Adeus a Giovanni Berlinguer


Dimensionar a perda de grandes nomes do conhecimento humano é sempre uma tarefa difícil. Em verdade, nenhum texto em memória a pesquisadores e intelectuais consegue traduzir o real significado das ações, pensamentos e intervenções dos mesmos.  No máximo, conseguem pincelar certos aspectos centrais das vidas e obras e destacar feitos mais relevantes. Em se tratando de Giovanni Berlinguer tal responsabilidade é impossível, dada à envergadura de sua vida, que atravessou dimensões políticas, sindicais, acadêmicas, humanitárias, e ultrapassou as fronteiras, tornando-se um nome central para a Saúde Pública, para a Bioética e para os Direitos Humanos, seja na Itália, na Europa, no Brasil.

Nascido em Sassari, vila ao norte da Sardenha, em 1924, Giovanni Berlinguer trouxe o olhar e a dedicação às causas sociais desde o berço. Filho de Mario Berlinguer, advogado defensor dos Direitos Humanos numa Itália recém-unificada, ele e seu irmão Enrico conviveram ao longo da infância com as lideranças sindicais e sociais dos movimentos de resistência da 1ª Guerra Mundial. Enquanto Enrico despontou como liderança de massas aos 17 anos e, anos depois, tornou-se o principal dirigente do Partido Comunista Italiano (PCI), Giovanni decidiu estudar Medicina e Cirurgia na Universidade de Roma, optando inicialmente pelos estudos higienistas no campo da parasitologia.

Retornou à Sardenha e tornou-se professor na Universidade de Sassari ao defender sua livre-docência em Medicina Social. Lá permaneceu até 1974, quando assumiu a cátedra de Saúde do Trabalho na Universidade La Sapienza, em Roma. A observação das questões da saúde no cotidiano das categorias organizadas na Central Geral Italiana de Trabalhadores (CGIL) foram essenciais para a redação de boa parte da sua bibliografia, com mais de 45 livros e 200 artigos científicos indexados nas publicações de maior renome científico. Entre elas, Medicina e Política (1978) e A Saúde nas Fábricas (1983), referências obrigatórias para os estudiosos da Saúde Pública.

Na década de 1980, ao mesmo tempo em que revolucionava o campo da Medicina Social italiana, ele acompanhava os acontecimentos na América do Sul, em especial, do Brasil, devido sua amizade e proximidade política com Sergio Arouca e outros pesquisadores e docentes. Essa intensa troca serviu de arcabouço para a redação da obra Reforma Sanitária – Itália e Brasil (1988), em parceria com Sônia Fleury e Gastão Wagner Campos. A busca incessante por uma visão cidadã e universal dos sistemas de saúde e o confronto com os demais modelos fez com que o livro fosse uma das bases para a redação do capítulo Saúde da atual Constituição Brasileira e marco teórico para a proposta do Sistema Único de Saúde.

+ Acesse o livro Reforma Sanitária – Itália e Brasil na íntegra

A partir da década de 1990, Giovanni Berlinguer inclinou seus interesses teóricos para o campo da Bioética, mas sempre destacando uma visão humanista e revolucionária. São marcos dessa produção os livros Questões de Vida — Ética, Ciência e Saúde (1991); Ética da Saúde (1995), O Mercado Humano (1996 e 2001 –a  segunda edição feita em parceria com o professor Volnei Garrafa) e Bioética Cotidiana (2004).

Mas Giovanni Berlinguer foi ainda mais. Foi deputado pelo PCI  por três legislaturas, de 1972 a 1983. No último período, relatou e foi um dos principais responsáveis pela aprovação da  Lei do Aborto no Parlamento italiano. Na sequência, elegeu-se senador, permanecendo no cargo até 1992. Nesse período, nunca se afastou da Universidade de Roma, e de lá só saiu na aposentadoria compulsória, aos 75 anos, em 1999. Sagrou-se ainda emérito dessa mesma instituição em 2002. Alcançou ainda os títulos de Professor Honorário da Universidad Autonoma de Santo Domingo (1992), de Doutor Honoris Causa da Université de Montréal (1996) e da Universidade de Brasília – UnB (1996). Em 2004, aos 80 anos,  elegeu-se deputado italiano junto ao Parlamento Europeu e cumpriu o mandato até 2007. Da tribuna de Estrasburgo manteve-se fiel aos seus princípios, integrando o bloco socialista, defendendo políticas sanitárias justas como instrumento de inclusão social e igualdade.

Parte dessa trajetória pode ser vista, revisitada e descoberta pelo documentário Giovanni Berlinguer – Um Especialista em Pulgas, produzido pelo Núcleo de Estudos em Saúde Pública da Universidade de Brasília – NESP/UnB, com produção executiva de Maria Fátima de Souza e Ana Valéria Mendonça. Com tantos abrasquianos parceiros e admiradores citados ao longo do texto, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva registra aqui sua gratidão.

+ Confira o documentário Giovanni Berlinguer – Um Especialista em Pulgas

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Um comentário sobre “Adeus a Giovanni Berlinguer

  1. Giovanni Berlinguer é um dos pilares de sustentabilidade na construção e adoção de políticas públicas de saúde inclusivas em alguns países, notadamente na Itália, no Brasil e em países da Europa. Sua publicação sobre o mercado humano de órgãos, desvenda a existência de uma grande e perigosa máfia especializada em fornecer órgãos destinados a transplantes, mesmo em países que, por motivos de ordem religiosa, existe proibição legal para sua realização. Essas proibições deram origem ao chamado ” turismo da saúde “, enorme fonte de ganhos financeiros e de violência, por vezes morte, de potenciais doadores de órgãos.

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