Solidariedade, afeto e companheirismo são profiláticos no enfrentamento à pandemia

“Como cumprir as medidas preventivas se não existe apoio estrutural?”, perguntou o professor da Universidade Federal Delta do Parnaíba (PI) e vice-presidente da Abrasco José Ivo Pedrosa no colóquio Educação Popular em Saúde e a Covid-19: saberes e práticas de protagonistas dos territórios e serviços. A resposta vem com solidariedade, afeto e companheirismo, tanto nas comunidades quanto nos serviços de saúde. A pandemia evidenciou a exclusão social, a falta de ação do Estado para proteger o cidadão e o desfinanciamento do SUS, mas os saberes e as práticas dos protagonistas dos territórios e serviços resistem.

A atividade da Ágora Abrasco que aconteceu no dia 1º de julho contou com as participações de João Paulo Barreto, indígena do povo Yepamahsã (Tukano), antropólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena da Universidade Federal do Amazonas (NEA/UFAM); Sérgio Uchôa de Lima, agente comunitário de saúde na Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (AM) e membro do Conselho Local de Saúde da UBS Gebes de Medeiros (Semsa/AM); Neide Kellen Sequeira, técnica de enfermagem do Grupo Hospitalar Conceição (RS) e dirigente da Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Coneceição (ASERGHC); e Alan Brum Pinheiro, coordenador executivo do Instituto Raízes em Movimento, do Complexo do Alemão (RJ). A coordenação foi de José Ivo Pedrosa.

João Paulo Barreto falou sobre os desafios que enfrentamos desde a chegada do novo coronavírus, mesmo vivendo em um mundo tecnológico e com medicina avançada. “O modelo que estamos seguindo talvez esteja em xeque. Estamos na mata sem cachorro, enquanto corpos e mais corpos são enterrados”, pontuou.

O pesquisador falou sobre como os povos indígenas estão enfrentando a atual situação, e que o cenário é complexo, lembrando que alguns moram nas cidades, outros em terras demarcadas e outros vivem isolados. Citando os que vivem em cidades, João Paulo afirmou que há dificuldades no atendimento diferenciado à população indígena (A atenção diferenciada aos povos indígenas é feita pelo Subsistema de Atenção à Saúde dos povos indígenas, parte constitutiva do SUS). Uma das questões apontadas é a fragilidade das famílias indígenas que foram bastante atingidas economicamente durante a epidemia, pois a maioria vive de produzir artesanato, como trabalhador doméstico ou prestando serviços pontuais.

“Essa pandemia veio trazer uma coisa para nós, povos indígenas, a nossa medicina está sendo acionada. Os povos indígenas têm medicina própria e isso é gratificante demais”, disse João Paulo, ressaltando que “sempre fomos obrigados a negar nossas práticas terapêuticas indígenas, a negar nossos especialistas, conhecidos como pajés, os nossos conhecimentos, as nossas plantas medicinais, a nossa língua, as nossas comidas”.

João Paulo disse que a Covid-19 chegou em sua região e que ele próprio teve a doença, mas não precisou ser hospitalizado e que as famílias e os especialistas se mobilizaram e fizeram proteções contra a doença, com o uso de plantas medicinais e chás. O pesquisador contou que os especialistas fizeram benzimentos. “A doença é compreendida como algo que é levado pelo vento, então, segundo os especialistas, quando se faz isso (a proteção) eles colocam paredes onde, se o vento bate, não atinge a comunidade, passa por cima da comunidade”, afirmou.

Sérgio Uchôa de Lima contou sobre a rotina desde o início da pandemia e disse que há reuniões para organização do trabalho em equipe, para o entendimento e aplicação dos protocolos. “Aqui em Manaus, todos ficaram muito preocupados com a situação nova e temos pensado muito na comunicação. Ainda não passou a pandemia, mas tem muita gente que não se protege, os meios de transporte estão lotados”, afirmou.

Sérgio Uchôa afirma que é preciso cuidar da população, em um trabalho diário, ressaltando que muitas pessoas e profissionais têm medo da contaminação. “É muito perigoso, é grave. Houve óbitos entre os colegas, há guerra política e não temos vacina, mas estamos conseguindo nos manter saudáveis, na medida do possível”, pontuou.

O agente comunitário de saúde afirmou que é muito importante orientar as pessoas, tanto usuários quanto trabalhadores do SUS. “Agora, percebem que nós somos essenciais. Quando chegamos (nas casas), as pessoas sentem um alívio. Estamos enfrentando, como guerreiros, não vamos desistir, vamos continuar. Esperamos ter mais gás”, enfatizou.

Neide Kellen Sequeira falou de sua rotina no hospital em Porto Alegre (RS) e disse que, em sua percepção, diante da pandemia, alguns usuários “não entendem muito o que está acontecendo e é preciso colocá-los na realidade, porque são os mais vulneráveis”.

A técnica de enfermagem disse que muitos funcionários do hospital em que trabalha se contaminaram com o novo coronavírus e disse que há preocupação também com a saúde mental. “Não temos um norte, parece um descaso, é desinformação, é uma confusão de informações. Os casos estão aumentando e há uma briga entre a doença e a economia que prejudica todo mundo”, ressaltou.

Neide Sequeira disse que é preciso esclarecer a população e proteger os usuários, para não deixá-los ainda mais indefesos. “Às vezes sinto que caminho sozinha e aqui (no colóquio) consigo compartilhar minha angústia, pois acho que estou enxugando gelo. O cenário é caótico e está piorando”, afirmou.

Alan Brum Pinheiro falou de sua experiência, como pesquisador e morador do Complexo de Favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. “É muito bom trocar vivências e experiências.  O que a gente tem feito hoje? É fundamental pensar nas formas de superação no momento atual das periferias vivendo na pandemia. É preciso se unir diante da falta de ação do poder público”, pontuou.

De acordo com Alan Brum Pinheiro, temos que criar ações de fortalecimento para a população de periferia. “A maioria é trabalhador informal e está sem renda. Não podemos perder a perspectiva para que o governo avance nas políticas públicas para as favelas”, disse, ressaltando que é preciso articulação e “pensar nos determinantes sociais da saúde, como é o impacto nas pessoas das favelas. Como enfrentar, emergencialmente para a pandemia, e também com políticas públicas estruturantes”, disse.

O coordenador do Instituto Raízes em Movimento enfatizou a relevância do papel do SUS e do atendimento primário à saúde, fragilizado por conta da falta de vontade política. “A gente precisa avançar nesse processo coletivo de ação, o protagonismo de cada um de nós no território, o protagonismo de cada ator social na pandemia precisa ser melhor compreendido. É preciso complementar o trabalho feito na base, e que o poder público assuma seu papel”, disse Alan Pinheiro, ressaltando que “é preciso respeitar os saberes. As favelas têm vida própria e se constituíram com muita luta e muito suor”, concluiu.

Luanda de Oliveira Lima, Osvaldo Peralta Bonetti e Vanderleia Laodete Pulga, membros do GT Educação Popular e Saúde da Abrasco foram os debatedores do colóquio.

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