Gastão Wagner convoca o movimento sanitário a mostrar que o povo cabe no Estado brasileiro


Fazer da luta da saúde ainda mais inclusiva, que traga como símbolo as cores do arco-íris –  referência direta do movimento LGBT e a sua Parada gay – e que também simbolize toda a diversidade e pluralidade das temáticas e das práticas dos movimentos da saúde; seus compromissos com o SUS enquanto uma concepção de sociedade: equânime, horizontal, íntegra e diversa. Na noite de 26 de maio, Gastão Wagner de Sousa Campos, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp) e presidente da Abrasco, fez a conferência de abertura do 5º Congresso Brasileiro de Saúde Mental, organizado pela associação-irmã, a Abrasme, no teatro da Unip-Indianópolis, ressaltando o papel do Movimento Pela Reforma Sanitária em mostrar para toda a sociedade brasileira que o povo cabe dentro do orçamento e das prioridades do Estado.

“O Congresso da Abrasme traz essa chamada de que temos de estar juntos na diferença, coisa que estamos sentido dificuldade nessa conjuntura. Como a gente se relaciona numa sociedade que está desesperançada?” provocou  logo nas primeiras ideias de sua intervenção.

Reconhecer as melhorias nas condições de vida de boa parcela da população, principalmente nas condições de consumo e em alguns aspectos do desenvolvimento social são a chave, na visão do professor, para entender boa parte da insatisfação expressa pela sociedade brasileira. São conquistas históricas – muitas delas encabeçadas pelo movimento da Reforma Sanitária – e que trouxeram resultados efetivos na vida de milhões de pessoas, mas não foram acompanhadas de uma real melhoria na conquista de direitos, direitos esses agora golpeados por um projeto derrotado nas urnas, mas que foi “terceirizado” nas alianças da política partidária e tomou assento no Palácio do Planalto. Uma situação que faz da atual junta encabeçada por Michel Temer um governo ilegítimo para a sociedade, porém legitimado por um parlamento dos mais conservadores, formado majoritariamente de homens empresários brancos, na visão expressa por Gastão Wagner.

“Eles estão ameaçando as políticas públicas da Saúde; as leis trabalhistas; os direitos dos aposentados. Com o silêncio da mídia, eles estão armando um ataque ao pouco da política pública que o Brasil construiu”, salientou. Essa dívida que querer imputar ao mundo do trabalho não está na seguridade, mas no “bolsa-empresa”, explicou ele ao falar dos repasses diretos dos fundos públicos e das isenções fiscais que não trazem repercussão para a geração de emprego, atingindo valores que ultrapassam os R$ 290 bilhões de recursos que deveriam retornar em investimentos da União, além da aplicação da política econômica voltada para o pagamento da dívida pública sob altos juros, mecanismo que mantém abastecida a elite econômica do país e empobrecida as cidades e as populações trabalhadoras e vulnerabilizadas.

“Eles dizem que o povo brasileiro não cabe no orçamento do Estado, não cabe no aeroporto, não cabe na praia. Teremos de resistir, fazer a disputa ideológica e cultural e unificar nossa maioria, que é povo, que vai à praia, e que se une nas ideias de cidadania e liberdade”, relacionou Gastão ao longo da sua fala, mostrando que, justamente num cenário desesperançoso e confuso, faz-se ainda mais necessário uma ação social em prol do comum e do que une as forças sociais brasileiras pela luta e pela resistência.

“A esperança somos nós mesmos. A esperança é esse movimento da Reforma Sanitária, que ao longo de tantos anos tem conseguido vitórias expressas, que não tem centralismo, que tem suas diferenças, mas que foi efetivo na construção do SUS e que conseguiu, dentre outras coisas, fechar mais de 60 % dos leitos psiquiátricos e hoje realiza um congresso como esse. Nós somos bons demais, e isso os incomoda”, salientou Gastão.

Além de resistir frente ao pacote já anunciado pela junta interina liderada por Temer e Meirelles e de transformar no cotidiano as práticas nos espaços de inserção profissionais dentro do SUS – tanto na humanização da atenção como na gestão – Gastão ressaltou que os movimentos da saúde precisam ampliar suas estratégias de identificação e serem ainda mais propositivos. “Temos de mostrar como e por que precisamos dobrar o número de CAPS, como e por que investir em Saúde da Família. Dinheiro a gente sabe que tem”, disse o professor, não esquecendo de pontuar também a importância do combate à corrupção e dos avanços necessários numa reforma do Estado que acabe com as assimetrias e parcialidades. “Precisamos depender menos dos Executivos e ser mais públicos”, afirmou o sanitarista ao abordar sua proposta de carreiras únicas para o setor público da saúde, conhecida como SUS Brasil.

Numa fala marcada pela experiência da vida e pela alegria do conhecimento, Gastão Wagner brincou com a famosa frase de M. Luther King, e convidou a todos a sonharem e se juntarem para fazermos o Brasil que queremos  no cotidiano dos serviços de saúde, ‘não deixando para amanhã a revolução que pregamos para os outros’. “Acho que a gente tem de fazer uma série de atos, ocupações simbólicas, debates, protestos pautados a favor do SUS, da Educação Pública, da Seguridade e da Previdência. Atos num crescente, que vão desembocar com mais de um milhão de pessoas nos diversos espaços – nos serviços, nas universidades, nas ruas de todas as nossas cidades, desembocando num grande São João para celebrar a cidadania, a democracia, a esperança e a vida. Vamos em frente”.

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