Observatório de Favelas entrevista Cecília Minayo


19 de setembro de 2013

 

 

 

 

A socióloga Maria Cecilia Minayo, editora científica da revista Ciência & Saúde Coletiva, concede entrevista ao Observatório de Favelas – organização social de pesquisa, consultoria e ação pública dedicada à produção do conhecimento e de proposições políticas sobre as favelas e fenômenos urbanos. 

 

 

 

 

 

 

A LÓGICA DA GUERRA E OS CONFRONTOS ARMADOS NAS FAVELAS CARIOCAS

 

A lógica da guerra e os confrontos armados que ainda persistem nas favelas cariocas impulsionam a ocorrência de uma série de violações de direitos que abrangem desde o fechamento de escolas, postos de saúde e comércio, a limitação do direito de ir e vir, a invasão de suas residências até, em sua face mais cruel e perversa, um grande número de pessoas feridas e mortas atingidas por armas de fogo. Todo esse quadro e a própria vivência desses tiroteios em disputas de território e incursões policiais produzem um clima de terror psicológico, repercutindo na vida das pessoas através do surgimento de diversas formas de adoecimento psíquico causadas pelo estresse emocional intenso a que são submetidos os sujeitos envolvidos direta ou indiretamente nesses episódios, sejam eles moradores, integrantes de grupos criminosos armados e/ou policiais.

 

Desse modo, com o intuito de ampliar o nosso conhecimento acerca da influência da violência no cotidiano na saúde mental e física dos indivíduos, assim como das políticas públicas existentes e o modo que se articulam para a abordagem do problema, o Notícias & Análises entrevistou a socióloga Maria Cecilia Minayo, doutora em Saúde Pública com ênfase em Saúde Coletiva, que atua como professora, pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz, além de ser editora científica da revista Ciência & Saúde coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

 

Notícias & Análises: Como conceituar a complexa noção de violência?

 

Maria Cecilia Minayo: Violência é um conceito que foi desenvolvido nas sociedades modernas junto com os conceitos de direitos humanos e cidadania. Ou seja, quanto mais as pessoas têm noção do valor da cidadania e nela se sentem incluídas, elas percebem com mais nitidez a violência (o abuso de seus direitos) e a repudia. Podemos defini-la de várias formas, mas vou utilizar uma da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde porque é oficial: “O uso intencional da força física ou do poder real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação”. O documento da OMS e o Ministério de Saúde trabalham com a ideia de natureza e de tipologia da violência.

 

N&A: Quais as principais patologias que surgem após essas experiências de violência?

 

MCM: Em sua maioria, as vítimas de violência, sejam elas cidadãos que residem nos bairros ou policiais que atuam na segurança costumam  padecer da mesma vulnerabilidade. Assim, o risco e os fatores protetores dizem respeito a ambos. As consequências mais comuns dos eventos violentos para as vítimas são o estresse emocional que inclui medo, insônia, ansiedade, nervosismo, autoculpabilização, raiva, vergonha, tristeza e depressão e, do ponto de vista da saúde física, doenças cardiovasculares, do estômago, do intestino, dores de cabeça, insônia, dentre outros sintomas. Se esses sintomas duram mais de um mês, os psicólogos consideram que a vítima passou a sofrer de “desordem pós-traumática” que pode ser definida como um estresse psicológico ou uma reação fisiológica relacionada à exposição à ameaça de morte ou de lesão grave. As patologias na população, depois de ação de violência, dependem da dimensão dos confrontos. Na  maioria das vezes se exacerba ou o medo, ou a raiva, ou ainda o clima de revanche, prejudicando o ambiente de convivência e a saúde mental das pessoas. O custo social, humano e até econômico de uma vida perdida ou de uma  vitimização por violência é incomensurável, mas quem mais  o sente é a família seja no caso do vizinho ou do agente de segurança.

 

N&A: Quais os efeitos causados na população e nos policiais que vivenciam os confrontos armados nas favelas e em demais espaços populares da cidade?

 

MCM: Os efeitos dos excessos das forças públicas para a população, sobretudo para a população que reside nas favelas, são lastimáveis, pois só mesmo um ambiente de guerra – e não estamos numa –  justifica o confronto que gera medo, traumas e perda de vidas humanas. Isso é ruim para a população e para os próprios policiais. Creio, no entanto, que não podemos menosprezar o sofrimento dos policiais nos confrontos. Sempre digo que muita gente “de bem” olha os policiais como se eles fossem máquinas de “fabricar”  segurança pública.  Costumo dizer que o último muro que precisa ser rompido à bem da democracia brasileira é a democratização da força policial e sua reconciliação com a sociedade a quem serve. O clima de confronto não facilita isso.

 

N&A: A senhora afirma que, “o último muro que precisa ser rompido à bem da democracia brasileira é a democratização da força policial e sua reconciliação com a sociedade a quem serve” Essa afirmação tem a ver com a desmilitarização da PM?

 

MCM: Minha afirmação incluiria desmilitarização sim, mas não só. Acima de tudo estou falando que, com a contribuição das forças sociais que de uma lado querem uma policia mais eficaz e de outro compreendem as dificuldades pelas quais os policiais passam , temos que fazer uma transformação seja  na organização seja na mentalidade desses agentes para que considerem sempre em primeiro plano seus deveres constitucionais: da polícia militar “prevenir o crime e proteger a população”; da polícia civil “investigar o crime”  sobretudo  com  instrumento de inteligência. Da nossa parte temos que colaborar com essas mudanças, de um lado, denunciando abuso, de outro colaborando com a aproximação entre a policia  e a população a quem serve e valorizando seu trabalho: árduo, difícil e de risco.

 

N&A: Como o Estado poderia contribuir para garantia da saúde mental de quem sofre esses distúrbios e transtornos por conta da violência? Como cuidar da saúde coletiva dos moradores das favelas?

 

MCM: Na verdade o Estado tem uma proposta para cuidar da saúde mental da população: são os CAPS (Centros de Apoio Psicossocial). É muito importante que a população saiba que tem direito a esses cuidados e, caso não exista no bairro um CAPS, que haja uma reivindicação nesse sentido. Se ele funciona mal é preciso denunciar e exigir que nele haja profissionais competentes. Os CAPS não existem apenas para tratar vítimas de violência, mas da saúde mental como um todo. . O fato de a pessoa ter se tornado “vitima” de algum tipo de violência social, seja como de forma direta ou indireta, quando essa pessoa não recebe apoio e tratamento, pode torná-la muito mais vulnerável, aos sintomas mais comuns de estresse emocional, de desenvolver doenças psicossomáticas, de assumir atitudes de isolamento e antissociais. Mas a vitimização por violência é um fenômeno social que influencia fortemente a saúde mental e  é aí que se busca ajuda do serviço público.

 

N&A: Os policiais são treinados para esse tipo de ação nas favelas, inclusive psicologicamente. Quando eles estão numa incursão, claro que tem o nervosismo, a tensão, mas esse tipo de trauma pode ser comparado ao trauma de quem tem seu cotidiano interrompido por uma ação violenta?

 

MCM: Os estudos mostram que quando vítimas, os policias sofrem os mesmos tipos de trauma da população em geral, embora a reação de cada um deles seja diferente. É claro que eles são treinados para todos os tipos de ação que exigem confronto, mas continuam humanos e suscetíveis a vários tipos de problema que vão se acumulando com o tempo e a gravidade dos confrontos dos quais participam. No CLAVES temos trabalhado as questões de saúde dos policiais e acho que uma de nossas tarefas é contribuir para a sociedade humanizá-los. Eis algumas atitudes ligadas à vitimização desses agentes: Negação do perigo e consideração de que medo, ansiedade e choro são manifestações de fraqueza e devem ser reprimidas; Alteração da consciência frequentemente, em situações de elevado risco; dificuldades para lidar com o problema; sentimento de urgência da vida; desenvolvimento de distresse (estresse que debilita), entre outros.

 

N&A: Como se dá essa relação da violência com o distúrbio. Isso sempre varia da dimensão do confronto ou pode ser construído?

 

MCM: Eu creio que a relação dos agentes de violência em nome do Estado (os policiais) pode melhorar muitíssimo. Pois a lógica com que muitos agentes trabalham é ainda a lógica do “combate ao inimigo”. Acho que houve um rascunho dessa atitude de melhora quando os policiais do RJ tentaram se aproximar das pessoas nas manifestações de junho pedindo à população “ajudem-nos a proteger vocês”. Mas, na verdade, frente às provocações dos grupos de baderneiros (que seria necessário ainda distinguir melhor quem são) eles abusaram da força das armas ditas não letais. Há muito que aprender, há muito que melhorar, e tudo isso tem que ser provocado e incentivado pela sociedade: de um lado denunciando os excessos, de outro, apoiando as ações positivas!

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