‘Antes de ser epidemiologista eu sou sanitarista’ Entrevista com Gulnar Azevedo e Silva

Gulnar Azevedo e Silva e a UERJ – Foto: Flaviano Quaresma / IMS

“Foi pelo SUS que aceitei esse desafio abrasquiano, pelo o que a gente construiu, pelo que a gente defendeu e pelo que a gente resistiu: é muito caro perde-lo” diz Gulnar Azevedo e Silva, atual diretora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro da Comissão Científica do 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, que está preparando junto com vários outros colegas abrasquianos um projeto de candidatura para direção da Abrasco, gestão 2018-2021.

Gulnar concedeu entrevista para a Abrasco onde abordou o momento das universidades públicas no Brasil – em especial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o desmonte do Sistema Único de Saúde, sua relação com a Abrasco e sua opinião sobre as próximas eleições de outubro.

A UERJ

“Tem sido difícil… mas nada foi muito fácil para mim. Na minha vida tudo sempre foi muito batalhado e eu estou acostumada a enfrentar estes desafios. Enquanto estudante muito me orgulho de ter participado da luta pela reabertura do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da UERJ em 1977. Em 2016, quando eu estava assumindo a direção do IMS, a crise na Universidade se acirrou e desde então a luta tem sido para que a UERJ não feche. Neste mesmo ano de 2016 realizamos eventos na universidade em defesa do SUS, juntando várias unidades de saúde, além das Faculdades de Psicologia, Serviço Social, Direito e a de Educação Física. Em 2017 a crise foi tão grande que chegamos a ficar quatro meses sem salário e então nossa prioridade foi não deixar uma UERJ esvaziada, que era justamente o que alguns queriam… uma universidade bem esvaziada para justificar o desmonte.

Apesar de todo este desgaste, estamos vivendo no IMS um processo muito interessante de discussão interna para implementação de um plano estratégico para nossas atividades docentes e de pesquisa. Este processo envolve colegas de gerações diferentes, incluindo a participação de ex-professores juntamente com estudantes. Colocamos em evidência o contexto de inclusão de pessoas que antes não tinham acesso à universidade e menos ainda aos programas de pós-graduação. Neste ponto, a participação dos estudantes tem sido fundamental e o debate coletivo tem nos trazido energia para implementar as boas ideias que vem surgindo.”

 O Sistema Único de Saúde

“A UERJ resiste junto com o SUS. A Universidade Pública defende o SUS e precisamos resistir juntos. Tenho esperanças no Sistema Único de Saúde. Sabemos que é preciso fazer a transformação do SUS criado há 30 anos para um SUS de hoje. Para mim é importante entender quem é o jovem que vai trabalhar nesse Sistema Único de Saúde, qual a linguagem dele, o que é importante para ele. Não se pode viver só de história. Temos que fazer a história, não só com o que o que já temos, mas com o que vamos incorporando no caminho.

Pelo o que foi construído no SUS pela minha geração e por gerações anteriores, não dá para fugir da luta. Esta foi a coisa mais importante que me fez aceitar esse desafio abrasquiano. Pelo o que a gente construiu, pelo que a gente defendeu e pelo que a gente resistiu: é muito caro perder. O desmonte para mim não é só do que a gente construiu, é o desmonte de um projeto de sociedade. O SUS é sim a melhor estratégia de distribuição de renda que ocorreu no Brasil. Não ter mais o SUS ou ter de forma escalonada ou de forma progressiva é um absurdo. Respiro fundo e digo: não vou desistir.”

As Eleições 2018

“Nesse governo de hoje só dá para trabalhar contra. Trabalhei para o Ministério da Saúde de 2003 a 2007 depois participei de algumas comissões e avalio hoje que, dentro do possível, fizemos um bom trabalho. Trabalhávamos em prol de políticas que tinham sido nossas reivindicações anteriores, e é importante que as pessoas saibam disso. Em outubro precisaremos votar pelo SUS, a Abrasco precisa pedir aos candidatos que eles se comprometam como o Sistema Único de Saúde, assim como precisam se comprometer com as universidades públicas e gratuitas: este é o ponto de partida. Deveríamos perguntar a todos os candidatos à presidência da República como seria o Brasil se não tivéssemos o SUS: o que será da população se o SUS acabar? Qual seu compromisso com um sistema de saúde de acesso universal e que garanta um cuidado de qualidade? Muitas vezes a falta de compromisso é pela ignorância. Muitos sindicalistas, por exemplo, não têm noção de que o SUS é melhor do que o plano de saúde que eles reivindicam. Existe uma visão distorcida de que ter um plano de saúde é uma reivindicação de classe, significa ascender no status social. A melhor forma de defender o SUS é mostrar a sua eficiência, só assim a sociedade entenderá que esta é a melhor opção para cuidar da saúde”.

 A Abrasco

 “O primeiro congresso da Abrasco que participei aconteceu aqui na UERJ em 1986 – foi o primeiro Abrascão que reuniu duas mil pessoas e foi realizado logo após a 8a Conferência Nacional de Saúde. Eu estava retornando de dois anos fora do Brasil e retomando o mestrado no IMS. Depois fui aos primeiros Congressos Brasileiros de Epidemiologia sendo que coordenei a Comissão Científica da 5ª edição, em 2002, em Curitiba. Participei por um bom tempo da Comissão de Epidemiologia da Abrasco, porém, nos quatro anos em que estive cedida para o Instituto Nacional de Câncer – INCA, não pude participar tão ativamente. Depois do INCA tive que retomar minha vida acadêmica, a vida de professor não é fácil. O tempo é curto para dar conta das disciplinas, projetos de pesquisa, orientandos, publicações. Durante este período vi a Abrasco crescer muito: no número de pessoas que estão chegando e se aproximando, assim como áreas, visões e temas. Este crescimento é um excelente sinal, de reconhecimento do campo e suas diversas áreas e da necessidade de ser agente ativo na construção e defesa da Saúde Coletiva no Brasil.

É importante registrar que antes de ser epidemiologista eu sou sanitarista! A Epidemiologia é a ferramenta que tenho de convencer as pessoas do que é importante trabalhar em Saúde Pública. A minha preocupação agora é que, através do nosso conhecimento científico aplicado à realidade dentro das possiblidades de intervenção, a gente consiga transformar para melhor, mudar em qualidade, ganhar em escala.

O futuro da Abrasco será desafiador, e a grande força de crescimento da Associação está em trabalhar junto, incorporando as lutas dos movimentos sociais que hoje precisam de reconhecimento e defesa. Precisamos entender as causas e consequências da desigualdade na saúde, saber como um profissional de saúde pode perceber isso com uma mudança de postura e formação, entendendo o que as pessoas precisam, quais são suas condições individuais específicas e quais suas reais necessidades. É fundamental a Abrasco se manter aberta, viva e atuante.”

 

Gulnar é carioca, se formou em 1978 na Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e fez Residência em Medicina Preventiva na Faculdade de Medicina da USP. Após a residência voltou para o Rio de Janeiro onde trabalhou no Hospital Raphael de Paula Souza e passou no concurso do antigo INAMPS para Medicina Interna, mas como era “sanitarista” foi lotada na Superintendência do Rio de Janeiro. Morou dois anos na Suíça onde teve a oportunidade de trabalhar como auxiliar de pesquisa em projetos da OMS e fazer o curso de especialização em Saúde Comunitária na Universidade de Genebra. Em 1987 foi contratada pela Campanha Nacional de Combate ao Câncer para trabalhar no Serviço de Epidemiologia do INCA. Concluiu o Mestrado de Saúde Coletiva no IMS em 1991 e em 1997 o doutorado em Medicina Preventiva na USP. Em 1999 foi aprovada no concurso para professora de Epidemiologia no Instituto de Medicina Social da UERJ. Entre 2003 a 2007 foi cedida ao INCA para exercer o cargo de coordenadora de prevenção. Atualmente é professora associada do IMS-UERJ e foi eleita diretora, cargo que exerce desde 2016.

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