Suicídio de Idosos: pesquisa da Fiocruz/Claves é debatida na Rádio Nacional


No dia 6 de fevereiro último, a antropóloga e sanitarista Maria Cecília Minayo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, participou de um debate no programa “Tema Livre”, da Rádio Nacional AM Rio de Janeiro (1.130 Khz), sobre o aumento dos casos de suicídios de idosos, um quadro muito preocupante apontado por pesquisa nacional realizada pela Fiocruz/Claves em 2012.

Sob o comando de Luiz Augusto Gollo, o debate contou também com Jaqueline Pitanguy, socióloga e coordenadora executiva da ONG CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação), e Zenaide Rocha, coordenadora regional do Centro de Valorização da Vida (CVV).

Cecília Minayo coordenou a “Pesquisa nacional sobre suicídio de idosos e proposta de atuação do setor de saúde”, a qual identificou que enquanto o índice de suicídio no Brasil é em torno de 4,5% para cada 100 mil habitantes, entre idosos do sexo masculino, este índice dobra, podendo subir a 20% ou até 25% para cada 100 mil habitantes, dependendo dos lugares. Já a taxa de mulheres que cometeram suicídio no período analisado (1980-2009) quase não sofreu alteração.

A população idosa cresce no país, porém o suicídio nessa faixa etária também vem aumentando, e isto os levou a procurar saber o que está acontecendo, destacou a pesquisadora.

O jornalista Luiz Augusto Gollo questionou se o fato do homem afastar-se do mercado trabalho o leva a um isolamento, pois o faz sentir-se inútil. Gollo relatou que na velhice há perda da função social produtiva, de ganho financeiro. Além disso, esse idoso acaba tendo que voltar a trabalhar porque a renda da aposentadoria é muito baixa, contudo ele é preterido por uma mão-de-obra bem mais jovem. Em nosso país, infelizmente há uma cultura que tende a relegar o velho ao esquecimento, a um papel muito secundário na sociedade, declarou.

Jaqueline Pitanguy disse que pela forma como a nossa sociedade se organiza em torno do mito da juventude, de tudo o que ela traz, o envelhecimento representa uma perda, perda em nível corporal, financeiro, perda do sentido da pessoa no mundo. Ela acredita que para os homens talvez essa perda seja mais difícil e dolorosa, porque o papel masculino está muito calcado a partir da identidade profissional do homem, da ideia de potência, realização e então a perda torna-se mais significativa para o homem do que para a mulher.

Nesse sentido, na medida em que a casa, o cuidado do lar, dos filhos e netos nunca foi a fonte de prazer principal na vida dele, a aposentadoria para o homem torna-se uma ruptura com a vida como um todo.
Zenaide Rocha afirmou que o suicídio em idosos é um problema que não é falado porque falta informação, sendo muito importante que todos tenham conhecimento da pesquisa realizada pela Fiocruz. Ela ressaltou que o CVV está aberto a todas as pessoas que queiram falar sobre os sentimentos que a estão infligindo e assim, estão colaborando para a prevenção do suicídio, pois a pessoa que fala dos seus problemas lá no início antes mesmo de ter pensamentos de morte, se ela tem alguém que a escute, que faça esse acolhimento, isto pode colaborar efetivamente para que ela mude de rumo e deixe de pensar em dar fim à sua própria vida. Zenaide comentou ainda que há vários fatores que contribuem para essa sensação de menos valia do idoso, porém também existem aspectos positivos e não só negativos na velhice, como por exemplo, os avanços na ciência e em tratamentos de saúde, melhoria na alimentação, acesso a exercícios físicos, ao lazer, possibilitando maior qualidade de vida e longevidade.

Cecília Minayo ressaltou que apesar de em outros países como na Europa, nos Estados Unidos e nas culturas orientais o idoso ser mais respeitado do que aqui, não podemos mitificar nada, porque na Europa há mais suicídio do que no Brasil, nas sociedades orientais também, em última instância há uma forte carga cultural nas taxas de suicídio e cada ato é uma decisão pessoal, paradoxalmente é uma opção de vida.
A antropóloga chamou a atenção para aspectos encontrados na pesquisa a respeito do suicídio dos homens idosos. Ela disse que a perda do status social tem um papel muito importante, sobretudo para os homens que se acostumaram a viver apenas do trabalho e dele derivar todas as suas relações sociais. Geralmente eles não pensam no momento após a aposentadoria. É como se para ele restasse um não-lugar social. Segundo a pesquisadora, mais de 85% dos idosos no Brasil são saudáveis, o que não quer dizer que não tenham algum problema de saúde, mas são ativos, têm autonomia. Porém há um percentual importante de 15% de idosos que começam a ter problemas de saúde sérios que exigem cuidados, perda de autonomia e, no caso dos homens, os maiores sofrimentos estão associados também à perda de sua potência sexual. “Nós homens dizendo: “eu não tenho mais que viver, eu não sou mais homem”. A questão do machismo se expressa não só no trabalho, não só no domínio da família, mas em todos os domínios da vida e nas formas de morte.

Com relação ao suicídio da mulher idosa, Cecília Minayo relatou que, embora em quantidade muito menor do que entre os homens, além de uma série de fatores, corrobora fortemente a perda da função social como esposas e como mães. Muitas justificam a desistência da vida, por acreditarem que cumpriram sua missão na terra.

A pesquisadora também destacou que no Brasil, a relação de idosos que pensam ou tentam cometer suicídio é de 4 para 1. O que ela gostaria de frisar é que como a pesquisa é voltada para a área de saúde, e na atenção primária, o mais importante é manter o idoso em atividade. A primeira medida preventiva é manter o idoso valorizado e em atividade e a segunda medida é um alerta para os profissionais de saúde e os familiares: quando um idoso falar em se matar ou tentar fazê-lo, esses agentes precisam acreditar no que ouvem e no que presenciam. Esses idosos precisam  ser acompanhados e cuidados mais de perto por alguém da família e ter paralelamente uma assistência profissional, de preferência de um psicólogo. Ela lamentou que os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) não estejam preparados para enfrentar esse problema, o que é fundamental, tendo em vista que a população brasileira está envelhecendo e a área de saúde precisa acompanhar tais mudanças.

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