Vacina HPV no Brasil e no mundo é tema de debate


Existem mais de 100 tipos de vírus do HPV. No Brasil, 70% deles são responsáveis pelos casos de câncer de colo do útero. A vacina, que entrou no calendário de muitos países desde os últimos anos, tem encontrado cenários distintos, mas o consenso de que ela ainda é muito jovem e por isso ainda não garante 100% de segurança sobre efeitos adversos, é unânime, como conta o pesquisador americano Arthur L. Reingold, professor de Epidemiologia da School of Public Health, University of California, Berkeley. De acordo com Reingold, 33 países implantaram o programa de vacinação HPV em 2014. “A escola é o local ideal para iniciar uma campanha como esta”, ressalta.

 

Países da Europa conseguiram alcançar uma média de cobertura de 84%. No Reino Unido, que implantou o programa em 2008, iniciando nas escolas e com financiamento público, e alcançando meninas de 12 a 13 anos e 15 a 18 anos, atingiu mais de 80% de cobertura, o que Reingold considera muito eficiente. Nos Estados Unidos começou em 2006 via atendimento primário de saúde, com financiamento público dos elegíveis, avançando depois para o sistema privado. Para os casos em que a população a ser coberta não tivesse plano privado de saúde, o governo cobriria os custos com a vacina. Mesmo assim, Reingold revela que os resultados não são satisfatórios por uma série de questões, mesmo que em 2011, essa cobertura tenha alcançado os meninos no programa de imunização. “Para Tdap e MCV4 estamos com uma cobertura de 80 a 90%, mas para HPV, alcançamos um pouco mais de 30% entre as meninas, e com os meninos, cerca de 15%”, disse.

 

Mas porque isso vem acontecendo em alguns países como os Estados Unidos? Foi o que tentou entender Reingold. “Em primeiro lugar, temos um atendimento de saúde muito pior se comparado aos de países ricos no mundo. Conseguimos uma adesão maior à vacina com garotas que estão abaixo da linha da pobreza, na tentativa de entender porque estamos saindo tal mal. E também realizamos uma pesquisa com os pais, o que foram destacados pontos importantes”, conta. De acordo com o professor, a falta de conhecimento, a relevância, os efeitos colaterais, a não-recomendação pelos médicos e o pensamento de que as meninas não tinham vida sexual ativa foram os fatores incidentes, nesta ordem. “A questão sexual ainda é presente, o que reflete uma ignorância quanto à prevenção do câncer”, complementou. Reingold enfatizou que as meninas não se sentem à vontade em falar com os pais sobre a vacina porque a interpretação pode ser a de que as filhas já estão sexualmente ativas. Nesse sentido, o pesquisador afirmou que os Estados Unidos não estão preparados para realizar uma campanha nas escolas. “Não estou otimista quanto a uma mudança desse quadro”, pontuou.

 

Contudo, os Estados Unidos não estão sozinhos. A Colúmbia Britânica, no Canadá, é outro exemplo de ineficácia do programa, como apresenta Reingold. Nessa localidade, três fatores incidem: a questão da segurança da vacina, a definição de faixa etária para a campanha e o fato de que a vacina é jovem demais. “Os efeitos colaterais são um grande problema. A notícia recente, no Brasil, sobre paralisia depois da vacina, é ruim para a imagem do programa de imunização. Nesse sentido, fazem as pessoas desacreditarem da eficácia da vacina. No Japão, por exemplo, desde 2013, quando se planejou na implantação do programa, a vacina tem sido considerada até hoje, problemática. O que precisamos entender é que nenhuma vacina é 100% segura”, ressaltou.

 

Ainda não se sabe sobre o impacto do programa de vacinação sobre o câncer cervical. De acordo com Reingold, é necessário um pouco mais de 10 anos para se ter uma imagem de impactos sobre a saúde da população imunizada. Há o exemplo da Austrália, que foi o primeiro país no mundo a implantar o programa e também o planejamento de avaliação. “Na Austrália, houve uma redução dos casos em mulheres. Até nos homens, mesmo não tendo sido vacinados, se observa uma queda, talvez pela função imunológica provocada pela vacina”, disse. Para Arthur Reingold, temos um grande desafio: convencer as pessoas sobre a segurança da vacina. Caso contrário, isso pode comprometer o programa de imunização da vacina HPV no mundo inteiro.

No Brasil, 80% dos indivíduos tem algum tipo de HPV. Em 2014 já foram notificados 15 novos casos. Considerada a terceira causa de morte entre as mulheres, a incidência é maior nas regiões Norte e Nordeste, onde o acesso aos serviços de saúde são mais deficientes. Como explica Antônia Teixeira, do MS, a vacinação é considerada uma ferramenta de prevenção primária, o que significa que não substitui o rastreamento do câncer do colo. O Programa Nacional de Imunização iniciou a campanha em março de 2014 com a primeira dose com meninas entre 11 e 13 anos, e indígenas entre 9 e 13 anos. A segunda dose, prevista para 2015, vai alcançar meninas de 9 a 11 anos e a terceira dose, em 2016, com meninas a partir de 9 anos de idade. “A previsão é de 15 milhões de doses da vacina em todo o Brasil com um investimento de mais de 1,1 bilhão de reais”, ressaltou.

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