As Olimpíadas brasileiras e a mistura de açúcar e adoçante nos refrigerantes


Refrigerante com menos açúcar é saudável? O Idec divulgou no fim de abril a flexibilização das regras do Ministério da Agricultura que agora permitem entrada e fabricação de bebidas com mistura de açúcar e adoçante; nova norma abre brecha para Coca-Cola “verde” no Brasil. A Coca-Cola de embalagem verde chegou mês passado ao Brasil, cercada por um marketing que a associa a conceitos de “bem-estar”, a bebida tem como chamariz o fato de ter 50% menos açúcar do que o refrigerante tradicional da marca. No entanto, ela está longe de ser saudável.

Além do açúcar, a versão utiliza também estévia, um adoçante natural, para manter o sabor doce. O verde da embalagem, no caso, apela para este atributo “natural” do edulcorante, como se isso o tornasse necessariamente saudável. Chamada de Coca-Cola Life no exterior, a bebida já estava presente em 25 países e só pode entrar agora no Brasil por conta de uma flexibilização nas regras do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Um decreto de 2009 proibia a associação de açúcares com adoçantes na fabricação de bebidas, exceto para refresco em pó (aqueles de saquinho). Porém, em dezembro do ano passado, a regra foi alterada (por meio de outro decreto, de nº 8592), e passou a permitir tais misturas.

Para Ana Paula Bortoletto, nutricionista e pesquisadora do Idec, o afrouxamento das regras do Mapa ocorreu por pressão das grandes indústrias de alimentos e representa um retrocesso para o consumidor.  “Essa mudança permite o surgimento de novos produtos no mercado com práticas de marketing enganosas aos consumidores”, critica. “Apesar de se venderem como ‘saudáveis’, elas continuam sendo bebidas açucaradas que contribuem para o aumento de doenças crônicas como obesidade e diabetes, cuja incidência vem aumentando muito no Brasil”.

Além disso, a nutricionista destaca que esses novos produtos podem levar ao aumento do consumo de adoçantes no país, que também apresentam riscos à saúde se consumidos em excesso. Uma pesquisa realizada pelo Idec no ano passado revelou que a quantidade de edulcorantes em bebidas light, diet ou zero é alta e que os rótulos não deixam claro os riscos do consumo excessivo desses aditivos.

Olimpíadas e refrigerante

A marca vai aproveitar o apoio aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio e o mote esporte/saúde para divulgar o novo produto. Em junho, os primeiros comerciais e campanhas sobre a nova Coca-Cola chegarão à televisão e internet. Com rótulos e embalagens verdes, o refrigerante estará disponível nas garrafas PET de 1,5L e 1L e também na lata de 350mL. O preço será o mesmo da Coca original. Ao que tudo indica o lobby no Ministério da Agricultura foi bem sucedido: timing perfeito para Coca-Cola lançar durante as Olimpíadas para ganhar o bônus de associar com evento que remete a saúde e esporte.

 

Mudança na norma do MAPA:

Antes dizia: “§ 1o É proibida a associação de açúcares adicionados e edulcorantes hipocalóricos e não-calóricos na fabricação de bebidas, exceto para os preparados sólidos para refresco.

E agora, além de revogar esse parágrafo, acrescentaram um outro:

Art. 14-A. É permitida a fabricação de bebidas não-alcoólicas, hipocalóricas, que tenham o conteúdo de açúcares, adicionado normalmente na bebida convencional, parcialmente substituído por edulcorante hipocalórico ou não-calórico, natural ou artificial, em conjunto ou separadamente. (Incluído pelo Decreto nº 8.592, de 2015)

Parágrafo único. As bebidas a que se refere o caput conterão, no rótulo frontal, informação referente aos atributos “baixo em açúcares” ou “reduzido em açúcares”, aplicando-se, no que couber, o disposto no § 2o do art. 14. (Incluído pelo Decreto nº 8.592, de 2015)

 

 

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