#Bhopal35: a injustiça que permanece

Arte da Campanha deste 2019 coordenada pela ANA e Campanha Permanente Contra Agrotóxicos e Pela Vida

No dia 3 de dezembro de 1984, 40 toneladas de Isocianato de Metilo (MIC) vazaram de uma fábrica de agrotóxicos da empresa Union Carbide na cidade indiana de Bhopal. Naquela primeira noite, 3,8 mil pessoas morreram. Outras oito mil morreram ao longo da semana, e a estimativa oficial é que pelo menos 20 mil pessoas tenham morrido deste então. Até hoje, pessoas que foram expostas ao gás têm filhos que nascem com transtornos físicos e mentais. Desde esse fatídico fato, pesquisadores em ciências agrárias, ambientais, saúde coletiva, agricultores e movimentos sociais em uníssono e cada vez maior coro denunciam o crime à saúde e ao meio ambiente que os venenos significam, fazendo do dia 03 de dezembro o Dia Internacional de de Luta Contra os Agrotóxicos.

Passados 35 anos, ainda um grande caminho a percorrer, além da sensação de, no Brasil, andarmos para trás. Enquanto a Europa e os Estados Unidos reduzem cada vez mais o uso de tais produtos, no Brasil, há um aumento vertiginoso na liberação de químicos utilizados nas lavouras, como a Abrasco vem apontando desde o início do governo Bolsonaro, pela participação de seus pesquisadores em diversas matérias e diferentes veículos de imprensa.

“Agricultores e moradores de comunidades rurais são os principais impactados pela intoxicação, mas no Brasil não podemos dizer que algum grupo está isento”, afirmou a abrasquiana Ada Aguiar em matéria à National Geographic. “Mesmo nos grandes centros urbanos, os consumidores também são afetados ao ingerirem água, frutas, verduras e até mesmo produtos industrializados” completou a abrasquiana.

Em 2018, o Brasil já havia registrado o maior número de liberações em ao menos 13 anos, com 450 registros, como noticiou o jornal Folha de S. Paulo, que ouviu Luiz Claudio Meirelles. Em maio, nova onda de liberações, totalizando até então 197 novos registros somente em 2019, pauta que, ganhou espaço inclusive no Jornal Nacional, da Rede Globo, também com a participação do abrasquiano.

“Já existe uma recomendação pela ONU [Organização das Nações Unidas] a nível internacional para que agrotóxicos altamente perigosos sejam retirados do mercado. “O Brasil precisava efetivar substâncias de menor risco, e não as altamente perigosas” ressaltou Meirelles.

+ Leia a nota pública “Dia Mundial de Não ao uso dos agrotóxicos” divulgado nesta terça, 03 de dezembro de 2019

Juntamente com a observação dessa escalada, há um debate de que modelo de desenvolvimento é necessário e benéfico à sociedade brasileira. O alto custo das intoxicações aos cofres públicos e o significado dos venenos no modelo  de desenvolvimento foram temas de eventos e manifestações técnicas e políticas, como a nota Abrasco sobre a reavaliação do Glifosato.

Mais recentemente, o setor empresarial tem tentado burlar ainda mais a fraca fiscalização, ou lançando mão de empresas “barriga de aluguel” ou criando falsas polêmicas sobre casos de roubo e desvios dos produtos, o que só piora o quadro nacional, mantendo o país, senão em primeiro lugar, mas no topo do uso de agrotóxicos, independentemente da escala utilizada, como mostra reportagem da Agência Pública, de junho deste ano.

“Se eles [o agronegócio] admitem que 24% dos agrotóxicos consumidos no Brasil são comercializados de forma ilegal, isso significa que devemos somar 24% no volume oficial de agrotóxicos comercializados, o que reafirma que somos um dos maiores consumidores de venenos, que não temos controle do que é utilizado no Brasil e que são muitos os impactos” comentou o também André Burigo, do GT Saúde e Ambiente, à Comunicação da Abrasco.

Os pouco avanços que ocorrem vem se concentrando no questionamento da criminosa prática da pulverização aérea.  Municípios e estados vêm aprovando em suas casas legislativas leis que proíbem a prática, no entanto, sofrendo represálias do setor produtivo.

Por isso que para as ações desse ano, a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida e a Articulação Nacional de Agroecologia escolheram o tema da pulverização e a defesa da alimentação escolar livre de venenos como mote central da campanha. A Abrasco se soma ao posicionamento das entidades e frentes parceiras, denunciando os malefícios da prática. 

“Há estudos da Embrapa que mostram que 40% [da pulverização aérea] não chega ao alvo porque o vento leva e atinge as nascentes dos rios, deslocando-se por quilômetros. Essa forma de aplicação gera uma contaminação em grande escala” destacou o abrasquiano Fernando Carneiro à Rádio Nacional, do sistema de rádios da EBC.

Relembrando as decorrências do criminoso incidente em Bophal, o boletim Outra Saúde lembra que os EUA, havia instalado seu projeto de fábrica na Índia com falhas de segurança. Mas nenhum dos seus oito executivos principais foi preso, e o presidente da multinacional, que aprovou o projeto inseguro da fábrica, pagou uma fiança e morreu impune, como lembra a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida. Hoje a empresa pertence à Dow Chemical. A Campanha Internacional por Justiça em Bhopal tem uma série de reivindicações. Algumas delas: que a Dow pague um mínimo de US$ 8 mil para cada sobrevivente, que os executivos sejam julgados criminalmente, que o governo indiano garanta o desenvolvimento de protocolos de tratamento padronizados para doenças crônicas relacionadas à exposição a gases; que a Dow pague pela limpeza do solo e das águas subterrâneas de acordo com os padrões internacionais. No India Today há uma galeria com fotografias da época e, na BBC, fotos atuais da população afetada. Que todos vejam para que tal atrocidade não se repita, nem em grande, nem em pequena escala. Compartilhe as notícias lincadas com a hashtag #Bophal35.

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