Posicionamento do INCA contra os agrotóxicos foi lançado no Rio


Em pleno século 21, não era para o Brasil ainda estar debatendo o uso de agrotóxicos. Isso é claro. Nem éramos para ser o principal país do ranking no uso do veneno no campo. Não éramos para ter tantos trabalhadores intoxicados por trabalharem com pesticidas ou mesmo por morarem em áreas agrícolas infestadas por eles. A listagem do que não deveríamos ter e fazer é interminável. Por isso, o Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, em comemoração ao Dia Mundial da Saúde, promoveu o Seminário “Agrotóxicos e Câncer: riscos, impactos e alternativas ao modelo agrícola dominante”, na manhã do dia 8 de abril, no Auditório Moacyr Santos Silva.

Milhares de histórias se cruzam diante do grave contexto brasileiro que envolve o uso de agrotóxicos. Marcia Sarpa, da Unidade Técnica de Exposição Ocupacional e Ambiental do INCA, explica que nesses milhares de casos, há outros milhares não notificados. Tamanha subnotificação dificulta a identificação precisa do número de casos de câncer provocados por agrotóxicos, por exemplo. “Por falta de profissionais de saúde preparados para essa finalidade, os casos, já em estágio agudo, são confundidos com outras enfermidades. A simples atividade de triagem, a partir da consulta da ocupação funcional do paciente, poderia ser significativa na tentativa de sinalizar uma relação entre os fatores”, explica.

Mas essa falta de clareza nessa relação entre agrotóxicos e novos casos de câncer não é a preocupação do INCA, como ressalta Fabio da Silva Gomes, da Unidade Técnica Alimentação, Nutrição e Câncer da entidade. “Já estão mais que comprovados que esses produtos são nocivos à saúde e ao ambiente”, afirma. A esse dado impreciso, somam-se os discursos inescrupulosos das empresas produtoras desses pesticidas, que promovem seus produtos como a “salvação da lavoura” para o mundo que sofre com a fome, com a pobreza e a miséria. “Diante desse cenário, o Instituto Nacional de Câncer não poderia ter outro posicionamento, o de alertar a população para os riscos – com base em alarmantes dados produzidos por várias entidades sérias que indicam os impactos ambientais da atividade da monocultura com seus alimentos transgênicos, que mais têm impulsionado a aprovação do uso indiscriminado de novas substâncias nocivas aos nossos recursos naturais e consequentemente à saúde da população. Mas também, o posicionamento de recomendar que é preciso fortalecer a demanda por alimentos orgânicos”, ressaltou Fabio. A soja é um dos grandes vilões dessa história.

Nívia Regina, representando a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, enfatizou as alternativas existentes para o modelo agrícola dominante e ressaltou a iniciativa do INCA. “Estou muito eufórica com o fato de termos o Instituto Nacional de Câncer envolvido na luta contra os agrotóxicos e pela vida. É uma iniciativa que só vem fortalecer a sociedade civil organizada”, disse Nívia, que também comemora os 4 anos de existência da Campanha Permanente. O movimento, divulgou mais uma mensagem destinada aos membros da Comissão Nacional Técnica de Biossegurança, desta vez, enfatizando a posição INCA. “Não são as camponesas, não são estudantes, nem sem terra, nem com terra. Quem fala agora a vocês é o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Aquele mesmo que devem procurar quando vocês ou algum familiar forem acometidos pelo câncer. Diz o INCA, com menos de um mês após vocês aprovarem o milho resistente ao 2,4-D, e um dia antes da aprovação do eucalipto transgênico: ‘É importante destacar que a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem o uso de grandes quantidades destes produtos'”, pontua.

O produtor de orgânicos, Alcimar Espírito Santos revelou um pouco mais a situação dos trabalhadores do campo, que não são informados sobre os riscos do uso do veneno e daqueles agricultores que não consomem o que plantam. “Tem veneno, dizem”, ressalta Alcimar. A cada pausa entre os blocos do debate, foram exibidos trechos do documentário O veneno está na mesa II, o que nos faz refletir que, se não agirmos o quanto antes, ele estará em toda a parte. Ao final do evento, Luiz Antonio Santini, diretor-geral do Inca, lançou o “Documento aberto posicionamento público do Inca a respeito do uso de agrotóxicos no Brasil”, que teve grande repercussão na imprensa, como no telejornal Bom dia Brasil, da TV Globo, na edição de quarta-feira (08/04).

Para fortalecer ainda mais esse movimento de ação contra os agrotóxicos, no próximo dia 28 de abril, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) lança o livro “Dossiê Abrasco: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”, uma publicação editada em conjunto pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, e pela editora Expressão Popular. A obra, de mais de 600 páginas, reunirá as três partes lançadas desde 2012 e o capítulo inédito “A crise do paradigma do agronegócio e as lutas pela agroecologia”, como explica o professor Fernando Carneiro, coordenador do GT Saúde e Ambiente da Associação e um dos responsáveis pelo livro.

Luis Eugenio de Souza, presidente da Abrasco, disse que a Associação apoia o posicionamento do INCA. “Todas as entidades envolvidas nesse movimento contra os agrotóxicos, incluindo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, estão preocupadas com o contexto das aprovações de novos transgênicos. O ‘Dossiê Abrasco”, que será lançado, trará o capítulo ‘A crise do paradigma do agronegócio e as lutas pela agroecologia’, o que sinaliza a emergência de coibir o ‘desenvolvimento às avessas'”, afirma. Luis Eugenio disse que esse capítulo converge com todos os posicionamentos das entidades envolvidas, inclusive do INCA. “É preciso parabenizar todos os profissionais do INCA envolvidos, que pontuaram os riscos dos agrotóxicos para a saúde do meio ambiente e da população e apontaram soluções sustentáveis contra a monocultura dos transgênicos que têm impulsionado a aprovação de novas substâncias venenosas”, concluiu.

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