'Tradutores simultâneos' de Gestão e Saúde


São Paulo compareceu pontualmente às nove da manhã para prestigiar o Seminário ‘A Gestão da saúde no Brasil’, compondo um auditório repleto de interessados num dos mais complexos temas da Saúde Coletiva. Reunindo expoentes das duas áreas – que caminham juntas mas que muitas vezes não se reconhecem, o encontro abre oficialmente a caminhada temática para o 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, que acontece em Goiânia dentro de cinco meses.

Os cumprimentos de acolhida foram dados pelo vice-diretor acadêmico da EAESP Tales Andreassi – Vice- Diretor acadêmico da EAESP. A seguir a palavra ficou com o presidente da Abrasco professor Luis Eugenio Souza que lembrou a primeira audiência que a Associação teve com o então novo ministro da Saúde Arthur Chioro ‘consciente das dificuldades, desafios e das infinitas possibilidades de articulação dos recursos da saúde, Chioro propôs este debate’. Segundo Eugenio, esta provocação permitiu que hoje um grupo de estudiosos se reunissem para debater a Gestão da Saúde. ‘A produção de conhecimento das pessoas que estão engajadas na Gestão é muito relevante para a produção de conhecimento e com isso, aprofundar o debate’. O presidente da Abrasco comentou ainda que a área da Gestão da Saúde é uma das mais complexas, e que por isso mesmo a discussão precisa se dar de forma tranquila, com estratégia comunicativa, e que as diferenças dos atores deste debate precisam ser tratadas de forma democrática. ‘É possível e necessário para a construção de uma sociedade democrática que o debate político se faça com a argumentação e consenso necessários para que nosso sistema de saúde avance’ afirmou Eugenio.

(Confira aqui mais imagens do Seminário A Gestão da Saúde no Brasil)

A Coordenadora do GVsaúde da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Ana Maria Malik provocou a plateia com uma pergunta – ‘quem de fato nestas duas áreas – Administração e Saúde Coletiva, nos enxerga como par?’ e continuou ‘algumas pessoas podem pensar que estes dois times não conseguem jogar bem com seus problemas de identidade, mas nós aqui achamos que isto não é verdade’. Malik seguiu explicando que muitos egressos da Administração fazem parte de um grupo que consegue fazer a ‘tradução simultânea do idioma da Gestão e do idioma da Saúde’ mas admitiu que esta não é uma tarefa fácil.

Ana Maria Malik comentou ainda que no tema gestão pública e gestão privada, ‘o senso comum dá muito trabalho’ pois em geral as pessoas confundem ideologia, desejos e valores com conhecimentos, técnicas e resultados. ‘Dados e fatos, por exemplo, acabam sendo confundidos com impressões. A gente não muda a realidade só com argumentos e desejos e isso também vale para o aprimoramento da Gestão, da política e do diálogo – e todos eles são imprescindíveis para o nosso maior objetivo que é oferecer Saúde cada vez mais adequada a todos os brasileiros’ arrematou Malik.

Antes da mesa de abertura ser concluída pelo Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde Jarbas Barbosa, Roberto Yukihiro Morimoto (Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo) agradeceu a oportunidade de participar do encontro, garantindo o retorno do debate para os gestores municipais e estaduais de São Paulo.

Representando o Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa salientou que o Seminário ‘A Gestão da Saúde no Brasil’ deverá sistematizar de maneira critica a experiência das várias visões no intermodelo do SUS, e que o debate poderá oferecer subsídios importantes para desdobramentos já no próximo congresso da Abrasco. Jarbas chamou a atenção para a questão do Financiamento da saúde no Brasil ‘não devemos tratar o problema do SUS como se fosse apenas de financiamento, acreditando que cada centavo colocado ali fosse utilizado da melhor maneira e produzindo os melhores resultados. Ainda temos um imenso desafio de qualificar no nosso país, a gestão municipal e a estadual. E como não queremos abrir mão da universalidade e da integralidade: admitimos que o financiamento que temos para a Saúde hoje é sim insuficiente. Mas nada impede o Ministério da saúde colocar mais recurso no setor do que aquele que está estabelecido como o mínimo obrigatório’ justificou Jarbas.

‘A maior conquista da democracia brasileira além da própria democracia é o SUS’

A manhã do primeiro dia do Seminário seguiu com a Conferência Magna ‘Democracia, Estado social e reforma gerencial: o Brasil está avançando?’ proferida por Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV – SP) e coordenada pelo abrasquiano Álvaro Escrivão Jr. do departamento de gestão pública da FGV-EAESP. A tese geral da apresentação de Bresser-Pereira passou pelo avanço brasileiro na área social e na área política com a consolidação da democracia ‘entretanto a economia brasileira parou. Está parada desde 1980. De 1950 a 1980 o país cresceu numa taxa média per capita de 4.1% uma taxa altíssima. Desde então cresce 0.9% ao ano’ afirmou Bresser.

Bresser avançou ainda nos impactos destes números na área social do país, e situou o Sistema Único de Saúde na democracia ‘A maior conquista da democracia brasileira além da própria democracia é o SUS. O fato do Brasil ter, num sistema universal de saúde, uma renda per capita de 12 mil dólares, é uma coisa completamente fora da linha. Não creio que exista qualquer outro país com números assim num sistema tão abrangente quanto o nosso’ concluiu Bresser.

‘Todos no mesmo saco’

Na opinião do conferencista, existe no atual governo uma visão muito espalhada daquela divisão entre os ricos e os pobres, ou a burguesia e os trabalhadores e que um partido de esquerda deve proteger o povo dos empresários. ‘Mas estamos todos no mesmo saco. Esse tipo de política podia fazer sentido quando havia no Brasil e no mundo uma perspectiva séria de que se poderia transformar o país num país socialista e só então desapareceriam os empresários. Como isso não existe e nem existe mais essa perspectiva, ou você acolhe o lucro dos empresários de uma maneira positiva ou você não vai conseguir nada neste país. O capitalismo é um sistema com muitas perversões com o poder de veto nas mãos destes empresários. E quando estes empresários não têm perspectiva de lucro nos investimentos no país, simplesmente não há investimento – é o que estamos vivendo por aqui, há algum tempo’ refletiu Bresser-Pereira.

 

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