Grandes Debates VI CBCSHS entrevista Madel Luz


Formada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado em Sociologia pela Université Catholique de Louvain  e doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Madel Luz é um dos grandes nomes no debate sobre a produção científica em Saúde Coletiva e Epistemologia da ciência. Atualmente é professora titular aposentada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da UFRJ, mas prossegue colaborando com essas instituições e também com programas de pós-graduação da UFF e da UFRGS.

Abrasco: Como a senhora entende o debate do produtivismo dentro da atividade científica, acadêmica e universitária?

Madel Therezinha Luz: Desde o início da minha vivência dedicada ao conhecimento em 35 anos de trabalho, me preocupei com esta questão. Vivemos um ambiente acadêmico e universitário notoriamente produtivista e competitivo. Logo, é vital pensar em como criar espaços para a troca de saberes e conhecimentos num processo que envolva pesquisadores titulares e professores e também pesquisadores em iniciação e alunos. Que tipo de orientações tomar, recusar e o que visar entre o que se ensina e se pesquisa. Esta é uma preocupação legítima, tendo em vista o quão comum estão em nosso meio formas hostis à produção interior e íntegra dos acadêmicos. Cabe então a reflexão e a busca por um modelo diferente, respeitoso e solidário em relação ao outro, aos pares e, se possível, construtivo, auxiliando as pessoas a fazerem seus próprios caminhos neste mundo sem abafar o desenvolvimento profissional alheio.

Abrasco: Como enfrentar esta questão no dia a dia das universidades e centros de pesquisa?

Madel Therezinha Luz: A primeira coisa é exercitar uma diminuição do ego, uma natureza que logo aparece no contato com os intelectuais. Tentar diminuir isso ao mínimo para permitir o desenvolvimento do outro, seja um colega, um orientando, um aluno. Sair do individualismo e pensar com os outros, para assim criar um pensamento coletivo que não quer agarrar nada para si, mas ofertar um produto bom para todos. Não querer eliminar os adversários como os pugilistas, mas sim desenvolver uma compreensão como a dos maratonistas, que competem consigo mesmos. Se conseguirmos ter um pouco dessa postura, podemos diminuir o produtivismo individualista na academia. É um desafio para produzir mais, melhor e com solidariedade.
Abrasco: Qual é a importância do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde debater este tema?

Madel Therezinha Luz: A universidade e as instituições de pesquisa são habitualmente fechadas em si mesmas. Sou budista, e meu mestre, que foi professor universitário de Física por 25 anos, diz que o lugar mais difícil para esse tipo de troca é a universidade. Ao mesmo tempo, a academia é um lugar único por produzir conhecimento apoiado na ciência. Não é bom para a saúde dos homens competir, mas sim buscar um mundo mais fraterno e solidário. Mudar essas formas de produzir causam um impacto profundo, tanto para a universidade como para a sociedade. É da sociedade que vem as mensagens para a academia mudar, se mudar. Participar de um congresso como o de Ciências Sociais e Humanas em Saúde que traz esta mensagem para o conjunto das ciências, suas instituições e associações é muito importante.

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