Pobreza na primeira infância afeta saúde e inteligência de crianças e adolescentes até a vida adulta, mostra estudo

Foto: Banco de imagens Piqsels

Crianças das famílias de baixa renda sofrem impacto duradouro da pobreza e têm maior risco de mortalidade infantil, desnutrição crônica, atraso de desenvolvimento, baixa escolaridade e gravidez na adolescência, em comparação com crianças de famílias mais ricas em países de baixa e média renda. É o que mostra estudo da Universidade Federal de Pelotas publicado nesta quarta-feira (27) na série Optimising Child and Adolescent Health, da revista The Lancet.

Os pesquisadores analisaram dados de inquéritos nacionais de 95 países de baixa e média renda, através de dez categorias de renda (ou decis), cada qual incluindo 10% das crianças do país. Os resultados mostram que as crianças do decil mais pobre têm risco de duas a três vezes maior de morrer até os cinco anos de idade, ter baixa estatura e atraso de desenvolvimento cognitivo para a idade, não completar o ensino fundamental, e, entre as meninas, ter filhos antes dos vinte anos de idade, quando comparadas a seus pares do decil mais rico.  As análises apontam, ainda, que quanto maiores as desigualdades socioeconômicas de um país, piores os resultados de saúde, nutrição e desenvolvimento cognitivo das crianças pertencentes às camadas mais vulneráveis das populações.

“Nossos dados fornecem evidências extremamente consistentes sobre os efeitos em curto e longo prazo da pobreza na infância. As crianças das famílias mais pobres morrem mais, são mais subnutridas e ficam para trás no desenvolvimento infantil. Estes efeitos persistem até a idade adulta. Isso é muito grave, pois compromete tanto a sobrevivência quanto a qualidade de vida e a capacidade produtiva de futuras gerações de crianças, adolescentes e adultos”, comenta o epidemiologista e líder do estudo, Cesar Victora, da Universidade Federal de Pelotas.

Para observar os efeitos específicos da pobreza na primeira infância sobre indicadores de saúde e capital humano na vida adulta, os autores também analisaram dados das seis maiores coortes de nascimentos de países em desenvolvimento, situadas no Brasil, Guatemala, Filipinas, África do Sul e Índia. As diferenças mais marcantes foram encontradas nos quocientes de inteligência (QI) dentro de duas das coortes de nascimentos da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde adultos expostos a pobreza extrema quando crianças apresentaram cerca de vinte pontos a menos no escore de QI do que as crianças do quintil mais rico.  

Essas disparidades também foram observadas em crianças menores de cinco anos de idade, indicando que fatores decorrentes da exposição à pobreza desde a primeira infância, tais como desnutrição e doenças infantis, têm impacto determinante sobre desigualdades de saúde e desenvolvimento intelectual, que iniciam desde a gestação e persistem até a vida adulta. Os primeiros mil dias de vida, que incluem a gestação e os dois primeiros anos, são fundamentais para determinar a saúde e o capital humano durante toda a vida.

Os autores do artigo do estudo esperam que gestores de políticas públicas reconheçam a importância dos riscos associados à pobreza e trabalhem para o estabelecimento de programas multissetoriais que garantam apoio social, nutricional e assistencial a crianças, ad­olescentes e jovens, desde o início da gestação.

“A pandemia de COVID-19 exacerbou os fatores que levam à pobreza na infância”, diz Victora. “Entretanto, ao desenvolver programas de recuperação, os formuladores de políticas públicas têm uma oportunidade sem precedentes de fortalecer políticas contra a pobreza e criar novos programas multissetoriais para reverter os impactos da pandemia sobre nossas crianças”, conclui o autor. 

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