Mudanças no mapa da Saúde – artigo de Ligia Bahia


A professora Ligia Bahia, conselheira da Abrasco, escreveu artigo, no jornal O Globo, sobre a declaração feita pela Organização Mundial da Saúde, no dia 20 de outubro, de que a Nigéria estaria livre do ebola, 42 dias após o país não registrar nenhum novo caso da doença. Confira o texto na íntegra:

 

A promulgação da contenção do ebola na Nigéria, em 20 de outubro de 2014, se tornará um novo marco para a saúde pública mundial. Havia um imenso temor sobre os possíveis efeitos devastadores da chegada do vírus no país mais populoso do continente africano. O caso confirmado na cidade de Lagos, com 21 milhões de habitantes, quase tantos como a soma das populações de Guiné, Libéria e Serra Leoa, muitos dos quais vivendo em favelas e se deslocando constantemente, poderia desencadear uma epidemia urbana de proporções apocalípticas.

Estar livre da transmissão do ebola significa que cadeias de transmissão foram interrompidas, ou seja, a inexistência de novos casos, inclusive de pessoas aparentemente sadias, mas portadoras do vírus em estágio de incubação. Ou ainda que o intervalo de tempo entre o último contato infeccioso com um caso confirmado indica que os controles da doença foram efetivos.

Uma reviravolta inesperada para quem via na África apenas homogeneidade, miséria e abandono. Controlar uma epidemia com uma taxa de letalidade que pode chegar a 90% exige exatidão no plano e execução do rastreamento de contatos, especialmente em metrópoles de países que não contam com estruturas extensas e sofisticadas de assistência à saúde. Os detalhes do sucesso são exemplares para todos os países preocupados com a perspectiva de o ebola atravessar suas fronteiras. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), os fatores críticos para a vitória sobre a propagação da doença foram a liderança do presidente e do ministro de Saúde da Nigéria, a rápida e generosa alocação de recursos financeiros e a experiência anterior do país em relação ao controle da pólio e do vírus da Guiné.

As estratégias usadas na Nigéria, como a intensa comunicação para deter o pânico e livre circulação de viajantes, inclusive dos países epicentros da epidemia, servem de lição para o mundo. A criação de um centro de emergência, a existência de um laboratório de virologia de primeira linha vinculado ao hospital universitário de Lagos e a mídia social envolvendo profissionais de saúde e lideranças tradicionais permitiram traçar em tempo recorde a origem e circulação do vírus e implementar procedimentos rigorosos para a triagem, prestação de cuidados e tratamento de pacientes. A atuação coordenada dos especialistas de saúde pública nigerianos, da OMS, do Centro de Controle de Doenças (CDC), e grupos como Médicos Sem Fronteiras permitiu que o governo e funcionários de agências internacionais desenvolvessem ações conjuntas.

Especialistas em estudos internacionais consideram que a Nigéria acertou mais do que os EUA, onde houve demora de mais de dez dias para identificar um paciente e circulam propostas de proibição de entrada de estrangeiros, baseadas no puro preconceito, bem como informações imprecisas baseadas no hiperdimensionamento de um número ínfimo de casos. A inversão da rota Norte-Sul constitui um feito notável porque evidencia que a conjugação de capacidades locais e internacionais com solidariedade é mais efetiva do que o isolamento e a discriminação. Ficou demonstrado que a Nigéria tem expertise para resolver seus problemas de saúde e que o fechamento do acesso de viajantes de economias já prejudicadas com o impacto do ebola não é necessário.

Dias antes do anúncio do fim do surto de Ebola, o cônsul americano na Nigéria declarou que a última frase que qualquer pessoa gostaria de ouvir conteria duas palavras: Lagos e ebola. A saúde pública contribuiu mais uma vez para desenhar um mapa mais realista, no qual as potencialidades dos países situados abaixo da linha do Equador não desapareçam em função das comparações de riquezas medidas apenas em termos de dinheiro, bens luxuosos e máquinas. A competência no controle da doença, conferiu respeitabilidade à Nigéria e a seus especialistas, e questionou opiniões e sentimentos arraigados a respeito da inferioridade dos povos africanos.

A alteração das escalas gerais da cartografia global da saúde, ao revelar o contraste entre a adequada reação nigeriana e a situação de outros países afetados, trouxe ao debate as falhas nas respostas da OMS. A demora para admitir a gravidade do surto de ebola prejudicou a intensificação de esforços para financiamento, recursos humanos e organização de infraestrutura assistencial. Por outro lado, as criticas à atuação da OMS sinalizam a extrema importância de fortalecer instâncias de coordenação global diante de ameaças que não serão debeladas sem conhecimento e intervenções articuladas.

O Brasil também tem histórias para contar, a mais recente é a dos anos 1990, quando se optou por rejeitar as concepções fundamentalistas que associavam o HIV-Aids a uma peste gay. A estigmatização e as tentativas de eliminar ou manter apartados indivíduos ou grupos, aos quais se atribuía o status de ameaça biológica, teriam conduzido o país para uma situação de descontrole da epidemia. Os contextos nacionais e as características dos problemas de saúde são distintos. A tentativa de contenção geográfica ou social das doenças não só é inviável como cobra pesados ônus à dignidade de todos. Desfechos bem-sucedidos na saúde pública têm como traço comum o enfrentamento de preconceitos, xenofobias e racismos.

 

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