DIA DA MULHER – HOMENAGEM ABRASCO. Entrevista Ligia Bahia


Ligia Bahia 'A privatização na saúde é contrária à atenção integral à saúde das mulheres'


ABRASCO: Há rumores de que o governo federal quer ajudar os planos de saúde a se expandirem e melhorar a qualidade do atendimento para seus clientes. Especificamente à saúde da mulher, essa é uma boa notícia? Por que? 

LIGIA BAHIA: Para a saúde da mulher é especialmente uma má noticia porque os planos de saúde têm uma racionalidade fundamentada na oferta e consumo de procedimentos, penetrada pelas indústrias de medicamentos e equipamentos. Trata-se de uma lógica de organização da assistência intervencionista e completamente fechada à participação nas decisões da sociedade e contrária à atenção integral à saúde das
mulheres.

ABRASCO: A proliferação desses planos de saúde tende a melhorar o acesso e a qualidade do atendimento oferecido à mulher no SUS? Vai "desafogar" o sistema público?

LIGIA BAHIA: Com planos relativamente baratos e coberturas restritas não é possível “desafogar” ou “desonerar” o SUS. O que vem ocorrendo é uma divisão cruel entre o setor privado e o SUS, na qual o segundo além de ser responsável pela saúde de toda a população funciona como resseguro desses planos de araque.

ABRASCO: A ajuda que poderá ser ofertada aos planos seria melhor aproveitada e mais eficiente se revertida (os valores) para as políticas públicas do SUS? Ou o setor privado está preparado para contribuir com a melhora dos principais problemas que afetam a saúde das mulheres no Brasil?

LIGIA BAHIA: Mais recursos para o SUS poderiam ser investidos para reverter de vez o padrão medicalizante perverso em relação à saúde das mulheres que vige no Brasil. Poderíamos almejar debater prá valer problemas como a banalização da cesariana, os preconceitos e conceitos sobre aborto e ultrapassar o modelo assistencialista baseado no binômio mãe-filho.

ABRASCO: Geralmente, não se vê políticas amplas e concatenadas de enfrentamento de males que acometem a saúde da mulher nos planos de saúde. Pelo SUS, ainda que fragmentado ou segmentado, existem vários programas/ações/planos voltados para a saúde da mulher. É desejável que o setor privado se aproxime de um olhar à saúde da mulher como o oferecido pelo SUS ou esse papel é estritamente do Estado? É possível cobrar do setor privado ação mais atuante?LIGIA BAHIA: O setor privado é protagonista do modelo medicalizante iatrogênico. Para desempenhar um papel auxiliar e subordinado às necessidades de saúde e não à da inovação e incorporação tecnológica muita água teria que correr por baixo da ponte. Na prática a “indústria” da assistência à saúde teria que renunciar ao seu papel mais visível que é o de alardear a primazia das tecnologias sobre a construção de sociabilidades solidárias e justas. Não existem experiências que nos levem a acreditar na possibilidade de uma inserção autônoma do setor privado que promova a saúde.

ABRASCO: O envelhecimento populacional que o Brasil enfrentará nas próximas décadas será muito rápido. Estimativa do IBGE fala que até 2050 nossa população de idosos chegará a 60 milhões. Simultaneamente, vivemos um problema de obesidade/sobrepeso infantil e juvenil que aumentará a incidência de doenças crônicas antes da velhice. São dois desafios aparentemente antagônicos. Os planos de saúde, como desenhados e planejados hoje, conseguirão atender a essas demandas de seus clientes sem recorrer ou "onerar" o SUS?

LIGIA BAHIA: As empresas de planos de saúde mostram-se preocupadas com problemas geradores de altos custos e intervém sobre eles a seu modo: por exemplo, controle medicalizante de idosos e cirurgias bariátricas. Essas intervenções causam novos problemas e mais intervenções. Ou seja, os limites estreitos da ação constituemse em novos fatores de risco. Exatamente por essa razão da determinação social do processo saúde-doença é que as ações relacionadas com a saúde têm que ser intersetoriais. Problemas de saúde, velhice acompanham a humanidade desde que o mundo é mundo. Nesse momento, em que as promessas médicas de embelezamento automático e obtenção de eterna juventude acoplam-se à privatização da saúde, os desafios para os sistemas universais tornam-se ainda maiores. 

 

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