David Sanders (1945-2019): Uma inspiração na luta da Saúde para todos

“Na manhã do sábado 31 de agosto, quando recebi a notícia da morte súbita e prematura de David Sanders, muitas mensagens por e-mail, whatsapp, telefonemas, facebook e twitter não pararam de chegar… Vinham de ex-alunos, colegas, ativistas, de indivíduos e grandes instituições. Muitos, de certa forma, incrédulos, porque, como um colega me disse, ‘pensei que, de alguma forma, David estaria aqui para sempre‘”, disse Uta Lehmann, Diretora da Escola de Saúde Pública da Universidade do Cabo Ocidental na África do Sul, uma instituição líder em educação e pesquisa em saúde pública na África do Sul e na África, onde David foi fundador e Professor Emérito.

A Abrasco também se solidariza com familiares e amigos e expressamos nesta nota um profundo sentimento de perda, bem como profunda gratidão por seu trabalho e contribuição: David era voz tenaz e urgente do ativista que luta pela saúde como um direito humano, luta contra a desigualdade e as injustiças persistentes.

Muitos abrasquianos enviaram mensagens de pesar sobre David Sanders: “Era um guerreiro na defesa do direito universal à saúde… No espírito da atenção primária à saúde integral da Declaração de Alma Ata, em seu último artigo publicado no Lancet neste mês reitera a importância da APS e alerta sobre como agências internacionais dão um passo à frente e dois passos atrás ao subsumir a atenção primária à saúde aos objetivos da cobertura universal e restringir o direito à saúde à cobertura por um seguro diferenciado conforme capacidade de pagamento. David sempre nos inspirará por sua coragem e perseverança para a luta pela defesa do direito universal à saúde de todas e todos em todo mundo” disse Ligia Giovanella, Coordenadora da Rede de Pesquisas em Atenção Primária à Saúde da Abrasco.

Mario Dal Poz, professor titular do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, lembra sua parceria com David: – “O conheci em 2000 numa reunião da Organização Mundial da Saúde em Genebra que discutia os problemas e os desafios da força de trabalho da saúde a nível global. David era uma figura carismática, mas muito simples, e rapidamente começamos a interagir, ele também tinha tido formação em pediatria assim como eu, tinha tido um passado de ativismo político muito importante, viveu exilado em vários países e defendia suas posições com muita firmeza, David fez parte, na Inglaterra, de uma associação de médicos contra a medicina privada! Estava sempre trabalhando na concepção política mais geral contra a pobreza e desigualdade juntando a isso sua capacidade de formação e produção e ainda um enorme relacionamento com os pesquisadores da elite científica do mundo inteiro. Discutíamos muitas vezes as prioridades de pesquisa na área de recursos humanos em saúde e tivemos oportunidade de traze-lo ao Brasil pelo menos duas vezes. David sempre esteve muito além dos muros… foi homenageado por dezenas de universidades, era do conselho editorial de uma série de revistas, tinha naturalidade nas relações pessoas, e com muita frequencia fazia valiosas amizades para além das relações políticas e técnicas. Ele estava aposentado mas mesmo assim mantinha atividades regulares na escola onde trazia convidados para sessões, numa espécie de busca permanente para identificar prioridades e caminhos novos. Já reparou que ele está sempre sorrindo nas fotografias? É contagiante, e para homenagea-lo devemos continuar com esse trabalho na saúde global fazendo parcerias e cooperações com os países, ultrapassar nossas barreiras e não pensar só em nosso umbigo e nos nossos problemas do dia a dia.”

O professor Dal Poz enfatiza a parceria do Instituto de Medicina Social da UERJ com a Escola de Saúde Pública da Universidade do Cabo Ocidental na África do Sul, e ainda com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa e Universidade Semmelweis, em Budapeste na Hungria, para desenvolver um projeto de formação em recursos humanos em saúde de lideranças, que começou com o David e continua agora com Uta Lehmann.

A pesquisadora Elisabetta Recine, professora na Universidade de Brasília e coordenadora do GT Alimentação e Nutrição da Abrasco conheceu David Sanders durante a organização da reunião anual do Comitê de Nutrição das Nações Unidas – SCN que ocorreu no Brasil em 2005: – “Naquela época, a SCN tinha grupos de trabalho com a participação da sociedade civil. Ele tinha um interesse real em falar sobre o Brasil, o que é raro em fóruns internacionais. Fiquei impressionada como ele conhecia a nossa realidade. Nos encontramos várias vezes depois disso e mantive minha admiração sobre o quanto ele continuava acompanhando nossos avanços e percalços. Com sua fala ‘mansa’ mas vigorosa e atenta, humor peculiar e um profundo compromisso com a vida e a justiça. Apesar do contato esporádico, talvez por tudo que estejamos vivendo, tenho um verdadeiro sentimento de perda, de uma ser sensível e do bem.” lembra Elisabetta.

Formado em Medicina no Zimbábue e em Pediatria e Saúde Pública no Reino Unido na década de 1970, David Sanders tinha mais de 35 anos de experiência em saúde pública e atenção primária à saúde no Zimbábue e na África do Sul, sendo reconhecido tanto nesses países quanto internacionalmente por suas contribuições nessas áreas. Trabalhou de forma extensiva com movimentos de libertação e governos na África do Sul, OMS, UNICEF e outras agências em saúde infantil, nutrição e recursos humanos em saúde. Sanders atuou em várias organizações da sociedade civil promotoras de justiça social e saúde para todos.

Ele foi responsável por projetar e coordenar um grande programa de saúde rural no Zimbábue de 1980 a 1989, que influenciou e modelou a implementação de políticas pós-independência baseadas na Atenção Primária à Saúde. Durante esse período, ele iniciou e presidiu um programa nacional reconhecido internacionalmente sobre a desnutrição infantil.

Sanders publicou inúmeros artigos, capítulos de livros e quatro livros: The Struggle for Health; Questionando a solução; Indiferença Fatal: G8, África e Saúde Global; e Conseguir Saúde para Todos. Nos últimos seis anos foi co-coordenador do People’s Health Movement e organizador de diversas iniciativas da International People’s Health University (IPHU). Foi professor e diretor fundador da Escola de Saúde Pública da Universidade do Cabo Ocidental, África do Sul, com enorme experiência em políticas de saúde e desenvolvimento no Zimbábue e na África do Sul, nas áreas de atenção primária à saúde, saúde e nutrição infantil e recursos humanos em saúde, como parte do desenvolvimento de sistemas universais de saúde.

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