Tabagismo na pandemia do consumo à produção

Por ser uma doença que atinge principalmente o sistema respiratório das pessoas, a relação entre o tabagismo e a Covid-19 tem gerado diversos debates, inclusive com estudos apontados por especialistas como duvidosos. Além da possibilidade de agravamentos nos pacientes, o fumo também cumpre a função diante da ansiedade causada pelo isolamento social neste período. Por conta desse cenário a Ágora Abrasco promoveu o painel “Tabagismo e Covid-19” que abordou a questão desde os aspectos da saúde dos fumantes até a questão econômica dos pequenos agricultores produtores de tabaco. O debate contou com a participação de Vera Luiza da Costa e Silva, ex-Chefe do Secretariado da Convenção-Quadro da OMS para Controle do Tabaco (CQCT/OMS) e pesquisadora da ENSP/Fiocruz; Frederico Fernandes, presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia; Mariana Pinho, enfermeira, mestranda na ENSP/Fiocruz e analista técnica da ACT Promoção da Saúde ; Tania Cavalcante, médica do Instituto Nacional de Câncer José de Alencar Gomes da Costa (INCA) e secretária executiva da Comissão Nacional da Comissão ( Interministerial ) para Implementação da Convenção Quadro da OMS para Controle do Tabaco (CONICQ). A coordenação foi feita por Cristiane Vianna, assessora técnica de controle de tabaco da The Union ( International Union Against Tuberculosis and Lung Disease).

Estudo duvidoso com ex-agente da indústria do tabaco

“Com uma doença respiratória grave circulando, esperava-se que diminuísse o consumo de cigarros. Mas isso só ocorreu em 12% dos fumantes, enquanto em 30% aumentou”. Foi com esses dados que Frederico Fernandes deu início à sua intervenção no debate. Frederico trouxe ainda que muitas vezes o cigarro é o único do fumante trabalhar a ansiedade, que fica mais forte nesse período de incerteza. O pneumologista abordou ainda uma pesquisa que foi muito divulgada e que alardeva que a nicotina poderia ser uma elemento protetor contra a Covid-19. O estudo causou espanto por conta de a Covid-19 atacar especialmente a parte respiratória e o tabagismo ser o maior causador de doenças respiratórias graves: “Quando vamos atrás do autor, ele recebeu durante uma década dinheiro da indústria do tabaco, o que para mim é um conflito de interesse”. Para contrastar com tal estudo, Frederico truxe dados: “Em estudos, fumantes tem risco de complicação maior em 45 % e uma letalidade 38% maior”.

Vera Luiza da Costa começou sua abordagem a partir dos aspectos econômicos: “Basicamente o tabagismo tem impacto econômico e sanitário global. Temos 1,8 bilhão de consumidores de tabaco no mundo”. Segundo Vera, isso gera um alto impacto nos sistemas de saúde para tratar questões relativas ao tabagismo, o que é agravado com a chegada da Covid-19: “Isso agrava o sofrimento principalmente das famílias de baixa renda. O impacto é que perdemos 1,4 trilão de dólares gastos em saúde para questões relacionadas ao tabaco”. Ela apontou ainda que é fundamental que ações internacionais para a redução do tabagismo continuem sendo implementadas.

Pequenos agricultores e a ação da indústria também estão na pauta

As ações do Tratado Internacional de Saúde para redução do tabagismo e prevenção para que crianças e adolescentes não fumem foram destacadas por Tânia Cavalcante. Tania apontou que a “redução da mortalidade por doenças ligadas ao tabagismo é perceptível, chegando a 20% depois das medidas para redução.”. Segundo ela, um dos principais desafios enfrentados para implementação do plano no Brasil tem sido o subfinanciamento, além de uma forte atuação política das empresas de cigarro. Tânia abordou ainda a preocupação com os pequenos agricultores que vivem da produção de tabaco, segundo ela “precisamos ganhar força no programa de diversificação da produção, que está subfinanciado e continua sendo influenciado pelas empresas”. Essa influência das empresas faz com que produtores fiquem dependentes e, com a redução de fumantes, percam seu sustento.

Mariana Pinho foi a última a falar e abordou uma preocupação que veio logo assim que iniciou pandemia: “Em 2019, o fato de o tabagismo ter tido um aumento expressivo, dá um alerta exatamente por conta da pandemia. Medidas agora são importantes nesse cenário para a Covid-19”. Ela trouxe ações promovidas pela ACT, como a nota técnica sobre o fato de a nicotina não ser um protetor à Covid-19. Além disso, Mariana destacou a importância de se estar atento às ações da indústria do tabaco nestes momentos de crise: “Eles tentam se promover, fazer doações e tentando se colocar como parte da solução do problema. Se associam com prefeituras, hospitais etc promovendo sua marca. Em crises como essa, é histórica essa tentativa de limpar a própria barra”.

Confira a íntegra do painel na TV Abrasco:

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