Lançamento do GT LGBTI+ debate disputas e silenciamentos sobre o queer

Este slideshow necessita de JavaScript.

Conhecimento científico, vivência e militância que criam novos e próprios espaços e estratégias para novas potências. Nessa perspectiva, docentes, pesquisadores e estudantes reuniram-se no Auditório Nylceo Marques de Castro, na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), para a atividade de lançamento da Grupo Temático Saúde da população LBGTI+ da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – GT LGBTI+/Abrasco em conjunto com o grupo Quereres – Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Direitos Humanos e Saúde e a Revista Interface.

A atividade foi realizada em 25 de junho e teve na mesa de abertura a participação de Denise Coviello, vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da instituição (PPGSC/EPM/Unifesp); Marcos Signorelli, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do GT; Richard Miskolci, docente da Unifesp e coordenador do Quereres; e Magnus Régios, pró-reitor adjunto da Unifesp e coordenador do Núcleo TransUnifesp.

Na sequência, Signorelli e Daniel Canavese apresentaram o processo de discussão e formalização do GT dentro da Abrasco. Do trabalho pioneiro acerca do tratamento e quebra de patente dos medicamentos para HIV/Aids, passando pelas normativas para o processo Transexualizador, editado como portaria em 2008, e pela política nacional da saúde LGBT, de 2011, o setor saúde promoveu uma longa caminhada na perspectiva da ampliação do direito à saúde dos segmentos populacionais minoritários.

“No entanto, a saúde dos gays não se resume apenas às questões relativas ao HIV/Aids, assim como a saúde das pessoas trans não se limita às questões de hormonioterapia ou à cirurgia de redesignação sexual.  Saúde é mais do isso. Há outras questões também não contempladas nas atuais políticas, como a saúde das mulheres lésbicas, como aspectos da saúde sexual e reprodutiva e de prevenção a ISTs dentro desse grupo. Além disso, há todo o debate da LGBTfobia e do alto índice de suicídio entre homossexuais, que se dão não pelas condições particulares nem pelos afetos, mas sim pelo estresse minoritário e por todo o tipo de violência a que são sucessivamente submetidos, que começa muitas vezes em casa, na família, na escola, no trabalho, e que também se reproduz nos serviços de saúde” destacou Signorelli.

A ascensão de um governo de forte inspiração conservadora também é outro elemento apontado pelo abrasquiano como necessário para a organização do GT, citando a extinção da Secretaria de Educação continuada, alfabetização, diversidade e inclusão – SECAD/MEC, que trabalhava com formação de professores para as questões de gênero até ser encerrada nos primeiros meses do ano. “A área da saúde precisa chamar esse tipo de questão para si, pois temos um certo acúmulo e trajetória de dados epidemiológicos, de pesquisas e de congressos, o que torna crucial que a Abrasco esteja encampando esse debate da população LGBTI+ e que não está sendo privilegiado nas demais áreas” frisou Signorelli.

Já Daniel Canavese ressaltou a importância tanto do GT como de seus participantes terem um olhar e uma atuação interseccional. “Somos um dos grupos mais jovens na Associação e precisamos estar em diálogo com outros grupos, em especial com os GT Racismo e Saúde e o GT Gênero e Saúde para que possamos atuar junto e dentro da Abrasco” abordou o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A atividade transcorreu com a mesa “Educação e saúde em disputa”, na qual Richard Miskolci, Pedro Paulo Gomes Pereira, também professor da Unifesp e integrante do GT e que lançou recentemente a obra Queer in the tropics – Gender and Sexuality in the Global South, e Maria Amélia Veras, professora e pesquisadora da Faculdade da Santa Casa SP e integrante da Comissão de Epidemiologia da Abrasco, buscaram sintetizar o debate travado a partir do artigo “Educação e Saúde em disputa: movimentos anti-igualitários e políticas públicas” publicado no volume 23 da Revista Interface.

“Eu e Richard propusemos no texto-base que, no Brasil da última década, os direitos sexuais e reprodutivos tornaram-se um dos principais eixos de disputa de políticas públicas educacionais e de saúde, e que propostas de inclusão de uma perspectiva igualitária sobre homens e mulheres e abordagens antidiscriminatórias no ensino fundamental e médio passaram a ser combatidas como “ideologia de gênero”, enquanto o ensino superior passou a ser atacado, entre outras razões, pela adoção de ações afirmativas” disse Pedro Paulo.

Por fim, Maria Amélia Veras comentou o debate, sinalizando sua importância na conjuntura atual. “Os autores atualizam, e propõe uma leitura ampliando a reflexão sobre o que nasce sob o que se chamou ideologia de gênero, mostrando como esta teria saído do limite estrito de uma moral religiosa, para responder a interesses econômicos que visam solapar especificamente a saúde pública e gratuita e a educação pública, especialmente a universitária” destacou a abrasquiana, que saudou também a iniciativa do novo GT da Abrasco. “Muito bacana ver a iniciativa dos colegas em criar um GT sobre Saúde da População LGBTI+. Creio que há já um conjunto de pesquisadores e questões bem particulares que justificam as especificidades do grupo”.

A terceira e última mesa – Experiências em pesquisas e intervenção – jogou luz sobre alguns estudos, como dados sobre a formação médica que apontam uma estatística de 70% dos estudantes de medicina apresentam preconceito contra pessoas LGBT e as normativas morais que norteiam o atendimento dos profissionais da Atenção Primária à Saúde em Florianópolis (SC), apresentados por Ariadne Ribeiro, pesquisadora do Ambulatório TransUnifesp; Rodrigo Moretti, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e também do GT; e  Maurício Polidoro, professor do  Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS).

“Apontei algumas necessidades de pesquisas que articulem intervenções pra mudar o quadro, que sensibilizem e capacitem os profissionais para o atendimento das singularidades, condições e riscos específicos à saúde das pessoas LGBTI+ por seguimento, ressaltando o silêncio da área da Saúde Coletiva sobre a temática, haja vista a quantidade de estudos sobre saúde LGBTI, por exemplo, na Antropologia e na Psicologia Social, sobremaneira maiores do que na Saúde Coletiva” explicou Moretti.

 

Comments

comments

Deixe uma resposta