Baianidade, cultura e afeto no 7º Simbravisa


Nos quatro dias de realização do 7º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária – 7ºSimbravisa – o público presente pôde vivenciar, junto com os debates acerca da VISA e do Sistema Único de Saúde (SUS), manifestações culturais dos mais variados tipos e sentidos. Some ainda as atividades da Tenda Maria Felipa, tornando o simpósio, espaço central na produção de conhecimento, também potente em emoções, afetos e outras formas de saber.

A sinalização de que a cultura teria destaque já estava clara desde a cerimônia de abertura, realizada no dia 27 de novembro no Teatro Castro Alves (TCA). Cem jovens músicos de destaque dos núcleos de bairro e de cidades do projeto Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojibá) proporcionaram ao público uma récita de alto nível técnico, que congregou a beleza e o rigor da música erudita na execução da Abertura de O Guarani, de Carlos Gomes, e Pampa e Circunstância Nº4, de Edward Elgar, à força da música popular, com o Danzón, de Arturo Marques; e Berimbau, de Baden Powell.

“Damos espaço para novos talentos, numa roda viva em constante renovação. São jovens de vários bairros e cidades que se reúnem para fazer música nos núcleos locais, vão se desenvolvendo e ascendendo no projeto, passando por esse Núcleo Castro Alves antes de chegar à primeira orquestra do projeto, a Juvenil da Bahia. Muitos deles vêm de localidades pobres e com altos índices de violência, como o Bairro da Paz, e fazem da música uma oportunidade de vida”, explicou Marcos Rangel, maestro da Orquestra e da direção artística do projeto.

Resgatando tradição promovendo representatividade: Já no espaço do Centro de Convenções do Othon Palace, foi a vez das Ganhadeiras de Itapuã e a da Banda Didá mostrarem a força das mulheres negras que fazem a vida e a cor do estado. A lida da venda do acarajé, de outras comidas e da oferta de serviços domésticos anunciados por bordões estava num sensível processo de desaparecimento quando, há 13 anos, músicos da cena local resolveram desenvolver um projeto de memória, inclusão social e música, recuperando canções, pregões e sambas de roda. Surgia assim o grupo Ganhadeiras de Itapuã, hoje com repercussão internacional após a participação na cerimônia de encerramento das Olimpíadas deste ano, e que deu o ar da graça no encerramento das atividades da segunda-feira, 28.

“É uma alegria imensa para nós poder levar no nome da Bahia e Itapuã e ser reconhecida aqui em Salvador e em todo o Brasil”, disse Maria Xinó, integrante quase octogenária com maior vivência entre as Ganhadeiras. “É um valor que não tem preço, pois além de nos divertirmos, mostramos que as mulheres podem ter outras formas de expressão”, completou Terêsa Conceição antes de subirem ao palco e proporcionarem uma hora de samba, bênção e muito axé.

“Foi um trabalho de garimpo, sabe, fazer essa identificação e lutar pela preservação de uma cultura puxada no fio de voz e na labuta do trabalho de gerações de mulheres. Damos total prioridade a elas na definição da agenda e dos compromissos. Apresentar-se é importante, mas o principal é a ressignificação da vida delas e a profissionalização musical, dando visibilidade a essa cultura popular e colocando-a no seu devido lugar”, explicou Amadeu Alves, diretor musical e idealizador do projeto, que junto com outros oito músicos conduzem a música para as baianas descerem a voz e rodarem suas saias, mostrando que Itapuã não é só os versos de Dorival e Vinícius.

Já na terça-feira, 29, o encerramento das atividades teve o ritmo e a síncope da Banda Didá, que abriu a possibilidade de inclusão e de empoderamento feminino ao criar um bloco afro só de mulheres. “Nosso papel é dar formação e promover geração de renda. Elas aprendem sobre ritmo, música, mas também sobre história e direitos da população negra. Dessa forma, elas saem com a estima lá no alto, uma atividade profissional e rendimentos para sustentar suas famílias”, explicou Vivian Caroline, artista porta-voz do grupo. Em 24 anos de existência, a Didá já se apresentou nos principais palcos do Nordeste e ano sim ano também participa do circuito central do carnaval de Salvador.

Cuidado, cultura e debate em forma de tenda: Outro ponto de encontro de formas de saúde e de conhecimento no 7º Simbravisa foi a Tenda Maria Felipa, organizada pelo coletivo Bando Encantaria de Educação Popular, demais movimentos locais e nacionais da Educação Popular em Saúde com o apoio da Divisão de Vigilância Sanitária (Divisa/Sesab).

Sessões de práticas integrativas, como massagens, reiki, cromoterapia, entre outros, estiveram à disposição dos simposiastas. Na programação, debates variados sobre estratégias da Educação Popular poder influenciar e incidir nas ações e políticas públicas importantes, como no tema dos agrotóxicos e do suicídio.

O nome é uma homenagem à heroína revolucionária que viveu na Bahia no século XIX. Maria Felipa de Oliveira teve um importante papel na Guerra da Independência, que ocorreu entre 1822 e 1824. “As tendas da Educação Popular em Saúde têm uma história desde o 1º Fórum Social Mundial. Aqui na Bahia, desde o MobilizaSUS, a gente começou a construir as e resolvemos fazer essa homenagem. A arte tem um espaço muito importante nesse trabalho pela sua capacidade de criticidade. Além disso, o cuidado popular é um ponto forte, para sempre debatermos a implementação da Política Nacional de Educação em Saúde e das Práticas Integrativas”, explicou, Patrícia Dantas, educadora popular e servidora da Escola de formação técnica em saúde (Novis/Superh/Sesab).

Para Rivia Barros, responsável da Divisa/Sesab pela programação cultural e Tenda, a proposta foi fazer um apanhado entre tanta diversidade cultural que a Bahia oferece. “Escolhemos o que estava mais aflorado, com maior identificação, como as Ganhadeiras e a Banda Didá, colocando a mulher em destaque. Na nossa sociedade as mulheres são o aporte das famílias, são elas quem “mandam ver”, como se diz aqui em Salvador. Acredito que a programação tenha servido para que os simposiastas pudessem refletir de uma forma alegre. Esse cenário de crise no qual vivemos já traz um peso grande… Então, oferecer cultura e afeto é lembrar que todos iguais e o que a gente quer é estar saudável e ser feliz”, apontou a dirigente. Sábias e saudáveis palavras.

Veja abaixo o registro da TV Abrasco sobre a Tenda Maria Felipa:

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