Congressos nacional e internacional movimentam epidemiologia em 2014


O ano de 2014 promete ser um marco para o campo da epidemiologia brasileira e mundial, com a realização do Epivix e do 20º Congresso Mundial da International Epidemiology Association (IEA). Os preparativos estão avançados para os dois eventos, com datas, temas e eixos para apresentação de trabalhos já definidos.

Para falar sobre os desafios da área, os professores Ethel Leonor Noia Maciel, membro do Conselho da Diretoria da Abrasco e presidente do Epivix 2014, e Cesar Victora, presidente da IEA, concederam entrevista sobre a importância dos eventos e fazem um balanço da produção científica atual do campo.

Abrasco: Por quais avanços que a epidemiologia brasileira passou nos últimos dois anos, a contar a partir de 2011, ano de realização do VIII Congresso?

Ethel Maciel: É difícil fazer um recorte de dois anos para um desenvolvimento contínuo e ascendente como é o caso da epidemiologia brasileira. A área vem se destacando tanto em número de pesquisas como na qualidade dos periódicos nos quais são publicados os trabalhos. Além disso, há epidemiologistas brasileiros em destaque tanto como editores de periódicos internacionais como presidindo a mais importante associação da área, como é o caso do professor Cesar Victora.

Abrasco: O lema do EPI 2011 foi Epidemiologia e Políticas Públicas de Saúde. Já há tema para o Epivix 2014?

Ethel Maciel: Sim. O tema será “As fronteiras da epidemiologia contemporânea: do conhecimento científico à ação”. Estamos estimulando
nessa nona edição do congresso uma maior interação com outras disciplinas do campo da Saúde Coletiva, sempre na perspectiva de aproveitar essas contribuições para as pesquisas e práticas epidemiológicas. Assim, a comissão estará dividindo a demanda científica dos congressistas em cinco grandes blocos: abordagens teóricas relevantes para o campo; avanços metodológicos; epidemiologia e política de saúde; epidemiologia no contexto das ciências sociais e humanas, e temas importantes no atual perfil epidemiológico brasileiro. Esperamos com isso que o congresso consiga abarcar a diversidade das pesquisas realizadas, principalmente no âmbito da pós-graduação e dos institutos de pesquisa brasileiros.

Abrasco: Como o Epivix 2014 pretende estimular a nova produção científica da área?

Ethel Maciel: Uma das novidades será as sessões Abrasco jovem epidemiologista. Pretendemos criar um espaço para a apresentação de resultados de projetos de doutorado, mestrado profissional ou mestrado acadêmico, assim como trabalhos de alunos de graduação e pós-graduação lato sensu. Esses trabalhos poderão ser inscritos na modalidade de pôster ou comunicação coordenada nos quais os apresentadores devem ser os primeiros autores.

Abrasco: A saúde dos polos e o aquecimento global são alguns dos temas do 20º Congresso Mundial. Como a epidemiologia pode colaborar com a compreensão de que vivemos em um planeta único e interconectado, tanto em sua sociedade como em sua natureza?

Cesar Victora: O aquecimento global já está tendo efeitos sobre a saúde humana, por exemplo, com a extensão das áreas onde vivem alguns vetores de doenças. O fato de o congresso ser realizado no Alasca, onde o aquecimento se manifesta mais agudamente com o derretimento de geleiras, torna o tema proposto altamente adequado. Um segundo tema do congresso da IEA é a saúde nos polos, que também está fortemente relacionada ao aquecimento global, e esperamos um grande número de participantes de países situados ao redor do Polo Norte, assim como participantes do Chile e Argentina.

Abrasco: Os debates sobre metodologias, levantamentos estatísticos e populacionais são a marca do campo. Ao mesmo tempo, há profunda relação de troca de saberes e de cuidado desempenhado pelos profissionais da epidemiologia com as diversas coletividades da sociedade. Como técnica, metodologia e humanização devem caminhar e contribuir, conjuntamente, com os estudos em epidemiologia?
Cesar Victora: Nosso congresso contempla estas diferentes áreas relevantes para a epidemiologia. Uma das linhas do congresso é a metodologia, e teremos sessões com os maiores expoentes mundiais nas áreas de inferência causal e de epidemiologia genética e epigenética. Teremos também uma linha sobre ética e disseminação das pesquisas epidemiológicas. Sem disseminação adequada, a pesquisa nunca conseguirá alcançar o objetivo maior da epidemiologia, que é mudar para melhor a saúde das populações.

Abrasco: A partir da perspectiva de estar à frente da IEA, como o senhor analisa a produção científica brasileira em comparação com os demais países?

Cesar Victora: Uma das áreas em que a produção científica brasileira mais tem crescido é a epidemiologia. Hoje, brasileiros publicam sistematicamente nas melhores revistas da área. Temos grandes estudos transversais e grandes estudos de coortes, tanto de crianças quanto de adultos. Temos rigorosas avaliações de programas governamentais como o Bolsa Família, usando metodologia epidemiológica de ponta. Ainda temos poucos ensaios comunitários randomizados, uma área em que o Brasil precisa investir mais. No geral, a expansão da epidemiologia brasileira, e em especial o seu profundo engajamento com os serviços de saúde, são aspectos que vem chamando a atenção no cenário mundial.

Abrasco: Como as pesquisas, estudos e debates do campo da epidemiologia podem contribuir para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde?

Ethel Maciel: Há muitos exemplos de experiências bem sucedidas. As políticas dos programas de saúde materno-infantil, DST/HIV/AIDS, tuberculose, leishmaniose, controle do câncer e combate ao crack, só para citar alguns, têm sido formuladas com grande contribuição pelos nossos epidemiologistas, que em sua grande parte formam os comitês técnicos de assessoramento (CTA) do Ministério da Saúde. O programa nacional de imunização, por exemplo, com reconhecido sucesso internacional, teve e tem na figura do professor José Cassio Moraes, atual presidente da comissão de epidemiologia da Abrasco, um dos grandes formuladores desse programa. Ou seja, as pesquisas que vêm sendo realizadas e consolidadas ao longo desses 30 anos de epidemiologia no Brasil têm fornecido subsídios para a tomada de decisão em diversos níveis da atenção à saúde da população.

Abrasco: Quais outros temas e assuntos devem ser observados para o fortalecimento da epidemiologia?

Cesar Victora: Como mencionado acima, creio que a epidemiologia brasileira deve investir mais em ensaios randomizados, seja em nível individual ou de conglomerados de indivíduos. Por exemplo, programas nacionais de atividade física, de humanização do parto, ou mesmo programas assistenciais, como o Mais Médicos, são lançados com grande publicidade, mas frequentemente suas avaliações deixam muito a desejar. Por que não escolher aleatoriamente um número de municípios para implantar esses programas, fazer uma comparação com um grupo controle após um par de anos e então decidir com base em evidências se os programas valem ou não a pena? Há outras áreas em que também precisamos investir mais, como a epidemiologia genética e epigenética, e o estudo de doenças mentais e demência.

Ethel Maciel: Eu acrescentaria mais dois desafios que de certa forma são centrais no nono congresso brasileiro: a necessidade de maior articulação da epidemiologia com as outras áreas do campo da Saúde Coletiva com construção de metodologias conjuntas e a difícil e fundamental tradução e aplicação dos conhecimentos produzidos para melhoria das condições de saúde da população.

20º Congresso Mundial de Epidemiologia
De 17 a 21 de agosto de 2014
Anchorage, Alasca – EUA
Prazo para submissão de trabalhos: 17 de janeiro de 2014

Epivix 2014
De 6 a 10 de setembro de 2014
Centro de Convenções da Universidade Federal do Espírito Santo – Vitória/ES
Prazo para submissão de trabalhos: 24 de fevereiro de 2014
 

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