Não se trata de ser contra a saúde e a prevenção, mas a ideia compulsória (e compulsiva) de que toda redução de risco é saudável


Luis Castiel abordou o tema “Riscofobia” com muito bom humor, diante de um tema complexo que exigiu um panorama do pensamento científico sobre o assunto e uma crítica sadia à atuação dos mecanismos de controle do Estado e ainda da mídia. “Não se trata de ser contra à saúde e à prevenção, mas à ideia compulsória (e compulsiva) na qual a imposição que a Saúde Pública atual reivindica que todas as reduções do risco são saudáveis e, portanto, devem ser racionalmente obedecidas”, esclareceu.

 
Castiel apresentou alguns autores como a australiana Doroty Broom (A prevenção pode ser de várias maneiras (positivas, necessárias). A prevenção e seu foco no indivíduo é uma delas, ressaltando os fatores comportamentais de risco, mesmo quando gera efeitos positivos, entre eles a intensificação compulsiva da vigilância (o que se come e o que se bebe); Joseph Dumit (Há a questão da promoção/prevenção de saúde de se fazer balanços de benefícios coletivos contra os riscos dos indivíduos. Quais são as justificativas para se intervir coletivamente para proteger pessoas que não estão igualmente sob risco (e podem não querer ser protegidas?); Robert Crawford (A busca de melhoria da saúde está entre as principais práticas simbólicas da modernidade); e Anna Kirkland (Parece que as pesquisas em saúde estão sempre a serviço da “melhor saúde”).

 

Para o palestrante, partimos da perspectiva conservadora no campo da prevenção em saúde, na qual as autoridades morais recomendavam a importância fundamental da autodisciplina. Em que o moralismo e a sobrevivência surgeiram conjuntamente com esta autodisciplina: disciplina para cumprir preceitos morais e para a busca do autointeresse; “correr atrás do sonho” para chegar a ser autossuficiente; e para isso, importa ser bom, ser disciplinado. Depois, entre as décadas de 1980 e 1990, com a contra-revolução, há o produto da moralidade tradicional e do neo-moralismo da correção. “O capitalismo contemporâneo é um modelo paradoxal que prolifera regulações normativas duais e ambíguas. Há duas delas diretamente ligadas ao indivíduo que se complementam. É uma trama paradoxal porque o capitalismo produz essas normas e ao mesmo tempo as debilitam”, explicou.

 

Castiel afirma que a ideia de ansiedade está intimamente ligada à possibilidade de risco e que é impossível evitar estar sujeito a todos os riscos existentes. “A partir das novas pesquisas, principalmente das áreas de biomédica e epidemiologia, percebemos que nossas vidas estão cada vez mais com novos elementos de insegurança. Várias áreas pensam o risco de uma forma mensurável e normatizadas. O mundo é estranho e às vezes aquilo que parece desajuste não é um desajuste, são efeitos paradoxos”, ressaltou. Quanto mais “sob risco”, acrescenta o palestrante, “mais ansiosos ficamos. A incerteza e a insegurança estão presentes em nosso dia a dia. É preciso articular as conexões entre discussões culturais da modernidade e os sentimentos de mal-estar que se manifestam na nossa experiência. Há a busca da redução dos riscos no interior da ‘hiperprevenção’ e o resultado é a reunião de atividades que se preocupam excessivamente com a busca de segurança/saúde e com o consumo de práticas, produtos e serviços que a garantam”, pontuou.


De acordo com Lucchese, que debateu o Grande Encontro, “ainda não foi construída na Vigilância Sanitária, a questão da Riscofobia no dia a dia de suas práticas. Há muitos significados e usos frequentes pela mídia travestidas de várias nomenclaturas. É risco, é ameaça? Vamos discutir. Principalmente porque a Lei 8080, de 1990, legitima o objetivo da Vigilância Sanitária em eliminar e diminuir riscos à saúde”, enfatizou.

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