Emerson Merhy fala do tempo das manifestações.


26 de junho de 2013

 

Médico sanitarista e Professor de Saúde Coletiva, Emerson Merhy escreve texto sobre a onda de protesto que percorre o Brasil.

 

“Fico imaginando que as manifestações têm muitas caras e é como se a multidão fica-se olhando para "a esquerda" e fala-se: Decifra-me ou te devoro. Quando saí na quinta pelas ruas do Rio de Janeiro, participando de uma manifestação mais objetiva, contra a cura gay, tive a sensação de estar em uma grande floresta que tinha de tudo.
 

Vi coisas muito legais e vi coisas horríveis. Havia grupos com cartazes muito instigantes contra o preconceito, contra a globo e a mídia conservadora, contra a PEC 37, contra a corrupção, contra a privatização, contra o Renan Calheiros, contra o fascismo, pela Paz, contra a violência. Mas, vi também contra a Dilma, os partidos, a esquerda, o PT. Contra os gays.


Vi pouca ameaça de agressão, mas esse não é o testemunho de muitos que se viram acuados por grupos nazi ou por pequenos agrupamentos de direita anti-petista ou anti-lulista. Havia alguns grupos organizados, mas os mais organizados eram do crime organizado. Os punks também estavam organizados, mas com comportamentos dúbios. Havia provocadores difíceis de identificar, pois estavam bem clandestinos no interior da multidão-floresta que estava na rua.

 

Senti alegrias em alguns momentos e tristeza em outros. Fiquei em dúvida várias horas, não dava conta de entender tudo que ia acontecendo. Em um certo momento, senti que haveria provocações com a polícia e contra os patrimônios públicos, uma imbecilidade diga-se de passagem, e que muitos grupos iriam se perder nessa hora. Foi quando resolvi ir embora para casa.


Cheguei em casa e comecei a ver a Globo e seus semelhantes dando notícias e vi que eles iam construíndo uma imagem de que havia um movimento uniforme na rua, marcado contra o governo federal e contra os políticos em geral. Eu não tinha sentido isso de uma maneira tão cristalina, assim. Sentia sim, uma real frustração de muitos que estavam na rua , por se sentirem injustiçados na forma como os governos, dos vários lugares desse país, vinham tratando as necessidade da população, em geral.

 

Não atoa as bandeiras da luta eram: hospitais, educação, transporte padrão FIFA. O que me agradava também, quando via cartazes assim. Vi pessoas muito putas da vida por terem sido enganados pelos governos mais progressistas. Senti que tinham razão. Senti que a esquerda que está no governo, com raras exceções, tem feito ações mais intensivamente capitalistas e corroborado a ideia que a vida que vale a pena é a Vida-Mercado, que a nação só será nação se for uma Nação-Mercado, que os fundos públicos, inclusive do SUS, podem ser mexidos para favorecer o Mercado da Saúde.


Que o futuro que a esquerda prometia de uma sociedade mais justa, na qual todos os diferentes são iguais perante o direito a vida com qualidade, tinha sido abandonado. Que para os pobres, pobres políticas púb licas. Não pude deixar de pensar que o bolsa-família é uma migalha diante dos gastos com os capitalistas desse país. Senti que as pessoas estavam cobrando a fatura dessa traição. E com razão.

 

E como disse o Wolfgang Lenk, em seu texto, quando a esquerda esvazia as ruas, a direita sente que as ruas são dela. Vejo que Giuseppe Coco tem razão. A única maneira de isso não acontecer é irmos para dentro do movimento e problematiza-lo, mas com sinceridade a ponto de criticarmos a banalidade política que os governos de esquerda tem entrado. Se não desvendarmos e decifrarmos o que a Multidão-Esfinge está dizendo, vamos assistir uma fascistização macropolítica no Brasil com sérias consequências para todos.


Infelizmente, vejo o PT como um agrupamento pouco potente para exercer uma autocritica produtiva nesse momento, o que me amedronta muito mais que toda a Multidão-Floresta que tenho vivido nas ruas do país. A esquerda brasileira como um todo tem que se unificar para agir como um movimento a defender a continuidade e aprofundamento das reformas sociais e políticas radicais que esse país e o povo necessitam"

 

 

Emerson Merhy possui doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas. Como pesquisador atua nas relações intercessoras entre micropolítica do trabalho, educação permanente e produção de conhecimento, tendo junto ao coletivo desenvolvido metodologias de investigação pautadas pelos processos de avaliação compartilhadas, nos quais o melhor avaliador é quem pede, quem faz e quem usa.

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