CBN ouve Dra. Lígia Bahia em reportagem sobre concentração de horas extras no INTO


Júlio Lubianco – Rádio CBN

Com base em dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação, a CBN revela que uma pequena elite de profissionais do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia concentrou o pagamento de adicional por plantão hospitalar entre 2010 e 2012. O benefício é pago a servidores federais da área de saúde para garantir o funcionamento das unidades aos sábados, domingos e feriados. No Into, os plantões extras deveriam acelerar a fila por uma cirurgia, que tem 21 mil pacientes, mas isso não aconteceu. 
 
Um levantamento feito pela CBN revela que a maior parte dos valores destinados ao pagamento de adicional por plantão hospitalar no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia beneficiou apenas 10% dos profissionais de saúde que fizeram horas extras. A unidade fica na Zona Portuária do Rio de Janeiro e é referência nacional em cirurgias ortopédicas.
 
Os dados se referem ao período que vai de agosto de 2010, quando os plantões com adicional começaram a ser feitos, a dezembro do ano passado.
 
Ao todo, 1.247 funcionários do Into já receberam pelo trabalho extra pelo menos uma vez. Mas do total de R$ 7,5 milhões pagos, um pequeno grupo, que engloba 124 pessoas, ficou com R$ 4,6 milhões, equivalente a 61% dos recursos.
 
Para a professora Ligia Bahia, do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da UFRJ, é preocupante que um grupo pequeno de servidores concentre a maior parte dos recursos disponíveis para hora extra.
 
– A gente não consegue entender porque com mais recursos a gente não diminui as filas, os tempos de espera. Talvez uma explicação esteja aí. A sensação que dá quando a gente vê os números é que esse recurso foi utilizado para um pagamento muito concentrado, com uma distribuição exótica, digamos assim.
No topo do ranking dos maiores beneficiados por adicional por plantão hospitalar no Into está a enfermeira Kitty Crawford. Ela recebeu 78 mil reais de outubro de 2010 a dezembro de 2012. Em média, Kitty recebeu R$ 3.100 por mês só de hora extra. O valor representa um adicional de 72% no salário base dela, que é de R$ 4.300.
 
Outros quatro funcionários do Into receberam mais de 70 mil reais desde que o adicional começou a ser pago. Dois médicos clínicos, um anestesista e uma assistente social.
 
O adicional por plantão hospitalar é um benefício recebido por médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde que fazem plantões extras nos hospitais federais, e que, portanto, trabalham além das suas escalas normais. No Into, isso deveria servir para agilizar a fila de espera por uma cirurgia, que tem 21 mil pacientes.
 
Gente como o pedreiro Célio Henrique da Silva, de 35 anos. Ele sofre de osteonecrose no fêmur esquerdo e procurou o Into pela primeira vez em 2006. Segundo ele, na época, os médicos disseram que a cirurgia seria simples. No entanto, como o procedimento não foi feito, a condição dele se agravou. Sem poder trabalhar, Célio sobrevive com um salário mínimo do benefício do INSS. Ele mora em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, mas precisou se mudar porque não conseguia mais subir as escadas do prédio onde vivia.
 
– Quando eu entrei na fila, o médico colocou no papel que era urgente e disse que não tinha afetado a cabeça do fêmur. Ela estava íntegra. Com o passar o do tempo, eu não tenho mais a cabeça do fêmur e a operação é mais complexa. Vou colocar uma prótese que não era para colocar. Não ia perder um pedaço do meu osso e agora vou ter de perder.
 
O site do Into informa que Célio Henrique da Silva está "pronto para ser operado", mas a cirurgia ainda não foi marcada. Depois de um tumulto em frente ao Into no fim do ano passado, quando dois mil pacientes disputaram 500 senhas de atendimento, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou que dobraria o pagamento do adicional em 2013 como uma das medidas para reduzir a fila. Em dezembro, a CBN revelou que o adicional era pago desde setembro de 2010, sem impacto no número de cirurgias.
 
Sobre a concentração dos pagamentos a uma fração dos profissionais, o Into informou que são poucos os médicos, enfermeiros e auxiliares que se dispõem a trabalhar voluntariamente nos plantões. Com relação à enfermeira Kitty Crawford, a que mais recebeu por horas extras, o Into disse que ela trabalha na Coordenação da Unidade Hospitalar e que existe a necessidade de ela comparecer com frequência nos finais de semana para gerir o funcionamento do centro cirúrgico.
 
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