Série Especial Minientrevistas – Políticas de Saúde (3ª parte)


Confira a Série Especial de minientrevistas com os participantes confirmados no 2º Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, que acontece de 1º a 3 de outubro, em Belo Horizonte.

 

 

 

 

Série Especial Minientrevistas Políticas de Saúde

 

 

Celia Almeida

 

Pesquisadora Titular ENSP/Fiocruz, na área de Políticas de Saúde e Organização de Sistemas de Serviços de Saúde. No segundo dia do congresso, coordena o Simpósio: A crise do capitalismo: limites e possibilidades de reformas estruturais e dos sistemas de proteção social.

 

Abrasco – Para você, qual o maior desafio da Saúde Coletiva na atualidade?

 

Célia – Os desafios da Saúde Coletiva são muitos, mas destacaria um que me parece essencial e que se relaciona com o próprio campo de conhecimento que a constitui. Penso que precisamos resgatar e aprofundar a capacidade de reflexão transformadora da própria Saúde Coletiva. Essa foi a marca original sob a qual esse conceito e esse campo de conhecimento foi criado, se consolidou e institucionalizou. Entretanto, por incrível que pareça, essa não é uma tarefa fácil.


Vivemos hoje num mundo apressado, que caminha em ritmo acelerado e em meio a um intenso e incessante “falatório”, impulsionado pela tecnociência, pela velocidade vertiginosa das tecnologias de informação e comunicação, pela ideologia do “desempenho” medido, contabilizado, pela dinâmica da especulação em todas as áreas, não apenas na economia: especula-se sobre tudo. Esse ruído interminável e contínuo e ritmo alucinante (e alucinógeno), que nos ensurdece e paralisa, não deixa tempo para o “silencio” que nutre a reflexão.


Esse mundo imediatista, volátil, que se recusa a entender/resgatar o passado e vive o presente como acontecimento – espetáculo − e não como uma realidade a ser explicada, compreendida, não “constrói” o futuro, pois nega a tríade inseparável que constitui o tempo: presente, passado, futuro.


Muita coisa mudou na Saúde Coletiva, e continua mudando muito rápido todos os dias. Suas fronteiras são móveis, se ampliam e deslocam continuamente, e é fundamental estruturar permanentemente essa dinâmica.


Parece que nossas utopias e mitos (essenciais para a ação política) também se desvaneceram no ar, pois “o futuro não é mais o que era” (Paul Valéry). Nesse torvelinho esquecemos que aquele futuro (que hoje é nosso presente) foi construído a partir do escrutínio e entendimento de um passado e de uma leitura crítica sobre aquele presente (agora passado). Dito de outra forma, temos novas questões (ou velhas questões renovadas), mas tentamos respondê-las com as mesmas respostas em que nos apoiávamos anteriormente, perdendo a oportunidade de explorar e investigar a essência mesma das questões.


Acredito na retomada e no retorno continuo, repensado, revisto às questões que nos mobilizam, para re-construir respostas que ancorem nosso caminhar, o que só acontece com a reflexão. “O fazer não anda sem o desfazer e o eventual re-fazer” (Jean-Michel Rey) Time is NOT money!


Abrasco – Escreva, em linhas gerais, o que vai apresentar no evento de 2013?


Célia – Vou coordenar um Simpósio sobre “A crise do capitalismo: limites e possibilidades de reformas estruturais e dos sistemas de proteção social”. A proposta desta Mesa é colocar em debate a situação atual dos sistemas de proteção social em diferentes partes do mundo frente a essa nova crise econômica e seu impacto nas políticas sociais, estimulando a reflexão sobre possíveis desdobramentos futuros e caminhos a serem construídos nesse processo.

 

Abrasco – Qual sua expectativa quanto ao tema do congresso “Universalidade, Igualdade e Integralidade da Saúde: um projeto possível”?


Célia – Espero que os debates sejam férteis e que se consiga avançar na direção do enfrentamento dos desafios da Saúde Coletiva, com mais tempo para a reflexão, que possibilite o surgimento de novas idéias e de novas respostas a velhas (e sempre renovadas) questões.

 

 

 

Série Especial Minientrevistas Políticas de Saúde

 

Maria Paula Dallari Bucci


É professora livre-docente da USP e do Mackenzie. Foi secretária de Educação Superior e consultora jurídica do Ministério da Educação. No Congresso, participa, dia 3, da Mesa redonda: O Papel da judicialização na formulação da política de saúde.

Abrasco –   Para você, qual o maior desafio da Saúde Coletiva na atualidade?

Maria Paula – Um desafio importante para a Saúde Coletiva no campo do direito é a questão da judicialização da saúde. Trata-se de uma possibilidade relativamente nova, no cenário brasileiro, uma vez que até a edição da Constituição de 1988 nem se colocava a possibilidade de reivindicar o cumprimento de um direito por meio de ação judicial. A dificuldade está no fato de que não se contesta a existência do direito à saúde, mas existem muitas controvérsias sobre as maneiras de atendê-lo, em que tempo e a que custo.

Abrasco –  Escreva, em linhas gerais, o que vai apresentar no evento de 2013?

Maria Paula – Trabalhando a partir da premissa de que a judicialização da saúde é o sintoma de um problema de desarticulação governamental, tanto entre as várias esferas de governo, como no plano intra-governamental, isto é, dentro de uma mesma esfera federativa, serão apresentadas algumas linhas de sistematização jurídico-institucional do tema, necessárias para a construção de uma estratégia de superação baseada na consolidação dos consensos existentes ou possíveis.

 

Abrasco – Qual sua expectativa quanto ao tema do congresso “Universalidade, Igualdade e Integralidade da Saúde: um projeto possível”?


Maria Paula – A expectativa é muito positiva, pois estarão presentes protagonistas importantes em matéria de saúde pública no Brasil.

 

 

Série Especial Minientrevistas Políticas de Saúde

 

Gastão Wagner

 

Médico sanitarista e Professor titular do Departamento de Saúde Coletiva, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Durante o 2º Congresso de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, Gastão Wagner vai participar do Simpósio: Política, planejamento, gestão e avaliação da saúde, dia 2, às 19h00.

 

Abrasco –  Para você, qual o maior desafio da Saúde Coletiva na atualidade?


Gastão  – Acredito que é enfrentar a avassaladora hegemonia da racionalidade dos "negócios" (business) em todas as instituições contemporãneas. A lógica das empreiteiras, da especulação imobiliária e da indústria do automóvel assumiu o controle da gestão urbana. A da indústria dos alimentos, as políticas de alimentação. Partidos, movimentos sociais, mídia, Estado, tudo passou a funcionar estreitamente monitorado pelos "negócios". A sociabilidade está comprometida, esgarçada.


E, ainda mais grave, "intelectuais", inclusive do campo da SC, tem trazido para as políticas e instituições públicas modelos de funcionamento que são decalque do mercado. Uma contradição em termos: produtividade e controle administrativo tecnocrático, organizações privadas, supostamente, encarregacas de zelar pelo público. Seria cômico, patético, não fossem as consequências trágicas. Essa hegemonia enfraquece a Saúde Coletiva, por definição uma política pública.

Essa mentalidade impregnou até mesmo o modo de produzir conhecimento na saúde coletiva nas últimas décadas. O novo cientista, segundo esse modelo, é homem de negócios, um empreendedor, captador de recursos financeiros e com capacidade administrativa para controlar equipes de pesquisadores dependentes.  Isto para não mencionar a quase constituição de um monopólio da "matematização" metodológica (a crítica é ao monopólio, não ao uso da matemática quando a pergunta o exigir). Felizmente, fomos salvos no gongo pela avalanche da tal pesquisa "qualitativa". Falta ainda recuperar a legitimidade dos estudos históricos, de tendência, e tantos mais. O que essa redução epistemológica tem a haver com negócios?


A economia deixou de ser economia política para transformar-se em macroeconomia, em que inflação, taxa de de investimento, de juros, desemprego, etc, passaram a numeradores abstratos e sem história. A ação humana para interferir nesses "numeros" desapareceu já que obedeciariam à lógica das equações. Em política e nas práticas humanas deveremos considerar as evidências, muitas vezes, para alterá-las, para criticá-las com outras evidências, etc. Como combinar ciência com práticas, com políticas, com interesses, com valores morais e éticos? Esse é um grande desafio, me parece.


Abrasco – Escreva, em linhas gerais, o que vai apresentar no evento de 2013?


Gastão – Analisarei a dinâmica socio, econômica e política da implementação do SUS. E arriscarei algumas apostas de futuro.

 

Abrasco – Qual sua expectativa quanto ao tema do congresso “Universalidade, Igualdade e Integralidade da Saúde: um projeto possível”?


Gastão – Espero que os especialistas em saúde coletiva consigamos armar um projeto que assegure a concretude às três consignas listadas no título do congresso. Um esboço de projeto comum seria um grande passo para ampliar as possibilidades de consolidação do direito à saúde, além  de armar a saúde coletiva para opor-se aos desmandos humanitários, ecológicos, sociais e econômicos da implácavel dinâmica dos "negócios".

 


 

SÉRIE ESPECIAL MINIENTREVISTAS DE POLÍTICA DE SAÚDE

 

PARTE 1 e PARTE 2

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