretaria Municipal de Saúde, o apoio financeiro da prefeitura é condicionado a contrapartidas draconianas, claramente interessadas em alterar a estrutura, a missão e a atuação do Sofia. “Este hospital-maternidade é a materialidade de um SUS que dá certo e que traz práticas contrárias ao poder hegemônico da medicina, que acha que tudo é ato médico. E isso incomoda muita gente”, reforça Júlia, também conselheira da Rede pela humanização do parto e nascimento – ReHuNa.

Para Daphne Rattner, professora da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (FS/UnB), atual presidente da ReHuNa e associada Abrasco, o Sofia destaca-se no cenário nacional e internacional por ser um laboratório de humanização. “Eles estão sempre inventando novas formas de cuidado, sempre no intuito de humanizar ainda mais esse momento do parto, dos primeiros atendimentos e em qualquer momento do cuidado. Eles serram as pernas das macas, instalam telefones sem fio e outras ações que visam oportunizar o protagonismo da mulher, e isso dentro da cultura, do entendimento e das limitações de cada uma das mães atendidas, tratadas de fato como sujeito do atendimento”, destaca a abrasquiana.

A ReHuNa, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o Conselho Municipal de Saúde de BH e diversas outras entidades e veículos de comunicação estão em mobilização para garantir a manutenção do Sofia Feldman como foi pensado e corajosamente funciona. Pesquisadores como a abrasquiana Maria do Carmo Leal, da ENSP/Fiocruz; a comediante e atriz Cida Mendes; a bailarina e porta-bandeira Selminha Sorriso; o ator Marcio Garcia; a presidente do Royal College of Midwives (do Reino Unido) Lesley Page; enfermeiras de saúde materno-infantil da província de Nampula, no Moçambique, entre outras, gravaram vídeos com depoimentos de apoio ao parto humanizado e ao trabalho do Sofia, todos disponíveis na comunidade “Mexeu com o Sofia, mexeu com todas”, na rede social Facebook. Outros vídeos e mensagens direcionadas à conta do Twitter do prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (@alexandrekalil), têm sido as principais manifestações virtuais de apoio ao Sofia.

Nesta quinta-feira, 08 de março, Dia Internacional da Mulher, sofias e sofias de toda a Belo Horizonte voltarão a se manifestar na porta da SMS-BH. A concentração está marcada para às 16 horas. Junte-se a essa mobilização, tanto nas redes como presencialmente. Mexeu com o Sofia, mexeu com a Abrasco e com a Saúde Coletiva.

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