“Negra, lésbica, favelada? Nem sabe falar direito, vai roubar”

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Há exatos seis meses, em 14 de março, Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes foram assassinados no Rio de Janeiro: já são 180 dias de uma investigação sem respostas. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann declarou que a solução para o crime viria no mesmo tempo que o dos casos Patrícia Acioli e Amarildo – mas a promessa não foi cumprida. A Polícia solucionou o caso da morte do pedreiro em cerca de 90 dias, e pediu a prisão de suspeitos pela morte da juíza 30 dias após a execução da magistrada.

Em julho, gritos de “Marielle, presente!” saudaram Anielle Silva, irmã de Marielle, na cerimônia de abertura do 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva da Abrasco. Anielle falou em “luta por justiça até o final”. O auditório principal levou seu nome. Sobre a luta, os direitos humanos, o vazio, a família e a esperança: a Abrasco ouviu Anielle em entrevista especial, feita na sede da Associação. Confira:

“Negra, favelada? Vai roubar. Bissexual, lésbica? Deve nem saber falar direito, veio da Maré – A gente escutou muita coisa ruim em 2016, durante a campanha. Mas a Mari chegou à Câmara como a quinta mais votada, com 37 anos e 46 mil votos” lembrou Anielle.

O Papo Franco

“Em 2016 eu e Cristiane, amiga de infância da Mari, começamos a fazer algumas palestras nas escolas e em ONGs, junto com a Marielle. A gente falava do protagonismo feminino, das mulheres negras, dos nossos problemas na Maré e aí começou a campanha eleitoral e juntamos as duas coisas. Mas não tinha nome nem nada. Quando entrou 2017, a Mari ficou muito ocupada, mas eu e Cristiane seguimos. Além da Maré fomos na Baixada Fluminense, Alemão, um bando de lugar – falando de tudo que os jovens pediam, até de Doenças Sexualmente Transmissíveis. Quando entra 2018, ela diz ‘A gente tem que focar nas mulheres negras, fazer alguma coisa, achar um nome para gente, fazer um evento’. Seria lançado em julho que é o mês da mulher negra. Mas deu uma acalmada naquilo, janeiro começo de ano, fevereiro carnaval… quando chegou a primeira semana de março, combinamos: em maio a gente começa. Mas aí mataram a Mari e eu parei com tudo – não toquei em mais nada. Em maio eu sonhei com a minha irmã pela primeira vez e ela falava ‘Anielle, e o Papo Franco? Meu aniversário tá chegando, agita isso’. A Mari já tinha pensado em tudo, até no nome: Papo Franco, vídeos dela para as redes sociais. O primeiro ela deixou gravado, tratava da maioridade penal. O projeto conta com a promoção de debates entre moradores de comunidades carentes e o lançamento do Papo Franco foi dia 27 de julho, no aniversário dela. O que quero do Papo Franco? Inspirar outras Marielles – mil, milhões – mas que nenhuma delas morra como a minha irmã e fique do jeito que tá”.

ONG Marielle Franco

“Sou professora de inglês, tenho 33 anos, moro com meus pais Antonio e Marinete, minha filha Mariah, de dois anos, e, agora, minha sobrinha Luyara, de 19. Era cinco anos mais nova que a Marielle e agora luto por justiça e desminto as calúnias sobre minha irmã. Tem coisa que tem que ser legitimada pela família, então tive que diminuir minha carga horária, das 4 escolas que dava aula fiquei só com duas. Já estamos com toda a documentação para criar em breve uma Organização Não Governamental para a Marielle e muitos projetos dela nós vamos continuar, não dá para deixar solto. Preciso dar seguimento pelo menos a uma parte da luta da Mari, não tenho pretensões políticas – recebo muitas mensagens pedindo apoio para campanhas de outros candidatos, mas eu não consigo, eu tenho medo de tudo que a política traz. Ela dizia que eu não conseguia fazer cara de paisagem. Eu sou da educação, gosto de palestra, de escrever, de pesquisar, o Papo Franco me realiza”.

Abraços consternados

“Eu e minha família ficamos muito surpresos: sabíamos da força da Mari mas em nenhum momento imaginamos que o crime teria a repercussão que teve. Para a minha mãe o abraço mais comovente veio do Papa Francisco… Momentos antes da missa de sétimo dia ele ligou para minha mãe e disse estar rezando por todos. Em agosto ela foi lá, Francisco disse que tem acompanhado a situação e que se preocupa com o assassinato de lideranças defensoras dos direitos humanos. Por outro lado nunca imaginei que o ser humano pudesse ser tão cruel a ponto de usar o nome dela em vão, em falsas notícias, jogando a história da Marielle na lama. Fiquei com muita raiva mas fui me acalmando e saindo de cena. Hoje nos revezamos para dar conta de tudo, para que nenhuma homenagem fique sem o nosso obrigada. A Marielle já era ‘vereadora’ desde quando tínhamos 9, 10 anos, quando tinha tiroteio perto de casa ela me abraçava em posição tipo escudo e me protegia. Por tudo isso, por ser minha única irmã, por ser a mãe da Luyara, nos dividimos para receber os abraços consternados: todos são importantes”

Investigação e perseguição

“Tudo o que nós sabíamos era o que saía nos jornais e passávamos os dias inteiros em busca de respostas. Anteontem, 20 de agosto, fomos chamados pelo secretário de Segurança Pública do Rio, general Richard Nunes, pela primeira vez. Reivindicamos a atuação de um mecanismo independente de acompanhamento das investigações, ele permitiu. Falamos sobre a linha de investigação que aponta para o miliciano Orlando de Curicica, um ex-policial militar e também sobre a linha que aponta para os deputados Jorge Picciani, Edson Albertassi e Paulo Melo – parlamentares do MDB que foram presos na Operação Cadeia Velha em novembro do ano passado. Mas eu saí de lá do mesmo jeito que entrei: sem novidade nenhuma. Eu e Jurema Werneck fomos as mais incisivas, fui até grosseira: – ‘O senhor nos faz vir aqui e não nos dá nenhuma resposta? O que o senhor tem para dizer ao meu pai e minha mãe que estão aqui na sua frente, chorando?’ E ele só respondeu ‘Tá caminhando’. Meu pai vive se perguntando por que a Marielle, por que ela… nós não entendemos por que ela se tornou um alvo. Já fecharam o carro do meu pai, ele ficou muito nervoso pois o carro era um Cobalt Cinza, todo peliculado, igual ao do assassinato. Num outro momento dois homens me pararam e falaram ‘Você é irmã da Marielle? Tá falando demais, tem que ter cuidado com o que você fala”’.

Filha do mundo

“Ela morreu porque era vereadora e hoje lembro com clareza como se deu todo o processo da candidatura em 2016, nem ela estava segura. No dia da eleição estávamos na casa da minha mãe, ela chegou exausta, disse que ia dormir e que se entrasse seria como suplente. Então telefone começou a tocar, era o [Marcelo] Freixo: – ‘Marielle já está com 13 mil votos, acorda ela!’ Aí ligou de novo ‘Anielle, já são 15 mil, acorda sua irmã’. Fui no cantinho do ouvido dela, e ela sentou, minha mãe disse ‘Ai meu Deus’ e ela não conseguiu mais dormir. Outra ligação ‘Marielle já tem 25 mil votos’. Foi quando ela trocou de roupa e mais uma ligação ’40 mil, vem pra Lapa agora’. Quando a gente chegou na Lapa uma senhora vendedora ambulante a segurou pelo braço e disse que era muito bom ela ser uma vereadora agora: – ‘Fale por mim’ pediu.

Minha mãe não queria a candidatura, coração de mãe… O Marcelo Freixo foi pedir autorização lá em casa e ele disse que cuidaria dela. Foi por isso que no dia do velório minha mãe agarrou ele pelo colarinho, arrastou ele até o caixão e gritou: – ‘Você falou que ia cuidar da minha filha, porque não cuidou, por que ela não tinha carro blindado? Por que não tinha segurança? Por que Marcelo?’. Mas era aquilo que a Mari queria, ela era filha do mundo e estava muito feliz. A gente a perdeu, Marielle não volta mais, mas estamos nos acalentando, com foco na criação da ONG, agora é seguir com sabedoria e calma, mas é tudo muito pesado”

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