Quais os desafios da Vigilância Sanitária na América Latina?


A Mesa Redonda “Desafios e Perspectivas para a Vigilância Sanitária na América do Sul” no VI Simbravisa, em Porto Alegre, apresentou José Temporão (diretor executivo do ISGS-RJ) e o ex-ministro da Saúde do Uruguai, Jorge Venegas, para compor o debate moderado por José Agenor Alvarez (ex-diretor da Anvisa). E as questões emergentes não poderiam ser diferentes senão “quais são os desafios da Vigilância Sanitária para a América Latina”, tendo em vista temas como o Aborto, Drogas, Violência e o Tabaco na roda da discussão.

 
Venegas apontou a situação mundial e sua repercussão na América Latina, especialmente no Uruguai, onde foi Ministro da Saúde. Os impactos na região, bem como as respostas sócio-políticas e econômicas, o neoliberalismo com uma matriz extrativista, o neo-desenvolvimento e o socialismo do século XXI, caraterizado por ele como um socialismo comunitário, foram amplamente apresentados. “Nossa região tem características bastante peculiares. É uma região heterogênea do ponto de vista demográfico, epistemológico e de desenvolvimento social”, ressaltou. O ex-ministro do Uruguai enfatizou o exemplo do SUS e sua diferença quando comparado a outros sistemas (ou quase-sistemas) de saúde em outros países latino-americanos. “A universalização das reformas de saúde na América Latina estão em curso, os desafios estão nos sistemas de gestão e de financiamento, entre outros”, disse Venegas. A questão da mobilidade territorial e geográfica também foi outro ponto exposto por ele na discussão. Falou das populações, dos insumos (alimentos, produtos agroindustriais, tecnologias e vias de comunicação (terrestre e hidrovias) e de temas específicos de fronteira (mobilidade populacional). “Os desafios são muitos, como doenças vetoriais (em exemplo a Dengue), doenças não transmissíveis, doenças emergentes (depressão, suicídios), gestão do risco de desastre, avaliação de tecnologia; incorporação, certificação e controle de qualidade dos dispositivos médicos. Todo esse enfoque exige políticas específicas e fortes”, pontuou.

 

O diretor executivo do ISAGS-RJ e também ex-ministro da Saúde, José Temporão não deixou de ressaltar o exemplo do Uruguai na resolução de questões controversas como o aborto e a legalização da maconha. Disse que a questão é mais complicada de se resolver no Brasil por uma série de impasses, principalmente políticos. “Vivemos numa sociedade violenta. É violenta, desigual, fracionada e desestruturada. Médicos não resolverão o problema da Saúde no Brasil e nem de outros dispositivos institucionais que não dispomos ainda, mas que a Europa já tem para combater essa desestruturação. A mudança no padrão de consumo de comida (pronta ou semi-pronta), publicidades ‘obscenas’ de alimentos e bebidas no âmbito de saúde pública alcançando jovens e crianças são os outros problemas de ordem político-econômica. Os pesticidas e conservantes também são questões delicadas e complexas”, resumiu Temporão.

 

José Temporão não economizou na identificação dos problemas brasileiros e seus desafios, salientando as doenças causadas pelas tecnologias médicas, sobre os novos “manuais” de diagnósticos que apontam para várias especialidades, “sintomas” que antes pareciam normais e que ganharam conotações de anormais. “A transição cultural é pouco discutida, compreendida e estudada. O que é ter uma boa saúde e o que fazer para ter uma boa saúde? Observando a medicalização, o capital não constrói apenas objetos para consumo, mas também sujeitos para o consumo. Precisamos ter uma visão crítica sobre a Riscofobia. Que processos são esses que estão voltados para a construção de novos consumidores?”, contestou.

 

Para Temporão, como na música de Caetano Veloso, “há alguma coisa fora da ordem”. “O álcool está por trás da maior parte da violência no Brasil, seja ela contra mulheres, jovens, idosos e crianças. As UPPs no Rio são outros exemplos de desordem: é substituir o poder do tráfico pelo poder da PM. É preciso pensar noutra forma. Queremos mesmo uma polícia unificada, humanizada e mais comunitária. Não queremos mais a Polícia Militar, queremos acabar com ela”, pontuou.

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