Construção coletiva marca a abertura do 2º Sibsa, em Belo Horizonte


A composição da mesa de abertura do 2º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente refletiu o plenário, bem como a trajetória de construção do evento. Aberto na noite de 19 de outubro no Minascentro, a cerimônia contou com pesquisadores, movimentos sociais e autoridades do Ministério da Saúde, mostrando que o fazer científico é um produto de toda a sociedade.

Hermano Albuquerque de Castro, presidente do Simpósio e diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) fez a saudação inicial. Ao falar em nome também do conjunto de pesquisadores que compõem do coletivo organizador do evento, o Grupo Temático Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (GTSA/Abrasco), ele destacou que é um interesse antigo da Associação “a possibilidade de um encontro entre aqueles que fazem ciência com aqueles que fazem ciência, que são os movimentos sociais e o conjunto da sociedade”.

Segundo Castro, o 2º Sibsa só é possível por ser uma construção coletiva de um conjunto de possibilidade que fluem dentro do movimento social e no interior da academia. “Fomos ainda mais longe ao trazer os movimentos para a construção desde a comissão científica, devido a clareza de entender o processo do desenvolvimento social e de colocar o sujeito no centro desse processo de transformação. É uma inovação que precisa ser continuada e para qual devemos avançar em passos largos.”

Na sequência, ele apresentou a estrutura que norteará os próximos dias. Divividos em três eixos – Desenvolvimento e conflitos territoriais: Fórum de Diálogos de Saberes; A função social da ciência, ecologia de saberes, e outras experiências de produção compartilhada de conhecimento, e Direitos, Justiça Ambiental e Política Públicas- eles abarcam importantes aspectos do conjunto de ações, produções e relações que marcam um encontro com tantos atores, que segundo o presidente do simpósio, se juntam em um só corpo na defesa da vida e da saúde pública em nosso país. “Queremos que neste 2º Sibsa a Saúde esteja no debate em todos os pontos: no saneamento, nos transportes, na moradia, e que nós assumamos todas as contrubuições, como o que for construído na Carta Política de Belo Horizonte como uma ação política efetiva e debatido como uma pauta central para o próximo governo brasileiro.

A hora e a vez dos movimentos sociais: Com o poema ‘Para não calar’, de Clei de Souza, Mercedes Queiroz Zuliani, da Via Campesina, abriu sua participação. “Aos que lutam pela reforma agrária/Apresento o silencio contra o apodrecimento da palavra/Para que não se chame de conflito a chacina/De paz à polícia, e violência de segurança/E manipulação de justiça, voltemos ao silêncio”.

Mercedes lembrou ainda que os movimentos sociais acabam de vir de uma jornada internacional contra as transnacionais e pela soberania alimentar e que o 2º Sibsa some-se ao corpo de eventos que ‘nos torna humanos ao longo de todo o processo de conquista’. “Agradecemos ao povo que lutou para chegarmos até aqui, numa resistência que constrói projetos”.

Pelos movimentos urbanos, a fala coube a Joviano Mayer, das Brigadas Populares de Minas Gerais. Joviano Mayer, que ressaltou a importância do debate da democracia após as jornadas de junho de 2013, que mesmo tendo reoxigenado o movimento de lutas e haver tantos espaços para a participação social na formatação de políticas públicas, “as multidões ainda estão longe de decidir seus futuros”.

Para ele, essa ausência de democracia direta fica evidente na crise urbana vivida pelas cidades brasileiras, tão presente nos cartazes e nos corpos dos manifestantes. “Vivemos uma produção do espaço urbano orientada pelo planejamento estratégico, dos grandes empreendimentos e intervenções a despeito das maiorias segregadas nas perifierias. A metrólope é a fabrica contemporânea e nosso papel é lutar por uma outra socialibilidade urbana.

Mayer encerrou destacando a importância que esse even to pode trazer para uma nova compreensão das ações políticas. “Quando falamos em desenvolvimento, movimentos e saúde temos de entender que a luta não passa só pelas politicas públicas, está para além delas e aponta para a luta do comum. É fundamental revermos as práticas da esquerda e darmos vazão a novas estéticas e novas narrativas que vêm das lutas multitudinárias na conquista de uma cidade que caibam todos e todas. Acredito que teremos um Simpósio a altura do desafio colocado”.

A academia e gestão refletem seus papéis: As últimas falas da cerimônia foram de membros da academia e da gestão pública. Paulo Gadelha, presidente da Fundação Oswaldo Cruz, ressaltou que os temas saúde e ambiente são quase que simbióticos e não podem ser pensados de forma desconectada e que a produção do conhecimento não é um monopólio da academia, mas sim algo vivo que está na luta e na prática das pessoas. “As determinações que o modelo de desenvolvimento e o processo de trabalho produzem inequidades se traduzem da mesma maneira que os agravos ambientais atingem as comunidades mais vulneráveis”.

Gadelha relembrou o embate que foi travado para colocar o tema da saúde na carta final da Conferência Rio +20, uma necessidade para que o tema não se dilua nos processos de cada país, e que esta relação é central para a Fundação, sendo componente do eixo estratégico do plano quadrienal. “Para nós é um temário prioritário, com nossas posturas na luta contra os agrotóxicos, na conformação de observatórios sobre justiça ambiental e nas pautas dos cursos de pós-graduação. Estaremos aguardando com atenção o produto aqui produzido para que possam servir de subsídios significativos para nós da Fundação e para o Ministério da Saúde”.

A Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde (SGEP/MS) representou o conjunto da autarquia com a participação de Kátia Souto, secretária substituta. Ela saudou os desafios trazidos pelo 2º Sibsa, comoa contrução coletiva, o processo de visibilidade dos movimentos sociais e a discussão do modelo de desenvolvimento econômico. “Acho que ainda não nos damos conta da repercussão que isso terá para avançarmos de fato nos debates da saúde. Discutir o modelo de sociedade que queremos e quais passos temos de dar para ultrapassar o que nos é imposto é o grande desafio que tem a saúde nessa construção,uma questão que se coloca nos corpos humanos e no exercício da cidadania”.

Nelson Gouvea, vice-presidente da Abrasco, encerrou as falas oficiais frisando a preocupação que o GTSA tem colocado nas discussões da Associação em dar voz às populações impactadas pelo atual modelo de desenvolvimento. “Estamos aqui na perpectiva de aprender e ter uma troca rica e viva entre tantos atores. Em nome da Abrasco, desejo um bom Simpósio a todos”.

Homenagem aos pioneiros: Fernando Carneiro, Coordenador do GTSA, fez a fala de encerramento da cerimônia destacando que o 2º Sibsa, além de um palco de debates científicos e de mobilização social, também é um momento de celebração e reconhecimento de companheiros que dedicaram a sua vida à produção de um conhecimento engajado e comprometido com a transformação social. Na sequência, chamou ao palco os professores Volney Câmara, professor titular do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ); Jaime Breilh, um dos principais autores da corrente conhecida como Epidemiologia Crítica e diretor da Área de Saúde da Universidad Andina Simón Bolívar, do Equador, Lia Giraldo Augusto, da Universidade de Pernambuco (UPE), do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CpqAM/Fiocruz) e presidente da Comissão Científica do 2º Sibsa, e Jean Pierre Lerroy, histórico militante da agroecologia, membro da FASE e conferencista da abertura do Simpósio.

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