Nosso Adeus a Philadelpho de Siqueira


A Saúde Coletiva perdeu na tarde de ontem, 15 de julho, mais um importante ator histórico. Faleceu Benedictus Philadelpho de Siqueira, segundo ex-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a frente da entidade pelo biênio de 1981 a 1983. O enterro foi realizado na tarde do dia 16. Ele deixa dois filhos, seis netos e seu nome inscrito na história da Saúde brasileira.

Em sua trajetória profissional, foram destacados os esforços de Philadelpho para o fortalecimento do ensino da medicina social e de uma visão mais ampla da Saúde Pública, fundamentando os passos para a constituição da Saúde Coletiva.

Natural da cidade de Divisa Nova, Minas Gerais, Philadelpho formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1963. Da formação, tomou gosto pelos estudos que relacionam medicina, nutrição e extratificação social, tendo feito uma especialização nesta área no Instituto de Nutricion de Centro-America Y Panama (INCAP), na Guatemala, em 1966 e, logo após, especialização em Saúde Pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A partir de 1967 iniciou-se na aventura do ensino da Medicina, primeiramente na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Depois passou pela Universidade Vale do Rio Doce (Univale) até ser aprovado como professor auxiliar do departamento de Medicina Preventiva na sua escola de formação, a Faculdade de Medicina da UFMG, em 1972, Lá ele trabalhou por 49 anos, ocupando os cargos de diretor e de coordenador do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon), o qual ajudou a fundar. O reconhecimento de uma vida foi recebido com festa pela comunidade acadêmica da Medicina na cerimônia de Emerência na mesma Faculdade, em 1993.

Philadelpho participou de vários comitês de assessoramento dos Ministérios da Educação e da Saúde, tendo atuado nos cursos de Medicina da USP, UFGRS, Unifenas e UEPE como assessor, professor e avaliador em diversos momentos, além de passagens pela Finep e CNPq. Nos últimos anos, participava das discussões da comissão do programa de incentivo às mudanças curriculares no ensino médico (Promed MEC/MS).

Além do trabalho acadêmico, Philadelpho esteve também envolvido com a gestão em saúde em diversos períodos da vida profissional. Foi parte da equipe que elaborou o primeiro Programa Nacional de Alimentação e Nutrição (PRONAM), organizado pela extinta Comissão Nacional de Alimentação, e do corpo técnico da Secretária Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES/MG), na qual por um período foi secretário. Trabalhou também como consultor da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) na questão do ensino da Medicina. Por seu trabalho e afetuosidade, foi agraciado com diversas homenagens e prêmios, dentre eles, a Medalha Oswaldo Cruz, concedida pelo Ministério da Saúde, em 2009.

Liderança na Saúde: A profunda ligação de Philadelpho com o ensino da Medicina e da Saúde pode ser comprovada também na sua vida associativa. Além de ter sido presidente da Abrasco, foi presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), da Federação Pan-americana de Escolas Médicas e participou das diretorias da Associação Médica Brasileira, da Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), além de ter sido membro da Academia Médica Mineira.

Para Luiz Augusto Facchini, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e também ex-presidente da Abrasco, “a tristeza com o falecimento de Phila, como era por nós carinhosamente chamado, só não é maior que nosso orgulho por sua dedicação em favor da saúde dos brasileiros. Sua luta continuará nos servindo de exemplo e inspiração”. Confira abaixo a nota de pesar da Associação redigida por Facchini.

Paulo Buss, hoje diretor do Centro de Relações Internacionais da Fiocruz, iniciou sua história institucional na Abrasco como Secretário-Executivo da gestão de Philadelpho e relembra também o importante papel do companheiro. “O Philadelpho foi, de fato, o nosso primeiro presidente. Ele sempre teve uma destacada atuação na medicina brasileira, com atuação anterior na direção da Faculdade de Medicina da UFMG. Quando ele assumiu a Abrasco, trouxe consigo essa experiência, com uma sólida visão da Medicina Preventiva, o que deu muita qualidade ao processo de implantação da nossa Associação. Ele realizou o compromisso de implantar uma associação nova, um compromisso que sempre teve com a Saúde Pública. O simples fato de ter sido o primeiro presidente a implantar um projeto permite que os sanitaristas brasileiros visualizem a importância dele para o nosso campo. Sou extremamente grato por ter trabalhado com ele”.

Outro companheiro de trajetória de Philadelpho, Francisco Eduardo Campos, lembra do convívio iniciado em 1972 e destaca a diversidade de seus interesses e práticas como elemento fundamental na construção do campo da Saúde Coletiva. “Certamente muitos se referirão ao Philadelpho como tríplice coroado ex-presidente da Abrasco, ABEM e FEPAFEM, como diretor da FMUFMG, como acadêmico da Academia Médica Mineira ou em muitos outros cargos e honrarias que recebeu ao longo de sua distinta carreira . Ou a sua militância libertária desde que presidiu o Diretório Acadêmico Alfredo Balena. No entanto, uma característica que, a meu ver, se destaca e que possibilitou a construção do SUS no Brasil foi sua mestiçagem entre a gestão e a academia. Não foi um técnico da SES/MG que só fizesse gestão, nem só um professor desconectado dos serviços. Ter uma preocupação acadêmica sem tirar o pé dos serviços é o que, de alguma forma, diferencia o processo da Reforma Sanitária brasileira do que ocorreu em outros países, até mesmo da América Latina”.

 

PESAR COM A MORTE DE BENEDICTUS PHILADELPHO DE SIQUEIRA

É com grande pesar que comunicamos o falecimento do professor Benedictus Philadelpho de Siqueira, ex-presidente da ABRASCO, ocorrido no dia 15 de julho de 2014. Manifestamos o luto da ABRASCO pela perda irreparável e transmitimos nossas condolências e solidariedade aos amigos e familiares.

Em 1981, Philadelpho, ou simplesmente Phila, como era carinhosamente chamado por amigos e colegas, foi eleito presidente da segunda diretoria da Abrasco, havendo também presidido a ABEM (Associação Brasileira de Educação Médica) no biênio 1990-1992.

Em sua trajetória profissional, Phila foi uma liderança destacada da Saúde Coletiva brasileira. Ao longo de 49 anos de trabalho dedicados à UFMG, foi fundador do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva (Nescon), diretor da Faculdade de Medicina, sendo agraciado com o título de professor Emérito da instituição. Foi ainda Secretário Estadual de Saúde de Minas Gerais. Assessor da Organização Panamericana da Saúde, colaborou para a transformação do ensino médico no Brasil e em vários países latino-americanos.

Os serviços prestados à UFMG e à saúde coletiva foram reconhecidos ao receber a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, concedida pelo Governo Federal a pessoas que contribuem de maneira notável para o bem-estar físico e mental da população brasileira.

A tristeza com o falecimento de Phila só não é maior que nosso orgulho por sua dedicação em favor da saúde dos brasileiros. Sua luta continuará nos servindo de exemplo e inspiração.

Luiz Augusto Facchini

Presidente da Abrasco de 2009 a 2012 e membro do Conselho de Direção da atual gestão

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6 comentários sobre “Nosso Adeus a Philadelpho de Siqueira

  1. O Phila não foi só um professor e meu diretor durante os anos de graduação no curso de medicina da UFMG, foi um grande amigo. Com ele aprendi tudo o que posso dizer que sei sobre educação médica e boa parte do que também penso saber sobre saúde coletiva.
    Sempre que nos encontrávamos, se eu lhe dissesse estar com saudade, ele me respondia com os versos de Pinto do Monteiro:
    “Essa palavra saudade
    Conheço desde criança
    Saudade de amor ausente
    Não é saudade, é lembrança.
    Saudade só é saudade
    Quando morre a esperança.”
    Então… como você queria Phila, que não fique a saudade, mas a lembrança do mestre-amigo, fervoroso militante da saúde pública brasileira e árduo defensor de uma educação médica de qualidade. Pois, cabe a nós que aqui ficamos não deixarmos morrer a esperança, tomando para nós o seu legado de uma incansável luta pela equidade, repensando a arte de ensinar a ciência da vida, centrados na condição humana.

  2. Tive o privilégio de contar com a amizade de Phila por mais de três décadas, desde que participamos, sob a sua sábia liderança, da primeira diretoria eleita da Abrasco.
    Foi um verdadeiro professor na arte da delicadeza, no respeito ao oponente e na habilidade, competência e tolerância na prática política, porém sempre dignamente intransigente com os princípios éticos, em defesa da democracia e dos direitos do povo brasileiro. Seu legado certamente é um orgulho para Moema, sua esposa, João e Ângela, seus filhos, e queridos netos. E, também, para todos nós!

  3. Fui com muita tristeza que soube da morte do Phila. Tive o prazer de trabalhar com ele, como membro do Conselho Fiscal na fase de implementação da ABRASCO. Nossa tarefa como conselheiros era avaliar as solicitações de filiação institucional à ABRASCO. Como nosso regimento confere enorme peso aos sócios institucionais, esse passo era importante para não corrermos o risco de descaracterização da nossa nascente sociedade.
    Mas, nossa primeira “briga”importante foi travada no âmbito da regulamentação dos programas de Residência Médica em Medicina Preventiva e Social. Houve a tentativa por parte da CNRM de excluir a área da Saúde Coletiva e acreditar exclusivamente programas de Medicina Geral e Comunitária (qualquer semelhança com as diretrizes curriculares recém aprovadas para os cursos médicos não é mera coincidência)
    Felizmente conseguimos reverter o jogo e elaborar uma resolução própria para a nossa área.
    Nessa tarefa estive muito próxima ao Philadelpho podendo aprender com ele, muito sobre formação em saúde. A partir daí sempre mantivemos uma relação de mútuo respeito mesmo quando discordávamos sobre modelos e estratégias em Saúde Coletiva.
    Phila nosso campo de atuação fica mais pobre sem você.

  4. O Professor Philadelfo escreveu um grande capítulo na história da educação medica brasileira. Tive através da CINAEM e na militância do mov estudantil de medicina oportunidade de conhecê-lo e admirá-lo, pela capacidade de diálogo , respeito aos mais jovens e democratização das suas ações nos vários órgãos que presidiu e especialmente na ABEM, onde convivi de perto nos anos de 1991/92/93, com decisões históricas que contaram com sua defesa como a da participação estudantil no COBEM de Londrina em 1992.
    O seu vasto conhecimento da educação medica não o tornava refém de velhas idéias e nem refratário as mudanças.
    Eu e o hoje Deputado Rogerio Carvalho sempre tivemos um grande respeito pelo Prof Philadelfo desde o MEM, o qual aumentou ainda mais no ano de 2013 , quando na condição de Secretário da Segetes/MS e o Deputado Rogerio relator da MP do programa Mais Médicos em discussão no MEC com a comissão de Especialistas da qual fazia parte o Prof. Philadelfo, durante o debate sobre as mudanças previstas para a educação medica e a formação profissional , o Prof Philadelfo teve uma colocação ponderada, criteriosa ,emitindo um posicionamento construtivo ressaltando as necessidades de avanço e se dirigindo ao relator para que acatasse algumas idéias ali colocadas. E que modificariam o texto original,
    Mas sem ter um posicionamento raivoso e obtuso , que em determinados momentos impediu o bom debate naquele período entre nós e várias outras pessoas sobre as medidas a serem adotadas.,
    as quais aqueles se negavam até a conversar.
    É uma grande perda para todos nós , mas guardo a imagem de um grande professor , capacitado , conhecedor profundo do tema, mas respeitoso e democrático mesmo na Divergência
    Sentiremos sua ausência, mas temos o seu legado para seguirmos na Educação Médica e na Saúde pública brasileira!

  5. Saudoso Dr Phila, vc será eternamente lembrado.Pessoa maravilhosa ,de sabedoria inigualável .Estou sentindo muito a sua perda !!!Nao tenho palavras para expressar meu sentimento …estou chorando por fora e por dentro!!!

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